Netanyahu lança campanha em meio a desgaste interno, pressão militar e incerteza política em Israel
A decisão de Benjamin Netanyahu de disputar um novo mandato, anunciada nesta quarta-feira (10), reacende tensões em um país marcado por guerra prolongada, crise política e desgaste de liderança. A campanha surge num cenário fragmentado, com coalizões instáveis e um eleitorado dividido sobre seu futuro.
A campanha de Benjamin Netanyahu ganha forma num momento em que Israel atravessa uma sucessão de crises militares, políticas e diplomáticas. Aos 76 anos, o premiê mais longevo de Israel tenta preservar o poder enquanto enfrenta críticas pela segurança, atritos com Washington e um processo por corrupção que se arrasta há anos.
A decisão de disputar um novo mandato, anunciada por seu partido, o Likud, recoloca em cena um líder que alterna fragilidade e resiliência, capaz de sobreviver a rupturas de coalizão, protestos massivos e derrotas eleitorais parciais. Mas o cenário atual, marcado por desgaste popular e fragmentação partidária, torna sua aposta mais incerta do que em disputas anteriores.
O cálculo político
O Likud confirmou que Netanyahu será candidato nas eleições previstas até outubro, afirmando que, "com a ajuda de Deus", ele pretende vencer novamente. A declaração encerra semanas de especulação sobre seu futuro político, num mandato marcado por três frentes de conflito desde 2023: Gaza, Líbano e Irã.
Os objetivos anunciados pelo governo - destruir a capacidade militar do Hamas, neutralizar o Hezbollah e restabelecer a dissuasão contra Teerã - seguem incompletos. A percepção de impasse militar pesa sobre o cálculo eleitoral do premiê.
Netanyahu, no poder por mais de 18 anos somados desde 1996, busca um último mandato enquanto tenta obter uma graça presidencial no processo por corrupção que o acompanha desde 2019.
A decisão de concorrer ocorre também em meio a dúvidas sobre sua relação com os Estados Unidos, aliado central de Israel. O presidente Donald Trump, questionado sobre a candidatura, classificou o tema como "uma questão em aberto", elogiou a carreira do premiê, mas disse não saber se ele "quer continuar".
Apesar do apoio histórico entre ambos, episódios recentes ligados à guerra contra o Irã expuseram divergências de abordagem entre Washington e Jerusalém.
Desgaste interno e críticas crescentes
Netanyahu segue responsabilizado por grande parte da opinião pública pelo fracasso de segurança que permitiu o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. A oposição o acusa de ter enfraquecido a coesão nacional, tanto pela reforma judicial que dividiu o país quanto pela condução da guerra em Gaza.
Desde o fim de 2022, ele governa com uma coalizão que reúne o Likud e partidos de extrema direita. Mas a saída das legendas ultraortodoxas - após o impasse sobre a conscrição de estudantes religiosos - deixou o governo sem maioria na Knesset: são 60 cadeiras num Parlamento de 120.
O premiê tem sido alvo de protestos frequentes, especialmente nas mobilizações que pedem a libertação dos reféns israelenses mantidos em Gaza.
Uma pesquisa do Israel Democracy Institute divulgada nesta semana indica que 61% dos israelenses - e 57% dos israelenses judeus — acreditam que Netanyahu não deveria se candidatar novamente.
Outro estudo, da emissora pública KAN, mostra o Likud levemente à frente da aliança Beyahad, formada por Yaïr Lapid e Naftali Bennett. Mas nenhum dos blocos aparece hoje com força suficiente para formar governo, reflexo da fragmentação do eleitorado.
Um veterano diante do teste mais difícil
A entrada oficial de Netanyahu na corrida eleitoral abre um novo capítulo para um líder que já sobreviveu derrotas, dissidências internas e crises diplomáticas. Desta vez, porém, enfrenta um país exausto pela guerra, dividido por reformas institucionais e desconfiado de sua capacidade de conduzir a segurança nacional.
A campanha, que tende a ser marcada por disputas sobre responsabilidade, liderança e futuro estratégico, definirá se o premiê conseguirá mais um feito político - ou se este será o limite de sua longevidade no poder.
Com AFP
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