Gisèle Pelicot fala sobre ter encontrado amor após condenação do ex-marido e de 50 homens que a estupraram: 'A vida sempre reserva belas surpresas'
Em entrevista à BBC, Gisèle Pelicot fala de traição, sofrimento familiar, cura e da escolha pelo caminho certo após o maior julgamento de casos de estupro já ocorrido na França.
Importante: esta reportagem contém relatos de estupro e violência sexual que podem ser perturbadores para alguns leitores.
Gisèle Pelicot, a mulher no centro do maior julgamento sobre estupro na França, declarou ao programa de TV Newsnight, da BBC, que ficou "devastada pelo terror" ao descobrir que seu marido a drogou repetidamente por anos, para deixá-la inconsciente e convidar dezenas de homens para estuprá-la.
Hoje com 73 anos, a sra. Pelicot conta que "algo explodiu dentro de mim", sobre o momento em que ela percebeu a escala dos crimes do seu marido. "Foi como um tsunami."
Em uma extensa entrevista antes da publicação das suas memórias, Um Hino à Vida (Ed. Cia. das Letras, a ser lançado no Brasil no final de fevereiro), ela relembra que telefonar para seus três filhos contando a notícia do que ela havia descoberto sobre o pai deles, possivelmente, foi a experiência mais difícil da sua vida.
'Descida ao inferno'
Gisèle Pelicot relembra o momento em que decidiu abrir mão do seu direito legal ao anonimato — uma decisão da qual nunca se arrependeu.
Ela também revela que ainda tem questões não respondidas que gostaria de fazer ao seu ex-marido na prisão, onde ele cumpre sua sentença de 20 anos. Ela se refere a ele como "sr. Pelicot".
O palco da entrevista é o Hôtel de Ville, no centro da capital francesa, Paris. Seus afrescos no teto e ricos revestimentos de madeira são muito diferentes das salas cinzentas dos tribunais onde ela foi vista pela última vez em público, durante os quatro meses do julgamento que abalou a França.
Ela descreve o momento que marcou o início do que ela chama de sua "descida ao inferno".
Ela havia acompanhado seu marido, Dominique Pelicot, a uma delegacia de polícia perto de casa em Mazan, no sul da França. Ele havia sido intimado por filmar secretamente embaixo de saias de mulheres em um supermercado.
Um policial levou a sra. Pelicot para um local reservado e começou a fazer uma série de questões cada vez mais incisivas.
Que tipo de homem é o seu marido? Um cara ótimo, ela respondeu. Vocês já praticaram troca de casais? Não, claro que não, protestou ela.
"Ele me disse: 'Vou mostrar algo de que a sra. não vai gostar.' Inicialmente, eu não entendi."
O policial mostrou a ela duas imagens de uma mulher desacordada, deitada na cama. Eram duas entre milhares de fotos e vídeos que o seu marido havia tirado dela enquanto estava drogada.
"Não me reconheci", relembra ela.
"Aquela mulher estava deitada na cama como se estivesse morta. Havia homens do lado dela. Eu não sabia quem eles eram. Não os conhecia. Nunca os havia visto."
Ela faz uma pausa, enquanto mexe com a armação vermelha dos seus óculos de leitura. À medida que relembra o choque, sua voz fica mais baixa, mas sem titubear.
A polícia contou a ela que havia sido repetidamente estuprada por dezenas de homens. Seu marido havia gravado, rotulado e catalogado claramente os vídeos dos estupros em um disco rígido, mas muitos deles não puderam ser identificados.
A polícia a aconselhou a não ficar sozinha depois que recebeu a notícia. Ela foi para casa atordoada e ligou para uma amiga.
"Eu disse a ela: 'Dominique está em custódia porque me estuprou e fez com que outros me estuprassem.'"
"Foi ali que eu usei a palavra 'estupro'. Foi depois de cinco horas de interrogatório que defini com palavras o crime do sr. Pelicot."
'Ouvi minha filha gritar. Era quase desumano'
Seus três filhos adultos — David, Caroline e Florian — também precisavam saber o que seu pai havia feito.
"Eu sabia muito bem que, para os meus filhos, seria imensamente difícil", conta Gisèle Pelicot. Ela, hoje, acredita que esses três telefonemas foram a ação mais difícil que ela precisou tomar na vida.
Ela relembra a reação de Caroline: "Ouvi minha filha gritar. Era quase desumano, aquele grito."
Ela também se recorda do seu filho mais velho, David, em estado de choque. E Florian, o mais jovem, imediatamente perguntou como ela estava.
"Eles perceberam que eu estava sozinha e poderia fazer algo estúpido. Também para eles, foi como uma explosão."
Seus filhos viajaram para ficar com ela em Mazan no dia seguinte. Desde então, todos os três relembram terem destruído ou jogado fora os pertences da família — dos móveis aos álbuns de fotografias, tentando eliminar a existência do seu pai.
Sua mãe ficou assistindo.
"Eu disse a mim mesma que minha vida estava em ruínas, que só o que me restava eram meus filhos."
Quando David nasceu, Gisèle Pelicot tinha pouco mais de 20 anos de idade. Desde então, seus filhos foram o centro da sua vida.
A maternidade passou a ser a sua forma de deixar para trás a infância marcada pela tristeza.
"Perdi minha mãe muito cedo e também meu irmão e meu pai", relembra ela. "Por isso, eu precisava reconstruir tudo o que havia perdido.
Durante a entrevista, Pelicot fala dos seus amados pais. O casamento deles influenciou profundamente sua compreensão do amor.
Ela tinha nove anos quando sua mãe morreu de câncer. Seu pai e a família mergulharam em um luto do qual nunca se recuperaram totalmente.
Conhecer o belo Dominique Pelicot, então com 19 anos e também ferido por uma infância difícil, forneceu a ela a possibilidade de começar de novo. Eles se casaram em 1973.
"Estávamos muito apaixonados e mergulhamos na vida", relembra ela, com voz firme. "E formamos família, pois aquele era o meu principal objetivo."
Traição inconcebível
Em 2011, Gisèle Pelicot começou a sofrer perda de memória. Ela atribuiu o fato a questões neurológicas, mas também enfrentava problemas ginecológicos persistentes.
Posteriormente, ficou comprovado que tudo foi causado pelos sedativos que ela recebeu e pelos estranhos que vinham estuprá-la diversas vezes por semana.
Ela consultou vários médicos. Seu marido estava ao seu lado durante os exames, todos inconclusivos. E também estava com ela toda manhã, após os ataques noturnos.
"Era inconcebível que aquele homem com quem compartilhei minha vida pudesse ter cometido aqueles horrores", conta Pelicot.
"Eu me levantava, tomava o café da manhã e ele me olhava nos olhos. E eu não sabia como ele havia me traído por tantos anos."
Ela ficaria sabendo posteriormente que, além das drogas, seu marido havia lhe dado poderosos relaxantes musculares, para que ela não sentisse nenhuma dor no dia seguinte, causada pelo que o seu corpo havia enfrentado durante a noite.
Agora, ela acredita que seu corpo abusado estava perto de se entregar e sua sobrevivência estava em risco.
"É difícil para mim reconhecer que ele não tinha piedade", ela conta.
As consequências para a família
As revelações afetaram toda a família, segundo Gisèle Pelicot.
"É errado pensar que uma tragédia dessas reúne uma família. Levamos um longo tempo para nos reconstruirmos."
Sua filha Caroline, em particular, foi condenada a um "tormento perpétuo", afirma ela, já que fotos dela dormindo com roupa de baixo foram encontradas no laptop do seu pai.
"Achei o olhar incestuoso que ele lançou sobre sua filha absolutamente insuportável."
O ex-marido da sra. Pelicot forneceu explicações contraditórias para aquelas fotos. Caroline está certa de que ele também a drogou e a estuprou, mas a falta de evidências fez com que ele nunca fosse indiciado.
As relações entre mãe e filha ficaram abaladas durante o julgamento. Caroline conta que se sentia uma "vítima esquecida".
Em vários momentos, antes e depois do processo, Pelicot perdeu o contato com algum dos seus filhos.
"Caroline precisou de tempo, pois ela estava cheia de ódio e rancor, que são sentimentos que não tenho", conta ela.
"Não tive rancor, nem ódio. Eu me senti traída e afrontada pelo sr. Pelicot, mas é assim que eu sou."
A sra. Pelicot conta que ela e a filha, agora, estão restaurando seu relacionamento.
"Cada uma de nós precisava de tempo para encontrar o seu próprio caminho. Hoje, estamos tentando trazer paz uma à outra e espero que este seja o nosso rumo certo para a cura."
Mais revelações
Novas revelações viriam a seguir.
Em 2022, a polícia informou a Gisèle Pelicot que seu marido havia reconhecido uma tentativa de estupro de uma jovem. Ele também era investigado pela morte de uma corretora de imóveis de 23 anos em Paris, em 1991, mas nega a acusação.
Era demais para a sra. Pelicot que seu marido pudesse ser um assassino, além de um estuprador em série.
"Sinceramente, espero que ele não seja o autor deste crime hediondo porque, se for, seria mais uma descida ao inferno, para mim e para os seus filhos."
Enquanto ocorria a investigação, ela se mudou para a sossegada Île de Ré, uma pequena ilha no litoral francês no Oceano Atlântico.
"Eu realmente queria ficar na sombra", conta Pelicot. "Não queria que absolutamente ninguém soubesse quem eu era."
Como ocorre com as vítimas de estupro na França, Gisèle Pelicot tinha direito a um julgamento a portas fechadas, com total anonimato e longe da imprensa.
Ela havia recusado as sugestões de sua filha, de ter uma audiência aberta. Consolidar sua posição de vítima de um crime hediondo a preocupava.
Mas, enquanto andava na praia quatro meses antes do início do caso, algo mudou dentro dela.
Ela percebeu que uma audiência fechada faria com que os homens sendo julgados se beneficiassem do anonimato. E também a deixaria em minoria, com 51 homens e 40 advogados contra ela, sua pequena equipe legal e seus filhos.
'Se eu consegui, todas as vítimas também podem'
"Carreguei esta vergonha por mais de quatro anos", conta a sra. Pelicot. "E senti que era uma dupla punição para as vítimas, um sofrimento que impúnhamos a nós mesmas."
Seus advogados deram a ela uma semana para decidir se realmente desejava abrir o julgamento para o público e para a imprensa. Ela precisou de apenas uma noite.
"Na manhã seguinte, eu já sabia", relembra ela. E era uma escolha extraordinária.
"Nunca me arrependi da minha decisão, nem por uma vez", afirma ela.
"Era também uma mensagem para as vítimas que não ousavam fazer o mesmo... Poderia dar a elas um pouco da força que encontrei em mim."
"Pois temos dentro de nós recursos de que eu nem suspeitava. E, se eu consegui fazer, todas as vítimas também podem. Estou certa disso", prossegue ela, sem hesitação.
Em 2024, o julgamento de Dominique Pelicot explodiu em plena vista da França e de todo o mundo.
'Força inacreditável'
A capacidade demonstrada por Gisèle Pelicot, de mostrar ao público a perversidade a que foi submetida — a "sujeira", como ela chama repetidamente — é o testemunho da sua resiliência.
Todos os dias, ela se manteve de cabeça erguida enquanto entrava no tribunal de Avignon. Uma multidão de mulheres se reunia no lado de fora para demonstrar o seu apoio e ela agradecia com um leve aceno e uma das mãos no coração.
A sra. Pelicot relembra que as dezenas de câmeras que a rodeavam forneceram a ela uma "força inacreditável".
"Para mim, elas foram um alívio para o que acontecia no tribunal", ela conta. "Sozinha, acho que teria sido difícil."
Do Reino Unido, a própria rainha Camilla expressou sua admiração com uma carta pessoal, que a surpreendeu.
"Fiquei emocionada e muito honrada... Sou grata a ela."
Durante toda a entrevista, Gisèle Pelicot mantém a compostura e a confiança.
Mostramos vídeos de mulheres francesas, filmadas pela equipe do programa Newsnight, agradecendo a ela pela decisão de abrir a audiência ao público.
"Muito obrigada por ser tão corajosa", diz uma das mulheres. "Estamos aqui para apoiá-la! A vida é bela, senhora!", diz outra.
À medida que os rostos surgem em sequência, pela primeira vez, Pelicot enxuga uma lágrima.
"Fico imensamente emocionada porque estes são os rostos que encontrei durante o julgamento", ela conta. "Eu as vi empunhando cartazes, vi suas colagens, vi as faixas."
"Elas são realmente excepcionais", diz ela, sorrindo.
O 'julgamento da covardia'
No tribunal, Gisèle Pelicot e sua família enfrentaram cerca de quatro meses de insinuações veladas e abertas acusações de cumplicidade, tanto dos réus quanto dos seus advogados.
"Você enfrenta o inferno em um tribunal", relembra ela. "Você realmente é humilhada."
Na época, isso a levou a chamar o que estava ocorrendo de "julgamento da covardia". E, também agora, sua voz se levanta levemente quando ela relembra aqueles momentos."
"Eles não queriam reconhecer o que haviam feito", diz ela, sobre os 50 homens que seu marido permitiu que abusassem dela.
Sua sensação é que eles agiram como se tivessem cometido um crime pequeno e se recusavam a aceitar que ela não podia dar seu consentimento.
"Mas o vídeo confirmando a verdade estava por ser mostrado", relembra ela.
"Pudemos ver aquele homem me estuprando. Ele ouvia novamente aquelas questões e respondia: 'Não, eu não a estuprei, não tive nenhuma intenção de estuprá-la.'"
"Que rumo devemos tomar a partir daqui?", ela se pergunta, indignada.
"Acho que eles acreditavam que não poderiam ter me estuprado porque o sr. Pelicot estava ali e havia dado seu consentimento. Por isso, eles não consideravam aquilo um estupro", conclui ela.
Os sete juízes que dirigiram o caso rejeitaram o argumento e todos os réus foram considerados culpados.
Seu ex-marido (o divórcio foi finalizado pouco antes do julgamento) recebeu a sentença máxima de 20 anos de prisão. Os outros 50 foram detidos por períodos que variaram de cinco a 15 anos.
Reconstruindo a vida
Enquanto Gisèle Pelicot fala, um viúvo alto de óculos observa discretamente. Seu nome é Jean-Loup e eles se conheceram em Île de Ré, em 2023.
"Tivemos este golpe de sorte", ela conta, com a voz ponderada e cordial. "Nós nos apaixonamos como adolescentes, quando nenhum de nós esperava."
E, desde então, eles são um casal.
"A vida colocou no meu caminho um homem que tem os mesmos valores, os mesmos princípios que eu. E que também passou por muitas provações."
"Veja, a vida sempre revela belas surpresas", prossegue ela, com a cabeça inclinada para o lado. "Ela trouxe muito colorido para as nossas vidas."
Já faz quase seis anos desde que Gisèle Pelicot observou as fotos de uma mulher que parecia "morta".
A questão do motivo que levou seu ex-marido a submetê-la a anos de abusos permanece no horizonte. Dominique Pelicot reconheceu na Justiça que ele queria "subjugar uma mulher invencível".
"Ele teria gostado que eu participasse de sessões de troca de casais e eu sempre me recusei, porque tenho um senso de recato", ela conta. "Acho que ele encontrou uma forma de contornar isso me subjugando."
Mas como ele teria idealizado fazer isso é uma outra questão. "Talvez eu me pergunte isso pelo resto da vida", ela conta.
A sra. Pelicot declarou que pretende visitá-lo na prisão para perguntar o que ele teria feito para a filha do casal, Caroline, e sobre o caso de assassinato no qual ele está envolvido.
"Preciso encontrá-lo para ter respostas. Não sei se as terei, mas preciso olhar para ele, olho no olho."
Paralelamente, ela continua reconstruindo sua vida.
"Estou me curando", segundo ela.
Gisèle Pelicot resiste à ideia de rejeitar totalmente a vida que ela teve com seu ex-marido.
"Para poder viver, precisei pensar que os 50 anos que passei com o sr. Pelicot não foram apenas uma mentira. Porque, se não fosse assim, seria como se eu estivesse morta. Como se eu não existisse mais."
Em um dos raros momentos em que ela depôs no julgamento, a sra. Pelicot disse ao seu ex-marido que sua traição havia sido "imensurável".
"Sempre tentei levar você em direção à luz, mas você escolheu as profundezas da alma humana", ela disse. E é um sentimento que ela mantém até hoje.
Na vida, segundo ela, "você sempre precisa escolher, decidir qual caminho seguir. Existe o caminho certo e o errado."
"Em relação a mim, sempre escolhi andar na direção do bem", conclui ela, com sua voz inabalável.
Assista à entrevista de Gisèle Pelicot ao programa de TV Newsnight (em inglês), que deu origem a esta reportagem, no canal da BBC News no YouTube.