'Não é por mim, mas por todas': Avignon revive julgamento Pelicot em poderosa noite teatral
Menos de um ano após um julgamento que chocou a França e chamou a atenção internacional, o Festival de Avignon, o maior encontro de artes cênicas do mundo, reviveu a história de Gisèle Pelicot, a francesa de 72 anos que denunciou ter sido drogada e violentada por cerca de dez anos pelo próprio marido e dezenas de homens recrutados pela internet.
Menos de um ano após um julgamento que chocou a França e chamou a atenção internacional, o Festival de Avignon, o maior encontro de artes cênicas do mundo, reviveu a história de Gisèle Pelicot, a francesa de 72 anos que denunciou ter sido drogada e violentada por cerca de dez anos pelo próprio marido e dezenas de homens recrutados pela internet.
O caso, conhecido como julgamento Pelicot, expôs a prática brutal da submissão química — uso de substâncias para manipular e abusar sexualmente das vítimas — e levantou um debate essencial sobre violência contra mulheres.
Na última sexta-feira (18), durante o tradicional Festival de Teatro de Avignon, uma noite especial reuniu atores, advogados, psiquiatras e ativistas para recontar, por meio de leituras dramáticas, os momentos mais marcantes desse julgamento histórico. A iniciativa buscou não só manter viva a memória da luta de Gisèle, mas também dar voz a todas as mulheres que sofrem formas semelhantes de violência, muitas vezes invisibilizadas.
Por "todas as mulheres"
"Não é por mim que testemunho, mas por todas as mulheres que sofrem submissão química", disse a atriz Ariane Ascaride, que foi a primeira a dar voz a Gisèle Pelicot no palco do claustro das carmelitas, transformado em tribunal, onde, durante quatro horas, cerca de 50 participantes reconstituíram os momentos-chave dos três meses deste julgamento fora do comum.
"Prolongar o gesto de Gisèle Pelicot", que recusou que as audiências, realizadas de setembro a dezembro de 2024, fossem fechadas ao público, "foi algo óbvio para todos", explicou o diretor suíço Milo Rau, 48, que idealizou essa noite de leituras em Viena, na Áustria, em junho.
Para ele, era impensável não apresentar uma versão - mais curta e com atores francófonos - em Avignon, durante o festival de teatro, a poucos metros do tribunal onde aconteceram os debates sobre esta mulher de 72 anos, drogada e estuprada durante cerca de dez anos por seu marido e dezenas de homens recrutados pela internet.
Para qualificar o evento, Rau, acostumado ao teatro documental, prefere o termo "oratório": "é algo reconstruído, não só arquivos, são reescrituras, mas também porque tem um ritmo épico".
Gisèle Pelicot "transformou o tribunal em teatro, e nós transformamos o teatro em tribunal", destaca o diretor, que já trabalhou em outras produções baseadas em casos judiciais.
"Há momentos absurdos, engraçados, complexos, horríveis, violentos", acrescenta, como na descrição dos vídeos dos estupros, que levou uma das atrizes às lágrimas.
No centro do palco, duas narradoras relembram os fatos, colocam perguntas e conduzem as sequências lidas por atores sentados em bancos de madeira de ambos os lados do palco.
O "preço da liberdade"
Entre eles, atores que estão atuando no festival de Avignon, como Adama Diop, que interpreta um dos advogados de Gisèle Pelicot, e Philippe Torreton, que lê um dos depoimentos de Dominique Pelicot, ex-marido dela, condenado a 20 anos de prisão por tentar "fazer pagar o preço da liberdade" dela.
Também participam membros da sociedade civil, como o psiquiatra Laurent Layet, que atuou no julgamento, a advogada Anne Lassale e a ativista Camille Etienne, que reproduzem trechos das defesas dos advogados de Gisèle. A própria Gisèle Pelicot é representada pelas atrizes Marie-Christine Barrault e Marie Vialle.
"Para nós, era importante reunir essa espécie de comunidade do julgamento", conta a dramaturga Servane Dècle, que organizou os textos a partir, principalmente, de "anotações de jornalistas" e também da "decisão de acusação".
"Temos ainda fragmentos de editoriais e entrevistas", explica, para mostrar as múltiplas repercussões que o caso teve e ainda tem na sociedade.
"Percebemos o quanto o próprio formato do julgamento impedia o acesso a certa complexidade", acrescenta. Levar isso ao palco foi também uma forma de responder a uma certa "frustração" que muita gente sentiu ao acompanhar o processo.
Eles queriam "continuar falando e tentando entender (...) este caso, que é ao mesmo tempo um exemplo perfeito da banalidade do estupro (...) mas também um caso completamente fora do comum, que não tem nada de banal", conclui.
Apesar de Gisèle Pelicot ter virado um "ícone", "o julgamento continuou sendo uma espécie de notícia policial, especialmente no exterior", observa Milo Rau, "mas quanto mais se lê sobre ele, mais se entende que é, infelizmente, um caso universal".
(Com AFP)