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Complexo abandonado por estelionatários no Camboja inclui simulacro de delegacia da PF

6 fev 2026 - 16h26
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Em um complexo cambojano usado para cometer estelionato contra vítimas de várias partes do mundo, uma das salas simula uma delegacia da Polícia Federal, com o emblema da corporação e a bandeira do Brasil.

O local foi encontrado por repórteres da Reuters na segunda-feira dentro de um complexo bombardeado perto da fronteira entre a Tailândia e o Camboja, que oferece uma das visões mais claras até agora da fraude em escala industrial que roubou bilhões de ‌dólares de vítimas em todo o mundo.

Também havia salas projetadas para se parecerem com delegacias de polícia de Cingapura e da Austrália. Papéis estavam espalhados pelas mesas e pelo chão, os resíduos de uma fábrica de fraudes abandonada às ‌pressas.

Entre os documentos estavam os perfis de um aposentado japonês de 73 anos, com seu número de telefone e saldo bancário, e de uma norte-americana que revelou ser vítima de violência doméstica. Perto dali, havia roteiros para cometer golpes amorosos e se passar por policiais, bem como uma sala montada para se parecer com um escritório bancário vietnamita.

Operações policiais e ataques aéreos militares forçaram gangues criminosas a fugir de dezenas de complexos usados para prática de estelionato no Camboja nas últimas semanas. A visita ao local, conhecido como Royal Hill, foi facilitada pelos militares tailandeses, que o bombardearam durante um breve conflito fronteiriço em dezembro e, desde então, ocupam a área circundante.

A Reuters é o primeiro ‍veículo de comunicação a conferir alguns dos documentos, que registram a maneira sofisticada como os golpes são realizados. A agência de notícias verificou um dos documentos entrando em contato com o aposentado japonês, que disse ter recebido uma ligação no final do ano passado de alguém que alegava ser de uma empresa de eletricidade e que o avisou que sua energia seria cortada se ele não fornecesse seus dados bancários.

A vítima não enviou dinheiro, mas revelou informações pessoais durante a ligação, incluindo detalhes encontrados no registro visto pela Reuters. "Se a energia fosse cortada, isso seria um problema sério, pois moro nas montanhas", disse ‌ele. "Eu deixei (os detalhes) escapar sem pensar e depois percebi que tinha sido uma má ideia."

Não ficou claro de imediato qual tipo de golpe era aplicado usando a ‌sala com um simulacro de delegacia da Polícia Federal brasileira. Procurada, a PF não respondeu de imediato a pedido de comentário.

A Reuters não conseguiu determinar qual entidade tinha o controle final do complexo Royal Hill no Camboja, onde os registros de terras não são facilmente acessíveis.

Documentos em chinês encontrados no local descreviam que a administração não identificada do complexo havia alugado espaço para diferentes grupos de golpistas. Uma pessoa chamada Zhang, identificada nos documentos como inquilina, não respondeu às ligações solicitando comentários.

O governo cambojano disse em um comunicado na quarta-feira que o complexo era um hotel que a Tailândia havia ocupado à força.

O porta-voz do Ministério do Interior, Touch Sokhak, disse separadamente, em resposta a perguntas sobre o Royal Hill, que o governo "tem a vontade" de reprimir os centros de golpes e repetiu a promessa do governo de eliminar a fraude cibernética até abril.

O Sudeste Asiático emergiu nos últimos anos como um epicentro da indústria global de fraudes cibernéticas. Complexos que são em sua maioria administrados por gangues criminosas chinesas e cujos funcionários são em parte vítimas de tráfico humano que vivem em condições brutais proliferaram em Camboja, Laos, Filipinas e áreas sem lei na fronteira entre Mianmar e Tailândia.

Muitos desses países têm sido pressionados por governos estrangeiros, como dos Estados Unidos, a reprimir os golpes. Os EUA estimam que os norte-americanos perderam US$10 bilhões em golpes aplicados do Sudeste Asiático em 2024.

Os ataques de dezembro pela Tailândia -- cujas Forças Armadas afirmaram que os centros também estavam sendo usados para organizar ataques com drones durante o conflito na fronteira -- e uma repressão pelo governo cambojano levaram ao êxodo de mais de 100.000 pessoas de complexos em todo o país.

Muitos se alinharam do lado de fora das embaixadas na capital, Phnom Penh, em busca de ajuda e fundos para voltar para casa, no que a Anistia Internacional chamou de "crise humanitária".

A Agência Nacional de Polícia do Japão e a Embaixada dos EUA em Bangcoc não responderam aos pedidos de comentários sobre os documentos que pareciam mostrar seus cidadãos sendo alvos.

O complexo visitado pela Reuters está localizado na cidade fronteiriça de O'Smach, que o Relatório Anual sobre Tráfico de Pessoas do Departamento de Estado dos EUA destacou em 2024 como um centro de abusos.

Arquivos encontrados em uma parte do complexo que, segundo os militares tailandeses, parecia ser usada pelos gerentes do local mostram até que ponto as gangues criminosas vão para proteger suas operações.

Um documento mostrava como os chefes ‌exigiam exercícios antissubversivos e de emergência no estilo militar, enquanto outro incluía ordens aos seguranças para impedir que as pessoas "vagassem" nas proximidades.

Um aviso da administração da propriedade também proibia o uso de serviços de entrega de comida que pudessem trazer pessoas de fora para o local. Outros documentos proibiam "atividades ilegais" não especificadas, proibiam os trabalhadores de andar sem camisa e exigiam um comportamento "civilizado".

A Reuters também encontrou demonstrações financeiras que descreviam como os gerentes não identificados do complexo fraudulento cobravam dos inquilinos vários milhares de dólares por mês em aluguel. Algumas das gangues criminosas estavam com o aluguel atrasado, mostram as demonstrações.

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