Biodiversidade: ONU vê avanço histórico na restauração de ecossistemas, mas cobra aceleração dos esforços
Enquanto a COP17 da Biodiversidade chega ao fim em Yerevan, na Armênia, a ONU publicou, nesta quinta-feira (29), um relatório sobre os esforços realizados ao redor do mundo para restaurar ecossistemas degradados. Embora os autores reconheçam o surgimento de "um dos maiores movimentos em prol da natureza da história moderna", alertam que o ritmo atual ainda está longe do necessário para cumprir as metas globais estabelecidas para 2030.
Relatório da ONU apresentado na COP17 aponta avanço histórico na restauração de 252 milhões de hectares em 149 países, liderados pela China, com o Brasil em sexto. Porém, o total cobre apenas 25% da meta global para 2030, exigindo triplicar o ritmo e quadruplicar o financiamento, sobretudo em áreas marinhas e de água doce. Em apoio à agenda, os Países Baixos anunciaram aporte de US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, criado pelo Brasil para remunerar a preservação florestal.
Atualmente, os países estão restaurando cerca de 252 milhões de hectares de ecossistemas, um nível sem precedentes, segundo o documento. Apesar do avanço, a área corresponde a apenas cerca de 25% do total que os governos se comprometeram a recuperar até o fim da década.
"Este relatório registra a maior operação de restauração já documentada", afirmou Doreen Robinson, diretora adjunta da Divisão de Ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), durante uma coletiva de imprensa em Nairóbi. A área atualmente em recuperação equivale a cerca de um quarto do território do Brasil.
O relatório, de 99 páginas, foi divulgado durante a COP17 da Biodiversidade, que termina nesta sexta-feira (30). A conferência marca a primeira avaliação coletiva dos avanços obtidos desde a adoção, em 2022, do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, considerado o principal acordo internacional para conter a perda de biodiversidade até 2030.
Pela primeira vez, os países signatários avaliam conjuntamente o progresso em relação às 23 metas do acordo. Nesta edição, o foco foi menos a adoção de novos compromissos e mais a verificação dos resultados concretos alcançados desde sua aprovação.
O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal prevê, entre outras metas, a proteção de 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até o fim da década.
Segundo o relatório, os esforços de restauração registrados em 149 países concentram-se principalmente em áreas terrestres, que somam 232 milhões de hectares. Em seguida, aparecem os ecossistemas de águas interiores, com 11 milhões de hectares recuperados, e os ambientes marinhos e costeiros, com 5,7 milhões de hectares.
Resultados aquém do esperado
O diagnóstico é o primeiro levantamento global sobre o cumprimento dos compromissos assumidos pelos países. Segundo a ONU, embora a recuperação de ecossistemas esteja ocorrendo em escala inédita, o avanço atual ainda é insuficiente para atingir as metas previstas para o fim da década.
O documento destaca que os resultados permanecem "muito aquém das metas estabelecidas" para ecossistemas de água doce, marinhos e costeiros. Esses ambientes "estão se degradando em ritmo particularmente acelerado", enquanto a restauração das áreas terrestres já alcançou aproximadamente metade da meta prevista para esse tipo de ecossistema.
No âmbito da Década da ONU para a Restauração de Ecossistemas (2021-2030) e do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, os países se comprometeram a ampliar significativamente os esforços para conter a perda de biodiversidade e recuperar áreas degradadas.
Além da recuperação da natureza, que pode envolver medidas como o reflorestamento e a restauração de rios e áreas úmidas, as iniciativas já resultaram na criação de mais de 1 milhão de empregos no mundo. A expectativa é que esse número chegue a 32 milhões até 2030.
Mesmo assim, o relatório conclui que o ritmo atual precisa triplicar para que a meta de restaurar cerca de 1 bilhão de hectares seja atingida até o fim da década. O financiamento anual destinado à restauração também precisará mais que quadruplicar, especialmente com uma participação maior do setor privado.
A China lidera com ampla vantagem os esforços de restauração terrestre, com cerca de 127 milhões de hectares recuperados. Na sequência aparecem Mongólia, Cazaquistão e Etiópia. O Brasil figura em sexto, com 3,41 milhões de hectares restaurados.
Investimentos no TFFF
Dentro dos esforços internacionais de proteção da biodiversidade, o governo dos Países Baixos anunciou na segunda-feira (26) a intenção de investir US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo idealizado pelo Brasil e lançado oficialmente durante a COP30, em Belém.
O TFFF combina recursos públicos e privados e prevê pagamentos a países com florestas tropicais que consigam conservar essas áreas e reduzir o desmatamento.
O mecanismo difere dos modelos tradicionais baseados exclusivamente em doações, porque remunera resultados de conservação, recompensando a manutenção das florestas em pé.
Além disso, prevê a participação direta de povos indígenas e comunidades tradicionais, responsáveis por grande parte da proteção desses territórios. Pelo menos 20% dos recursos recebidos pelos países deverão ser destinados a essas populações.
O aporte prometido pelo governo holandês será distribuído ao longo de dez anos. Segundo Haia, o investimento reforça o compromisso do país com as metas internacionais de clima e biodiversidade.
RFI e AFP
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