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Vietnã e EUA iniciam, enfim, descontaminação de agente laranja

9 ago 2012
15h37
atualizado às 16h54

Perto da antiga base americana em Danang, crianças com más-formações e avôs com câncer continuam sofrendo as consequências da guerra do Vietnã, nas depois de décadas de espera, as operações de descontaminação de agente laranja por fim começaram.

Nguyen Thi Luu, 38 anos, que morou perto da base por 13 anos, e sua filha de 11 anos, que tem problemas mentais e más-formações no rosto
Nguyen Thi Luu, 38 anos, que morou perto da base por 13 anos, e sua filha de 11 anos, que tem problemas mentais e más-formações no rosto
Foto: AFP

Oitenta milhões de litros do desfolhante com uma perigosa dioxina foram espalhados pelos americanos nas selvas do sul do Vietnã para destruir os bosques e os cultivos usados pela guerrilha comunista vietnamita. E boa parte dos produtos foram misturados, armazenados e carregados nos aviões em Danang.

Nesta operação de limpeza histórica americano-vietnamita, iniciada oficialmente na quinta-feira, o solo contaminado será submetido a um processo de aquecimento para transformar a dioxina em um componente inofensivo.

"A dioxina do agente laranja continua causando graves consequências", disse, na cerimônia, o vice-ministro vietnamita da Defesa, Nguyen Chi Vinh. Enquanto os americanos consideram que o vínculo entre a exposição ao produtos e as doenças é "incerto", os moradores próximos à base não têm a menor dúvida.

Nguyen Thi Binh, 78 anos, deixou de acreditar que os pecados cometidos em uma vida sejam os responsáveis pelas graves deficiências física e mental de três de seus cinco filhos.

"Disseram-me que poderia ser o agente laranja", explicou à AFP em sua minúscula casa de Danang enquanto suas filhas adultas não se separam dela."Durante a guerra, quando morávamos literalmente ao lado da pista, algumas noites tínhamos que tapar a boca por causa de um cheiro estranho", acrescentou.

A base de Danang, cujos arredores foram proibidos há apenas cinco anos, é um dos três lugares mais contaminados do país, com concentrações de toxinas 400 vezes superiores às normas aceitas, segundo estudos recentes.

O resultado é que a incidência do câncer, as deformidades em bebês e outras doenças ligadas à dioxina são mais elevadas do que a média nacional, denunciam as associações de vítimas. E os efeitos continuam sendo sentidas.

"Continuamos encontrando pessoas muito jovem por doenças" ligadas ao agente laranja, disse Nguyen Van Rinh, presidente da associação das vítimas vietnamitas do agente laranja/dioxina (VAVA). Hanói estima que até três milhões de pessoas estão expostas a este desfolhante e que um milhão continuam sofrendo as consequências.

Mas as vítimas vietnamitas não conseguiram obter as compensações financeiras dos americanos. Os veteranos americanos receberam milhões de dólares por doenças vinculadas ao agente laranja, mas o governo americano e os fabricantes de produtos químicos nunca admitiram sua responsabilidade no caso dos vietnamitas.

No Vietnã, o vínculo entre exposição ao produto e doenças é "incerto", disse o porta-voz da embaixada americana, Christopher Hodges. Mas desde 1989, Washington doou 54 milhões de dólares para ajudar os vietnamitas incapacitados, "independentemente da causa", e US$ 20 milhões foram programados para a limpeza da base de Danang e projetos ligados aos incapacitados em 2012, informou à AFP.

O projeto de Danang, com orçamento total de US$ 43 milhões, começa em um momento em que os dois ex-inimigos tentam estreitar laços diante das ambições chinesas no Mar da China meridional. Mas "esta limpeza chega tarde demais porque afetou muita gente", disse Nguyen Thi Hien, encarregado da VAVA em Danang.

Gente como Nguyen Thi Luu, de 38 anos, que morou perto da base por 13 anos, e sua filha de 11 anos, que tem problemas mentais e más-formações no rosto. "Os médicos me disseram que nasceu assim", disse à AFP. "Não entendo nada. A vida é muito dura com um filho assim", afirmou.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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