Neto de Mao vira major-general do exército da China
- Andrew Jacobs
- Do New York Times
Ele aprecia porções generosas de carne de porco temperada à moda chinesa, conta com grande número de fãs no país e mantém um blog escancaradamente patriótico. Agora, Mao Xinyu, 39 anos, neto e único herdeiro homem sobrevivente de Mao Tsé-Tung, se tornou o mais jovem major-general no Exército de Libertação Popular da China, de acordo com a imprensa estatal.
Ainda que sua promoção não tenha sido anunciada oficialmente pelas forças armadas, a notícia foi reportada na quinta-feira pelo Diário de Changjiang e está entre as notícias mais lidas nos portais chineses, enquanto o país se prepara para celebrar o 60° aniversário da chegada de Mao e os comunistas ao poder.
Historiador formado pela Escola Central do Partido Comunista e guardião zeloso do pensamento político de Mao Tsé-Tung, o jovem Mao é um dos quatro netos do Grande Timoneiro. Ainda que a mídia oficial o trate com considerável respeito, ele é alvo de certa zombaria para os chineses comuns, que brincam sobre seu desempenho escolar medíocre, seu desmazelo e sua notável rotundidade: nos últimos anos, seu peso ultrapassou os 90 quilos.
A reação à notícia de sua promoção, ao menos de parte dos comentaristas anônimos em sites chineses, trazia fortes traços de sarcasmo. "Um excelente exemplo para o nosso exército; líder militar sem paralelos e teórico de altíssima qualidade", afirmava um dos comentários.
Muita gente mencionou o fato de que ele tem um casal de filhos, em uma sociedade na qual a maioria das famílias só está autorizada a ter um filho. Mas ao contrário de outros descendentes de líderes chineses, ele não tem a reputação de "principezinho", um apelido derrogatório dos chineses para as pessoas que exploram suas conexões familiares em busca de oportunidades de negócios lucrativos ou poder político.
No passado, a ambição de Mao era a prefeitura de uma grande cidade, mas ele terminou por se acomodar a uma carreira que se provou frutífera nas forças armadas. Também encontrou sucesso como escritor de livros e artigos sobre o legado de seu avô.
O neto não costuma tratar das repercussões dos erros do líder, entre as quais dezenas de milhões de pessoas mortas de fome como resultado de suas políticas fracassadas, ou das muitas vidas destruídas pela brutalidade da chamada Revolução Cultural.
Em entrevistas, Mao oferece elogios previsíveis ao seu avô, a quem descreve como "a coluna dorsal do povo chinês", ou simplesmente "o camarada". "Sem a orientação do pensamento de Mao Tsé-Tung e da teoria marxista, nossa modernização e industrialização não poderiam ter sido realizadas", ele declarou em entrevista publicada no mês passado pelo jornal "Semana Popular do Sul". "Nem em mil anos a China voltará a produzir alguém com a grandeza de Mao Tsé-Tung".
Mao diz que não tem recordações de seu avô, morto em 1976 e responsável por batizá-lo com o prenome "Xinyu", ou "novo universo". O pai dele, Mao Anqing, sofria de uma doença mental, e o menino foi criado pela mãe, fotógrafa e general do exército conhecida pela disciplina que impunha à família.
Em entrevista publicada no ano passado pelo Notícia Expressa, um jornal de Guangzhou, Mao se queixou da pressão sofrida por ter nascido como parte da mais famosa família do país. "Como descendente do Líder, sofro muita pressão", disse. "Sinto que as pessoas estão sempre observando meu comportamento, e por isso preciso me sair bem".
Tradução: Paulo Migliacci ME