'Violento demais': arrependimento de latinos que votaram em Trump pode pesar em eleições nos EUA
Parte do eleitorado latino que elegeu Donald Trump em 2024 manifesta hoje arrependimento diante da política migratória aplicada em Minneapolis, onde operações federais resultaram em mortes e detenção de crianças. Pastores e trabalhadores sem documentos relataram à agência AFP medo, indignação e frustração, enquanto pesquisas indicam que latinos indecisos se afastam do presidente norte-americano. O caso evidencia a tensão entre valores conservadores e os efeitos reais das medidas de repressão.
Nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, Edgar Hernandez, como muitos latino-americanos, votou em Donald Trump. Um ano depois da recondução do republicano à Casa Branca, o pastor protestante vive um profundo sentimento de arrependimento diante da brutalidade da política migratória aplicada em Minneapolis, onde duas pessoas morreram em janeiro durante operações das autoridades federais.
"Não concordo com o que está acontecendo, é violento demais", diz Hernandez. Ele foi parte da chamada "onda latina" que contribuiu de forma decisiva para a vitória do bilionário norte-americano, num movimento que redesenhou o mapa eleitoral de um eleitorado historicamente alinhado ao Partido Democrata.
As operações ostensivas realizadas em plena rua por milhares de agentes federais, numa cidade do Meio-Oeste tradicionalmente governada por democratas, tiveram efeitos imediatos sobre sua comunidade religiosa. A igreja do pastor praticamente esvaziou. Há dois meses, apenas um quarto dos fiéis comparece aos cultos de domingo. Os demais, em sua maioria trabalhadores indocumentados, permanecem escondidos em casa, temendo abordagens e prisões.
Hernandez faz uma distinção que se repete em entrevistas e pesquisas com eleitores latinos: "Todos os hispânicos concordam que, se uma pessoa está aqui ilegalmente e comete delitos, roubos ou assassinatos, ela deve ser presa e expulsa. Mas não concordo em expulsar pessoas que estão aqui por necessidade e que não fizeram nada".
Polarização?
Aos 45 anos, esse norte-americano de origem mexicana expressa frustração com o sistema político do país, que, segundo ele, o obriga a escolher entre "a extrema direita ou a extrema esquerda". Em 2024, apoiar a democrata Kamala Harris era, para ele, impensável. Pastor evangélico, diz ver na esquerda uma "decadência moral e espiritual", sobretudo por sua defesa do direito ao aborto e por iniciativas culturais que associa à chamada agenda identitária, como leituras de histórias infantis feitas por drag queens.
A rejeição aos democratas não se limita à eleição mais recente. Hernandez segue crítico dos ex-presidentes Joe Biden, a quem acusa de incapacidade para conter a inflação, e Barack Obama, que ele chama de "maior responsável pelas expulsões", lembrando que, apesar do discurso de esperança, seu governo promoveu a deportação de milhões de imigrantes.
Diante desse cenário, o pastor acreditou nas promessas de Donald Trump de que expulsaria apenas "criminosos". A realidade das ações em curso, porém, tem sido outra. O atual cerco migratório inclui trabalhadores indocumentados sem antecedentes criminais, requerentes de asilo e até crianças. Essa amplitude das operações também chocou Sergio Amezcua, outro pastor que apoiou Trump.
"Não foi para isso que votei", lamenta Amezcua, um norte-americano de origem mexicana de 46 anos, indignado com o que descreve como "abordagens baseadas na aparência" em Minneapolis. Para ele, a linha entre repressão ao crime e perseguição étnica foi ultrapassada.
Em 2024, Donald Trump obteve o apoio de 48% dos eleitores latinos, segundo o Pew Research Center. Trata-se de uma virada expressiva em relação a 2020, quando apenas 36% desse eleitorado havia votado no republicano. O dado foi amplamente interpretado como sinal de uma reconfiguração duradoura do comportamento político latino, impulsionada por pautas econômicas, religiosas e culturais.
Desgaste político antes de eleições de meio de mandato
À medida que se aproximam as eleições de meio de mandato, em novembro, Minneapolis desponta como um potencial foco de desgaste político para o presidente norte-americano. Em janeiro, agentes responsáveis pela política migratória foram filmados matando Renee Good e Alex Pretti — uma mãe de família e um enfermeiro — que contestavam uma operação. No mesmo contexto, foi detido Liam Conejo Ramos, um menino equatoriano de cinco anos, caso que provocou indignação nacional e internacional.
"Não são imagens que se apagam facilmente", afirma David Schultz, professor de Ciência Política da Universidade Hamline. Ele ressalta, no entanto, que o resultado eleitoral dependerá de uma combinação de fatores ainda imprevisíveis, que vão da economia ao grau de mobilização dos diferentes grupos sociais.
Pesquisas recentes indicam que "muitos eleitores indecisos, inclusive latinos que haviam se voltado para Trump em 2024, agora se afastam dele em uma série de temas, não apenas nas operações do ICE", diz Schultz. Para o analista, a violência registrada em Minneapolis tende a corroer ainda mais o apoio aos republicanos entre eleitores sensíveis à questão migratória.
O custo político das deportações
Dentro do próprio partido, crescem os temores sobre o impacto nacional da estratégia adotada em Minnesota. Ileana Garcia, cofundadora do movimento Latinas for Trump, expressou publicamente sua preocupação. "O presidente vai perder as eleições de meio de mandato por causa de Stephen Miller", disse ao New York Times a parlamentar local da Flórida, referindo-se ao assessor que impôs metas diárias de prisões à polícia migratória.
Em Minneapolis, Feliza, 42 anos, resume o sentimento de forma direta: "Isso foi longe demais". Cristã fervorosa e neta de um mexicano, ela prefere não divulgar o sobrenome, já que ajuda muitos imigrantes indocumentados. Nas três últimas eleições presidenciais, suas convicções contrárias ao aborto a levaram a apoiar Donald Trump. Hoje, depois de acompanhar de perto os métodos da polícia migratória, diz desejar "nunca ter votado nele".
O arrependimento desses eleitores expõe uma fratura central do trumpismo entre latinos: o conflito entre valores conservadores, promessas de ordem e segurança e o impacto concreto de políticas que atingem comunidades inteiras. Mais do que um episódio local, Minneapolis se transforma em símbolo de uma contradição que pode pesar no futuro eleitoral do presidente norte-americano.
Com AFP