Candidata de direita é eleita presidente na Costa Rica e reforça influência dos EUA na região
A candidata conservadora Laura Fernandez venceu no primeiro turno a eleição presidencial realizada no domingo (1º) na Costa Rica, obtendo cerca de 49% dos votos válidos, segundo dados de aproximadamente 81% das seções apuradas. Sua vitória ilustra o reposicionamento político na América Latina e reforça a influência crescente dos Estados Unidos na região, após o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
A Costa Rica ocupa posição estratégica nas rotas migratórias rumo ao norte, tema central da agenda política do movimento MAGA (Make America Great Again, lema do trumpismo). O presidente norte-americano tem reiterado a intenção de restaurar a chamada doutrina Monroe, que historicamente definiu a América Latina como esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos.
Ex-ministra e cientista política, Laura Fernandez venceu com uma margem confortável o economista de centro-direita Alvaro Ramos, que obteve cerca de 33% dos votos e reconheceu a derrota ainda na noite da apuração. Ao todo, 19 candidatos disputaram o pleito. A vitória no primeiro turno dispensou o segundo, já que a candidata superou em nove pontos percentuais o mínimo necessário para encerrar a disputa.
Fernandez construiu sua campanha em torno de um discurso de endurecimento contra o narcotráfico e a violência, que atingem níveis historicamente elevados no país. Embora a Costa Rica ainda figure entre as democracias mais estáveis da América Central, o aumento dos homicídios e o fortalecimento de rotas do tráfico internacional alteraram profundamente o debate político interno.
Sob a administração do presidente Rodrigo Chaves, aliado político de Fernandez e impedido constitucionalmente de buscar a reeleição, a taxa de homicídios chegou a 17 por 100 mil habitantes, o maior índice já registrado no país. As autoridades atribuem a maioria dos assassinatos à expansão do tráfico de drogas, que transformou o território costa-riquenho em plataforma logística e de exportação de entorpecentes.
É nesse contexto que a presidente eleita defende medidas inspiradas diretamente na política de segurança do presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Fernandez propõe a conclusão de uma mega-prisão de segurança máxima nos moldes do complexo construído por Bukele, o endurecimento das penas criminais e a declaração do estado de emergência em áreas dominadas pela violência.
A admiração pelo modelo salvadorenho não passou despercebida. Poucas horas após a divulgação dos primeiros resultados, Bukele anunciou nas redes sociais que telefonou para cumprimentar "a presidente eleita da Costa Rica".
A adoção desse modelo levanta preocupações sobre liberdades civis e o equilíbrio entre os poderes do Estado. Os receios se intensificam diante da proximidade entre Laura Fernandez e Rodrigo Chaves. A oposição acusa o atual presidente de tentar manter influência direta sobre o governo, mesmo fora do cargo, governando nos bastidores. Fernandez, por sua vez, reivindica abertamente o legado político de Chaves e declarou vitória em uma ligação com o presidente transmitida pela televisão.
Maioria no Parlamento
Além da Presidência, a nova mandatária busca formar maioria ampla no Parlamento. Seu objetivo declarado é promover reformas constitucionais e reestruturar os poderes do Estado, o que reacendeu alertas entre setores democráticos. Após votar, o ex-presidente Oscar Arias, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1987, afirmou que "a sobrevivência da democracia está em jogo" e advertiu para o risco de mudanças constitucionais usadas para perpetuação no poder.
Rodrigo Chaves reagiu às críticas dizendo que "não há ditadura aqui" e prometeu zelar pela estabilidade democrática. Laura Fernandez, ao votar, afirmou que governará dentro da legalidade e do respeito às instituições. Nesse contexto, a eleição costa-riquenha se insere em uma dinâmica regional que favorece o governo norte-americano, em um momento em que Donald Trump tenta reafirmar sua influência na região.
Quintal trumpista?
Desde o retorno de Trump ao poder, outros países da região passaram por mudanças semelhantes. O Peru é governado por um presidente interino de direita; o Chile elegeu um presidente de extrema direita; Honduras tem um chefe de Estado que contou com apoio explícito de Trump, que chegou a ameaçar o país caso seu aliado fosse derrotado; e a Bolívia passou a ser governada por um presidente de centro-direita após duas décadas de administrações de esquerda críticas aos Estados Unidos.
A esse grupo somam-se governos já alinhados, como o de Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e Javier Milei na Argentina, todos defensores de agendas econômicas liberais e de políticas de segurança mais duras.
Há ainda o caso do Venezuela, onde a influência norte-americana se exerce de forma direta. Menos de um mês após a remoção de Nicolas Maduro, as relações entre Caracas e Washington passaram por rápida reconfiguração. A nova chefe da missão diplomática dos Estados Unidos chegou ao país, e Donald Trump elogiou publicamente a presidente interina Delcy Rodriguez, a quem chamou de "formidável" e convidou para uma visita oficial a Washington.
Rodriguez anunciou uma série de medidas vistas como sinais de aproximação, incluindo anistia geral, reforma da legislação do petróleo, mudanças no sistema judicial e o fechamento da prisão política do Helicoide, de onde já saíram os primeiros presos políticos. O otimismo de Trump é tamanho que ele passou a mencionar a possibilidade de um acordo com Cuba, país que há quase 70 anos ocupa posição central na política de sanções de Washington.
Nesse cenário, a eleição de Laura Fernandez na Costa Rica aparece menos como um evento isolado e mais como parte de uma engrenagem regional em movimento. Para o governo norte-americano, trata-se de um avanço estratégico em um tabuleiro latino-americano que, aos poucos, volta a se alinhar aos interesses de Washington.