'A luta continua': liberação de ativista reacende debate sobre presos políticos na Venezuela
"Liberdade! Liberdade! Liberdade!" — o coro ecoou pela igreja da Candelária, no centro de Caracas, enquanto fiéis se levantavam para aplaudir o ativista venezuelano Javier Tarazona, libertado neste domingo (1°) após quatro anos e sete meses de prisão. O militante de direitos humanos, de 43 anos, afirmou que o período de detenção "não silenciou a verdade".
A libertação ocorre dois dias após a presidente interina Delcy Rodríguez anunciar, sob forte pressão dos Estados Unidos, o fechamento da notória prisão do Helicoide — onde Tarazona esteve detido — e a promulgação de uma lei de anistia geral. O gesto acontece também menos de um mês depois da captura do presidente Nicolás Maduro pelos militares norte-americanos, cenário que vem reconfigurando rapidamente o ambiente político do país.
Reencontro emocionante nos degraus da igreja
Tarazona deixou a prisão de forma incomum — libertado diretamente nos degraus da igreja, e não diante do centro de detenção. Lá, reencontrou o irmão Rafael e a mãe, Teresa de Jesús Sánchez García, de 71 anos. Também chegou ao local Omar de Dios García, ativista preso ao lado de Tarazona em 2 de julho de 2021. Os três haviam dividido a mesma cela durante quatro meses, antes de Rafael e Omar receberem liberdade condicional.
Acompanhados do advogado Miguel Forero, os quatro entraram na igreja de braços dados para uma cerimônia religiosa. Ao caminhar pelo corredor central, ajoelharam-se nos degraus do altar, sob aplausos dos fiéis. "As pessoas estão movidas por um grande desejo de liberdade. Querem desesperadamente que os venezuelanos possam se abraçar sem medo", disse Tarazona à AFP.
"Quatro anos e sete meses não silenciaram a verdade"
Durante os anos de detenção, o diretor da ONG Fundaredes manteve-se como uma das vozes mais conhecidas entre os cerca de mil presos políticos venezuelanos — número que agora vem diminuindo com as libertações gradualmente anunciadas.
Em suas raras audiências, repetidamente adiadas, Tarazona denunciou ter sido vítima de torturas e tratamentos desumanos dentro do Helicoide, conhecido há décadas como símbolo da repressão estatal. "Eu era espancado. Não podíamos ver o sol. Não tínhamos água potável. Éramos obrigados a urinar e defecar nos recipientes de onde deveríamos comer", relatou.
No domingo, ao sair da igreja, reforçou que sua experiência não será apagada: "1.675 dias em um lugar escuro... É inaceitável que isso continue a se repetir. Fechar o Helicoide não resolve o problema da injustiça neste país. Se o fechamento significar apagar a memória, devemos trabalhar para garantir que isso não aconteça."
Presos políticos e condições degradantes
Segundo a ONG Foro Penal, ainda há cerca de 700 presos políticos na Venezuela. Muitos de seus familiares seguem acampados diante de prisões em todo o país à espera de novas liberações. Além de Tarazona, pelo menos outros oito detidos receberam liberdade no domingo.
Tarazona aproveitou o momento para ampliar o debate, lembrando que a crise penitenciária atinge também presos comuns. "Dos 84 mil presos atualmente na Venezuela, 30 mil estão detidos em centros de detenção da polícia que são inadequados, em condições deploráveis. Como alguém que vivenciou o cativeiro, imploro por esses prisioneiros. Não apenas o Helicoide, mas todos esses lugares devem ser fechados."
"Minha luta continua"
Figura central na denúncia de confrontos entre grupos irregulares colombianos e o Exército venezuelano na região fronteiriça, Tarazona afirmou que continuará seu trabalho como ativista. "Minha luta é parte inerente de quem eu sou", declarou.
O momento de reencontro com a família foi descrito pela mãe como "maravilhoso". Omar de Dios, seu antigo companheiro de cela, disse ter rido ao receber a notícia da libertação: "Foi uma alegria contida. Sempre pensávamos: isto é injusto e tem de acabar. Mas passaram-se mais de quatro anos, repletos de sofrimento — especialmente para as mães, e para a mãe de Javier."
Com AFP