Gastos com rotina acadêmica desafiam bolsistas do Prouni

21 jan 2013
09h19
atualizado às 10h07
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Às 18h20, Eduardo aguarda o ônibus que vai levá-lo à universidade. Cansado depois de um dia de trabalho, aproveita o tempo livre para revisar o conteúdo da última prova de 2012. O estudante de Direito é um dos 3,7 mil bolsistas do Programa Universidade para Todos (Prouni) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Além de ser isento da mensalidade, é beneficiado pelo Programa de Inclusão Educacional e Acadêmica (PIEA), iniciativa da instituição que garante transporte e alimentação a alunos de baixa renda. "Seria quase impossível estudar sem essa ajuda", diz.

Para muitos jovens, ser um "prounista" é a única forma de conquistar o diploma. As inscrições, que começaram na última quinta-feira, chegaram à marca de 180 mil em apenas 12 horas. A boa notícia é que o número de bolsas disponíveis saltou de 144.639 para 162.329, divididas entre 108.686 integrais e 53.643 parciais (cobertura de 50% da mensalidade). De acordo com o Ministério de Educação (MEC), esse número subiu por conta da adesão de mais universidades.

Mas é depois do fim das inscrições e já com o resultado positivo em mãos que surge outro grande dilema: como cobrir os gastos - geralmente altos - da rotina acadêmica? Bancar material didático, transporte e alimentação está entre as principais preocupações de quem passa a receber o benefício depois de alcançar a nota mínima de 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), pontuação que passou a ser requerida em 2012. Os bolsistas precisam ser membros de famílias com renda bruta mensal por pessoa de até 1,5 salário mínimo (R$ 1.017) desde o início de janeiro. O benefício parcial é destinado a quem comprova renda mensal por pessoa de até três salários mínimos (R$ 2.034). Mas nem sempre a quantia é suficiente para o dia a dia das universidades privadas.

Foi o PIEA que permitiu a Eduardo assistir às aulas nas noites de segunda à sexta-feira. O jovem de 19 anos prefere não ser identificado, alegando que muitos de seus colegas não sabem de seu benefício. "Tenho medo de ser considerado diferente dos outros, já que a grande maioria dos meus colegas paga para estudar, comer e ir até a universidade", diz. Reconhece, no entanto, que o programa é responsável pelo equilíbrio das contas no final do mês.

Foi pensando na dificuldade desses alunos que a Unisinos criou o programa, hoje voltado a todos os bolsistas integrais. Segundo o mestre e doutorando em Educação da Unisinos Ricardo Vitelli, o benefício também tem o objetivo de combater a evasão - ainda que, no caso do Prouni, os número sejam considerados baixos.

Com 3,7 mil bolsistas matriculados pelo Prouni no segundo semestre de 2012, a Unisinos registrou evasão de cerca de 5%. Entre os motivos apresentados por quem desiste da universidade, estão as dificuldades com gastos extras. "Esse programa interno de auxílio é um facilitador. A ideia é que eles não larguem o estudo", diz Vitelli, que também faz parte da linha de pesquisa sobre evasão da universidade. Além da ajuda financeira, os estudantes têm acesso a acompanhamento psicológico, reforço escolar e orientação vocacional. A instituição também disponibiliza uma pasta de conteúdos online, que podem ser acessados sem custo pelo aluno.

O benefício não se estende a outras demandas, como os tradicionais materiais de desenho de futuros engenheiros e arquitetos, por exemplo. "Ao se matricular, eles são informados de que têm acesso a essa bolsa de transporte e alimentação, mas que precisam arcar com outros gastos", explica. O professor explica que a maior taxa de evasão é observada nos dois primeiros semestres de curso. O MEC prevê que todas as universidades que participam do programa disponibilizem ao Prouni 1/9 das vagas disponíveis para matrícula no semestre. A regra é válida para todos os cursos. "De todas as políticas públicas voltadas ao ensino superior, essa é que alcançou maior sucesso. Permite que pessoas que ficariam alijadas no mercado tenham uma oportunidade. É uma revolução em termos de acompanhamento social", avalia. Em 2013, a previsão é de que a universidade contabilize 4 mil prounistas.

Desempenho dentro da média
Os cerca de 3% de evasão de bolsistas da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina, também não assustam a cúpula da instituição. Para a pró-reitora de ensino, o número é bastante baixo. "Percebemos que a evasão é um pouco maior em bolsas parciais", diz a pró-reitora de ensino, Cássia Ferri. Sem programa próprio de auxílio aos beneficiados pelo governo, a alternativa da instituição para ajudar os alunos foi apostar em estágios e monitorias. "É claro que isso não é o suficiente para que eles se mantenham, mas ajuda a diminuir os gastos. Outro ponto positivo é que estamos em cidades pequenas, onde o custo de vida é mais baixo em relação aos grandes centros", afirma.

A pró-reitora afirma que, ainda que oriundos de escolas públicas - o que muitas vezes é motivo de questionamento quanto à preparação dos jovens para enfrentar a academia - os cerca de 1 mil bolsistas apresentam rendimento dentro da média. Em 2009, a universidade realizou uma pesquisa para comparar as notas de pagantes e "prounistas". "Esses mil alunos não têm rendimento inferior à média de alunos de sua classe. Dizer que eles são piores é cair no senso comum. É claro que há casos com mais dificuldade, mas a maioria dos bolsistas tem boa vontade, se empenha, quer estudar", destaca. Cássia explica que o esforço dos universitários é grande principalmente pelo medo de reprovação - caso reprovem em mais de 25% das disciplinas de um semestre, perdem o benefício.

Há quem já tenha desistido da bolsa. É o caso de Julian Moura Leal Ogeda dos Santos, de Pelotas (RS). O gaúcho de 27 anos sonhava com uma vaga nos cursos de design gráfico ou artes visuais, mas a nota no Enem de 2011 não foi suficiente. Pensou em se inscrever para outra faculdade, mas acabou desistindo e ficou sem o benefício. "Minha ideia sempre foi entrar pelas federais, mas estava difícil, então vi o Prouni como uma possibilidade. Só que não consegui", diz. No ano passado, decidiu nem tentar.  Agora, o programador musical e editor de áudio organiza as finanças para bancar o curso de tecnologia em produção fonográfica na Universidade Católica de Pelotas (UCPel). "Há um ano, tracei esse objetivo e comecei a me acostumar com mudanças na rotina. Além de cortar gastos, vou contar com a ajuda dos meus pais. Estou muito motivado", afirma.

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