Desmatamento cai no Brasil, e agora não é hora de enfraquecer o que funcionou
Diminuição do desmatamento se deve, em grande medida, ao fortalecimento dos instrumentos de monitoramento e controle, mas isso pode ser ameaçado por projeto de lei aprovado na Câmara que restringe a fiscalização ambiental
O Brasil celebra este 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, sob o impacto de uma notícia importante: pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta, em 2019, a área desmatada no país ficou abaixo de um milhão de hectares. Foram 984.794 hectares de vegetação nativa suprimidos no ano, uma redução de 20,6% em relação a 2024.
É o terceiro ano seguido de queda. Em média, o Brasil perdeu 2.698 hectares de vegetação nativa por dia em 2025, ou 112 hectares por hora. Nos últimos sete anos, acumulamos 10,9 milhões de hectares desmatados, uma área maior que o estado de Pernambuco.
A área anual desmatada ainda é a maior do mundo e ainda tem um caminho a percorrer para se alcançar a meta nacional de estancar a perda de vegetação nativa no Brasil. A boa notícia é que quando informação de qualidade, transparência pública e ação concreta de controle se encontram, o desmatamento pode cair.
RAD 2025
Esse é talvez o principal resultado que se depreende do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, o RAD 2025, lançado em maio pelo MapBiomas.
O relatório mostra uma redução do desmatamento em todos os biomas brasileiros. O Pantanal teve a maior queda proporcional, de 48,4%. A Amazônia reduziu 23,5%. O Cerrado também caiu, mas continua sendo o bioma com maior área desmatada no país: 540.614 hectares em 2025, o equivalente a 54,9% de todo o desmatamento nacional.
Amazônia e Cerrado, juntos, responderam por mais de 84% da área desmatada em 2025. A região do Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — concentrou 40% da perda de vegetação nativa do país e 70% do desmatamento registrado no Cerrado. O município com maior área desmatada no ano foi Canto do Buriti, no Piauí, com 20.877 hectares.
O relatório também confirma algo que se repete desde o inicio da série histórica: o desmatamento no Brasil é majoritariamente associado à expansão agropecuária. Em 2025, esse vetor respondeu por 99% da área desmatada. Isso não significa que toda atividade agropecuária esteja ligada ao desmatamento. Pelo contrário: o Brasil tem milhões de produtores que cumprem a lei e produzem em áreas já abertas. Mas significa que, quando há supressão de vegetação nativa, é nesse campo que se concentra a principal pressão.
Em 2019, quando o MapBiomas Alerta começou a operar, apenas cerca de 5% da área desmatada no Brasil tinha algum tipo de ação associada dos órgãos de controle — como embargo, autuação, fiscalização ou autorização válida de supressão. Em 2025, esse percentual atingiu 65%.
Essa mudança não aconteceu por acaso. Ela é resultado da combinação entre sistemas de detecção por satélite, validação técnica dos alertas, produção de laudos com imagens de alta resolução, cruzamento com cadastros públicos e, principalmente, uso efetivo dessas informações pelos órgãos ambientais federais, estaduais e municipais.
A tecnologia não substitui o agente público. Ela amplia sua capacidade de agir. O Brasil é um país continental. Não há fiscais suficientes para estar fisicamente em todos os lugares onde a vegetação está sendo derrubada. Mas é possível saber, quase em tempo real, onde a supressão ocorreu, qual foi o tamanho da área, qual imóvel rural está associado, se há autorização válida e se a área coincide com terra indígena, unidade de conservação, reserva legal, área de preservação permanente ou outro recorte territorial relevante.
É isso que permite priorizar operações, orientar fiscalizações presenciais, aplicar medidas administrativas e impedir que o dano continue avançando.
Legislação na contramão dos avanços
Nesse contexto, chama atenção a aprovação recente, pela Câmara dos Deputados, de um projeto de lei que restringe a adoção de medidas cautelares por órgãos ambientais, incluindo embargos baseados em monitoramento remoto. O texto ainda seguirá para o Senado. Seus defensores argumentam que a medida busca assegurar direito de defesa e evitar erros. O direito de defesa é essencial e deve ser sempre garantido. A questão é outra: em crimes ambientais, o tempo importa.
Desmatamento não é uma infração estática. Quando uma área começa a ser aberta ilegalmente, cada dia sem ação pode significar mais árvores derrubadas, mais fogo, mais degradação, mais ocupação irregular e mais dificuldade de recuperação. O embargo cautelar existe justamente para interromper o dano enquanto o processo administrativo segue seu curso.
Restringir o uso de imagens de satélite para esse tipo de medida seria como proibir o uso de radar para controlar excesso de velocidade nas estradas. O radar não condena ninguém sozinho. Ele registra uma evidência técnica, com data, hora, localização e método conhecido. A pessoa autuada pode se defender, contestar, apresentar documentos e demonstrar eventual erro. Mas a existência desse direito não impede que o Estado use tecnologia para detectar e conter uma conduta potencialmente ilegal.
Com o desmatamento, a lógica é semelhante. Imagens de satélite não são opinião. São registros objetivos da superfície terrestre. Quando combinadas com validação técnica, séries temporais, imagens de antes e depois e cruzamentos territoriais, tornam-se uma das ferramentas mais robustas disponíveis para a fiscalização ambiental.
Apesar da redução, desafio permanece
O RAD 2025 mostra que o país está conseguindo reduzir o desmatamento, mas também mostra onde o desafio permanece. Ainda desmatamos quase 2.700 hectares por dia. Ainda temos mais de metade dos municípios brasileiros com pelo menos um evento de desmatamento detectado no ano. Ainda vemos forte pressão sobre o Cerrado, sobre o Matopiba e sobre áreas privadas sem autorização.
Nesse cenário, enfraquecer o uso de tecnologia na fiscalização parece andar na direção contrária da evidência disponível. O avanço observado desde 2019 coincide com a ampliação do uso de dados públicos, satélites, alertas validados e ações remotas de controle. Não se trata de substituir o devido processo legal, mas de permitir que ele seja informado por evidências rápidas, transparentes e verificáveis.
O Brasil tem hoje um dos sistemas mais completos do mundo para monitorar desmatamento. Essa capacidade não surgiu de um dia para o outro. Ela resulta de décadas de investimento público, ciência, cooperação entre instituições e inovação tecnológica. Usá-la bem é uma vantagem do país.
O desafio agora é transformar a queda de 2025 em tendência duradoura. Para isso, será necessário avançar onde o desmatamento segue concentrado, fortalecer a atuação dos estados, ampliar a responsabilização de quem desmata ilegalmente e dar segurança para quem produz cumprindo a lei.
O pior caminho seria reduzir a capacidade do Estado de enxergar o que acontece no território. Porque, no combate ao desmatamento, ver rápido é condição para agir a tempo.
A Rede MapBiomas recebe financiamento de organizações da filantropia todos apresentados em https://brasil.mapbiomas.org
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