Nunes Marques assume TSE sob clima de polarização e desafio de garantir lisura e normalidade das eleições
Ministro também terá a missão de enfrentar a desinformação e “excesso de judicialização” em ano eleitoral
O ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), toma posse como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta terça-feira, 12, em meio a um cenário de polarização política e com o desafio de garantir a lisura e a normalidade das eleições deste ano. Para especialistas ouvidos pelo Terra, caberá ao ministro também enfrentar o excesso de judicialização e a desinformação e abusos nas redes sociais com a garantia da liberdade de expressão.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Nunes Marques, que substituirá a ministra Cármen Lúcia no comando do TSE, terá como vice o ministro André Mendonça. Ambos foram indicados para o STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sendo que Nunes Marques, com o apoio do Centrão, tomou posse na Suprema Corte primeiro, em novembro de 2020, na vaga aberta com a aposentadoria do ministro Celso de Mello.
Para a especialista em Direito Constitucional Vera Chemim, o novo presidente do TSE assume o cargo em um cenário de forte tensão política. Segundo ela, o contexto eleitoral deve ser marcado pela continuidade da polarização ideológica. “Ele ascende a uma função-chave em um ano eleitoral que promete a continuidade da ‘guerra de ideologias’, o que se traduzirá em inúmeras pressões institucionais”, afirma.
Nesse ambiente, Chemim avalia que um dos principais entraves será o chamado “excesso de judicialização” das disputas eleitorais. “Desde o questionamento de propaganda até o limite da liberdade de expressão, o tribunal será constantemente acionado”, diz. Ela também alerta que, após o pleito, o TSE poderá enfrentar uma onda de ações envolvendo pedidos de cassação e conflitos políticos, o que exigirá “equilíbrio, imparcialidade e serenidade” do presidente.
O professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Bruno Lorencini, reforça que o cenário eleitoral deve ser desafiador, especialmente pelo uso intensivo das redes sociais. “A eleição tende a ser muito polarizada, com forte presença de fake news e até deepfakes. Esse uso da internet como instrumento de abuso de poder midiático será um dos principais desafios da gestão”, afirma.
Lorencini também chama atenção para outro fator: o afastamento do eleitorado. “Há um desencantamento crescente, refletido nos índices de abstenção. Embora o papel do TSE seja limitado neste ponto, é importante que a Justiça Eleitoral contribua para que o eleitor confie no sistema e se sinta motivado a participar.”
Em relação à condução da presidência, Vera Chemim demonstra cautela. Para ela, o histórico do ministro no STF pode indicar uma atuação discreta. “A expectativa não é muito positiva, a julgar por uma conduta considerada passiva em julgamentos sensíveis, muitas vezes acompanhando a maioria sem explicitar sua posição”, afirma.
Já Lorencini avalia que a tendência é de uma atuação institucional e técnica. “O ministro já teve protagonismo ao relatar as resoluções das eleições de 2026, além de medidas como auditorias nas urnas e regras sobre o uso de inteligência artificial. A expectativa é que cumpra o papel do TSE de garantir a lisura e a normalidade das eleições”.
Na mesma linha, o advogado Michel Bertoni, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político e da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP, avalia que a presidência do TSE tem papel essencialmente institucional e tende a seguir um perfil mais discreto.
“A presidência do TSE representa e dirige a Corte do ponto de vista institucional. O ministro Nunes Marques tem um perfil discreto e é natural que atue dessa forma. O que não traz qualquer prejuízo à defesa do processo eleitoral e da confiabilidade das eleições, especialmente porque o ministro tem adotado uma postura firme no sentido de blindar o sistema eletrônico de votação de ataques”, afirma.
Já a advogada Fernanda Valone Esteves, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político e da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/SP, ressalta que o cenário atual impõe novos desafios, especialmente com o avanço tecnológico. “Os maiores desafios serão, sem dúvidas, a crescente polarização política e o uso das IAs, que conferem às eleições de 2026 uma nova face à desinformação, muito mais sofisticada, tecnológica e realista do que aquela enfrentada nos pleitos anteriores”, enfatiza.
Sobre o histórico de decisões, Chemim aponta que Nunes Marques precisará demonstrar mais firmeza. “Seria importante que ele adotasse uma postura mais ativa para recuperar a credibilidade do tribunal”, afirma. Para ela, essa é a principal missão: “recolocar o TSE nos trilhos da Constituição, com julgamentos imparciais e distantes de ideologias”.
Lorencini, por outro lado, destaca um perfil mais equilibrado. “O histórico do ministro é de ponderação entre a soberania popular e a legitimidade das eleições. Trata-se de um perfil técnico, que busca preservar direitos e garantir a normalidade do processo eleitoral”, avalia.
Fernanda Valone Esteves pondera que não há como prever com precisão a atuação futura. “Não é possível afirmar com exatidão como será sua atuação no TSE com base no STF, sendo cabíveis apenas conjecturas. No âmbito eleitoral, observa-se que o ministro adota uma postura bastante garantista e voltada à preservação de mandatos”, diz.
No combate à desinformação, os especialistas concordam que o desafio será encontrar equilíbrio. Chemim defende que a prioridade deve ser a garantia dos direitos fundamentais. “A desinformação é um conceito subjetivo, muitas vezes alimentado por rivalidades ideológicas. O caminho é seguir rigorosamente a Constituição, garantindo liberdade e segurança jurídica”, afirma.
Ela também ressalta que críticas políticas fazem parte do processo democrático. “É preciso evitar a confusão entre críticas e desinformação. Nem toda manifestação dura deve ser criminalizada, a menos que atinja a honra das pessoas”, pontua.
Lorencini destaca que o TSE já tem instrumentos para lidar com o problema, especialmente no uso de novas tecnologias. “A resolução sobre inteligência artificial traz limites claros, como a proibição de ranqueamento de candidatos por IA, além de prever auditorias e parcerias técnicas”, explica.
Para ele, a gestão de Nunes Marques deve buscar um ponto de equilíbrio. “O desafio será equilibrar controle e liberdade: garantir a livre escolha do eleitor e, ao mesmo tempo, evitar abusos que comprometam a legitimidade das eleições.”
Histórico de Nunes Marques no STF e no TSE
Logo no início de sua atuação na Corte, o ministro assumiu a ação que contestava o foro privilegiado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no caso das "rachadinhas". O ministro votou para manter o foro e garantiu que a investigação sobre desvios no gabinete do senador continuasse no Tribunal de Justiça do Rio, e não na primeira instância.
Ainda nos primeiros julgamentos, o ministro se alinhou a Gilmar Mendes e Lewandowski para impor uma série de derrotas à Lava Jato. Sua estreia no caso ocorreu no julgamento do habeas corpus de um promotor denunciado por corrupção em um esquema derivado da Operação Lava Jato no Rio. Em seu voto, o magistrado acompanhou o relator, Gilmar Mendes, um dos principais 'fiadores' de sua indicação à Corte.
Ainda em 2020, o ministro também provocou desconforto no STF ao atender aos interesses da classe política e suspender, na véspera do recesso do Judiciário, trecho da Lei da Ficha Limpa, reduzindo o período de inelegibilidade de políticos condenados criminalmente. A decisão de Nunes Marques liberou o caminho de candidatos que concorreram nas eleições municipais de 2020, mas tiveram o registro barrado pela Justiça Eleitoral por causa da legislação.
No STF, sua atuação também chamou atenção em casos com forte impacto político. Ainda em 2023, foi relator da decisão que tentou restituir o mandato do deputado estadual Fernando Francischini, cassado por disseminação de desinformação eleitoral, posição que acabou derrotada pela maioria da Corte, que manteve a cassação.
Em 2025, o ministro voltou ao centro do debate ao votar contra a ampliação da responsabilização de plataformas digitais por conteúdos publicados por usuários. Nunes Marques defendeu a manutenção da regra atual, que exige ordem judicial para remoção de conteúdos, sob o argumento de proteção à liberdade de expressão. No julgamento, ele ficou entre a minoria.
Nunes Marques também também fez parte da maioria dos ministros que votaram contra os recursos do ex-presidente Jair Bolsonaro e do general Braga Netto para impedir os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin de atuarem no julgamento da denúncia sobre a trama golpista.
No TSE, Nunes Marques ganhou projeção em 2023, ao votar contra a inelegibilidade de Bolsonaro no julgamento que resultou na condenação do ex-presidente por abuso de poder político. Mais recentemente, o ministro também abriu divergência no julgamento que tornou inelegível o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e votou para mantê-lo elegível.
Quem é Nunes Marques
Nunes Marques, de 53 anos, é natural de Teresina (PI). Antes de chegar à Suprema Corte, ele foi advogado por 15 anos e também foi juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI).
O ministro também construiu trajetória na magistratura federal como desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Ele entrou para o TRF-1 em 2011, na cota de vagas para profissionais oriundos da advocacia. Ele foi escolhido pela então presidente Dilma Rousseff (PT).
O magistrado é formado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), com especialização em processo e direito tributário pela Universidade Federal do Ceará (UFCE). Também possui mestrado em direito constitucional pela Universidade Autônoma de Lisboa e doutorado pela Universidade de Salamanca, na Espanha.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.