RJ: suspeitos teriam fornecido granadas para invasão de hotel
Responsáveis pelas cenas de terror em São Conrado no mês passado, traficantes da Rocinha chamavam granadas de "abacaxis" e tratavam fuzis como "brinquedos". Os códigos usados pelos criminosos na hora de renovar seu arsenal foram desvendados por agentes da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) numa investigação que durou cinco meses e culminou com a prisão de dois dos principais fornecedores de armas e drogas para a quadrilha. A ação sigilosa da Polícia Civil do Rio de Janeiro desmantelou o esquema com uma ação realizada semana passada em Foz do Iguaçu e São Miguel do Iguaçu, na fronteira do Paraná com o Paraguai.
De uma só vez, um dos fornecedores chegou a oferecer 200 granadas. Numa das interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, Luiz Cláudio Carvalho Rodrigues, o Coroa, que foi preso, espanta-se ao descobrir que os "abacaxis" remetidos por ele haviam sido usados, no dia 21 de agosto, durante o confronto com policiais militares em São Conrado: "Ele usa aí mesmo, essas outras. Cara, eu não sabia", disse ele, referindo-se Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, chefe da Rocinha.
Segundo as investigações, Nem - chamado de Papai nas conversas - recebia em média oito fuzis e 10 mil cápsulas a cada 20 dias. Em três meses em que a movimentação da quadrilha foi rastreada, estima-se que o bando tenha recebido 32 fuzis e 80 mil cápsulas. "Eu tenho cinco tipos de peças grandes (fuzis) e 14 mil pecinhas (munições), valeu?", ofereceu Gordo a uma mulher, Rúbia Maria Soares, identificada como Coração, ligada a Nem.
O volume de armas compradas era tal que, menos de duas horas após a apreensão de oito fuzis no Hotel Intercontinental, os traficantes já faziam contatos para repor o material perdido. Uma gravação mostra que, às 14h01 do dia do ataque, um criminoso conhecido como Bel ligou aflito para Antônio Ezequias Gura, o Gordo, o outro fornecedor preso no Paraná: "Pô, perdemos sete brinquedos grandes (fuzis)".
Caminho para pacificação
Gordo foi preso na quarta-feira, num hotel em Foz do Iguaçu. Ele estava junto com Carlos Vinicius Braga dos Santos, o Cafu. Morador da Rocinha, ele é braço-direito de Bel e foi até a cidade paranaense para negociar mais uma compra. Numa oficina próxima, os agentes apreenderam uma BMW preta que seria usada para transportar armas e drogas. Mas o armamento não foi localizado.
"Achamos melhor não esperar outra oportunidade. Se eles estavam encomendando armas, decidimos interromper a compra prendendo todo mundo. Assim, evitamos que essas armas fossem despejadas na Rocinha de qualquer jeito", explicou o chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, acrescentando que a interrupção no abastecimento de armas para a Rocinha faz parte do processo para a pacificação da comunidade.
Na manhã seguinte à prisão de Gordo e Cafu, os agentes prenderam em Botafogo, no Rio de Janeiro, o estudante de Educação Física Ricardo Pereira Terra de Andrade, o Robocop, 28. Morador de um condomínio classe média, ele repassava haxixe, drogas sintéticas e maconha na Zona Sul. Segundo a delegada titular da Drae, Márcia Beck, que coordenou toda a investigação, Gordo e Coroa não se conheciam. "Eram fornecedores diferentes que atuavam na mesma região do Paraná, na fronteira com o Paraguai", explicou.
Fuzis no Intercontinental
Bel: Quando tiver perto, tu me dá um toque...Tu viu o jornal? Viu televisão por aí? Pô, perdemos sete brinquedos grandes (fuzis)...
Gordo : Ô, louco, cara...
Bel: É, e nossos parceiros, tudo agarrado (presos).
Gordo: Ah, é?
Bel: É, quando tu tiver perto, me dá um toque que mando o Cafu te buscar (...) Beleza? Pra tu já vir alerta...
De seis a oito fuzis para a Rocinha
Coração - E o pai (Nem) disse que vai ficar com os brinquedinhos de paintball (fuzis) pra gente...
Coroa - Sim (...) Tem vários...
Coração - Então, ele quer as grandes (fuzis), dessas brincadeirinhas de paintball...
Coroa - Vai umas seis ou oito.
Coração - Então, vem com as grandes...
Granadas em São Conrado
Coroa - Será que ele vai querer essas coisas que eu mandei na lista?
Coração - Escuta, a última parte da lista, a última, o último item (granadas)...
Coroa - Hum, sei. Ah, do abacaxi, da melancia, do morango, eu sei qual é. (...) E por que ele quer essas outras que você falou pra mim? Ele usa aí mesmo, essas outras?
Coração - Usa também.
Coroa - É mesmo? Não sabia.
Coração - Naquele rolo que teve (tiroteio de São Conrado), então, foi usada um monte.
Coroa - Cara, eu não sabia, não.
Gordo oferece 200 granadas
Bel - O amigo (Nem) tava conversando comigo ali pra trazer abacaxis (granadas).
Gordo - Esses dias, o aliado dele caiu com três caixas disso aí no ônibus, cara.
Bel - Que merda, hein?!
Gordo - Mas esse negócio aqui é massa agora. Que esse canal aí do abacaxi (granada) eu já tenho, tava levando 15 lá. Eu pego quantas quiser aqui, entendeu? 50, 100, 200!