Polícia Civil faz operação contra ‘núcleo político’ do Comando Vermelho no Amazonas
Autoridades investigam atuação no tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e violação de sigilo funcional
A Polícia Civil do Amazonas deflagrou na manhã desta sexta-feira, 20, a Operação Erga Omnes contra um esquema ligado ao Comando Vermelho que mantinha um "núcleo político" na administração pública do estado. Ao todo, 13 pessoas foram presas, sendo oito delas no estado.
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Entre as pessoas detidas, está uma integrante da comissão de licitação da Prefeitura de Manaus. Até 2023, ela era chefe de gabinete do prefeito Davi Almeida (Avante), mas o acompanhava desde 2017, quando ele era deputado estadual do Amazonas.
Em nota ao Terra, a administração municipal frisou que nem o prefeito e nem a administração municipal são alvos da operação.
"A atual administração mantém compromisso absoluto com a legalidade, a transparência e o respeito às instituições. Qualquer servidor eventualmente investigado responderá individualmente por seus atos, nos termos da lei, sem prejuízo do funcionamento regular da máquina pública. Manaus não pode ser refém de ataques especulativos nem de tentativas de desinformação. A verdade prevalece nos fatos, não nas insinuações", declarou a prefeitura.
A Polícia Civil ainda identificou a participação de ex-assessores que atuavam na área da advocacia, além de servidores públicos lotados em setores estratégicos de órgãos público. Esses agentes eram utilizados para ter acesso e influência para resolver problemas internos da organização criminosa.
"Isso ficou evidente após a extração de dados de um aparelho celular apreendido, no qual o líder afirmava ter pessoas em todos os órgãos e dizia não temer a prisão, pois pagava todos”, afirmou o delegado Marcelo Martins, titular da 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP).
Além das oito pessoas presas no Amazonas, também foram capturadas duas no Ceará, uma em Minas Gerais, uma em São Paulo, outra no Pará e a última no Piauí. Ao todo, foram 24 mandados de busca e apreensão nos sete estados, além da quebra de sigilo bancário e fiscal, do bloqueio e do sequestro de bens e valores.
Investigação
A operação investiga a atuação da organização criminosa no tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e violação de sigilo funcional. Conforme o 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), a investigação começou em agosto de 2025 após uma apreensão de mais de 500 tabletes de skunk, sete fuzis de uso restrito, duas embarcações utilizadas no transporte da droga, um veículo utilitário utilizado na logística terrestre, além de aparelhos celulares. Um dos envolvidos foi preso em flagrante na ocasião.
A polícia, então, instaurou um inquérito policial para identificar quem eram os operadores logísticos, os financiadores e os colaboradores do esquema criminoso. A investigação apontou que o grupo atuava com divisão de tarefas e estruturação em núcleos operacional, financeiro e de apoio logístico, e possuía ramificações dentro da administração pública. Conforme apurado, diversos servidores públicos atuavam como parceiros do crime, ao lado de traficantes.
O Comando Vermelho, segundo as autoridades, utilizava rotas fluviais e terrestres para o transporte da droga, além de veículos alugados em nome de terceiros, para dificultar o rastreamento. “As drogas eram adquiridas em Tabatinga, e os valores transacionados por meio de empresas fantasmas do Amazonas e do Pará, para posterior distribuição em outros estados do Brasil”, explicou o delegado Martins.
Essas empresas eram formalmente registradas nos ramos de transporte e de locação, com indícios de funcionamento apenas documental, utilizadas para a movimentação e ocultação de valores de origem ilícita.
Movimentações bancárias indicam movimentações atípicas e de elevado valor, com transferências entre investigados, empresas vinculadas ao grupo e pessoas de outros estados. Segundo os dados levantados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), em um período de quatro anos, a organização movimentou mais de R$ 70 milhões. As empresas fantasmas utilizadas pelo grupo atuavam, formalmente, no segmento de logística, com o objetivo de simular atividades lícitas.
“Elas não compravam insumos, não negociavam com outras empresas do ramo. Suas únicas transações financeiras eram com traficantes e servidores públicos”, detalhou o delegado.
A investigação também apontou que o líder da facção apresentava como evangélico e atuava em uma igreja localizada no bairro Zumbi dos Palmares, na zona leste de Manaus. Inclusive, igrejas eram utilizadas como forma de camuflagem social, dificultando a identificação do grupo criminoso.
Ramificações em outros estados
A organização criminosa possui ramificações interestaduais, com transações suspeitas e vínculos com investigados nos estados do Amazonas, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Piauí e São Paulo, evidenciando uma rede ampliada de fornecimento, financiamento e distribuição de drogas.
Até o momento, a polícia reuniu, por meio da quebra de sigilo telemático, indícios de tentativas e acesso indevido a informações sigilosas relacionadas a procedimentos criminais, com o objetivo de antecipar ações policiais e judiciais.