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Três situações que podem provocar incêndios em carros elétricos

Colisões, carregamento inadequado e falhas internas estão entre os principais fatores que podem desencadear a fuga térmica nas baterias

5 jul 2026 - 16h46
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Incêndios envolvendo carros elétricos ainda são exceção, mas chamam atenção como poucos episódios no setor automotivo. Vídeos com labaredas intensas, fumaça densa e dificuldade no combate ajudam a criar a percepção de que esses veículos são mais perigosos do que os modelos a combustão. A realidade, porém, é mais complexa — e passa por diferentes situações que podem desencadear uma falha dentro da bateria.

BYD Dolphin pega fogo no RS e é primeiro carro elétrico a sofrer incêndio no Brasil
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Foto: @tumultobr/X / Estadão

Para entender o que está por trás desses casos, o Jornal do Carro ouviu especialistas em engenharia automotiva, análise de falhas e eletromobilidade. A conclusão é direta: embora a fuga térmica seja o principal fenômeno associado aos incêndios em elétricos, ela normalmente não surge do nada. Há diferentes fatores capazes de iniciar esse processo.

Para chegar a esta conclusão, entrevistamos Erbis Biscarri, que é engenheiro e perito judicial no Brasil, com atuação em engenharia elétrica, eletrônica e automotiva. Além dele, falamos com Eduardo Zambelli, que é diretor de eletromobilidade da Associação de Engenharia Automotiva.

O que causa a fuga térmica em carros elétricos

Segundo os especialistas, existem três principais caminhos capazes de levar uma bateria à fuga térmica. O primeiro envolve danos físicos causados por colisões ou deformações estruturais. O segundo está relacionado ao carregamento inadequado. Já o terceiro reúne falhas internas que podem surgir por defeitos de fabricação ou degradação química ao longo do tempo.

Mesmo que os mecanismos sejam diferentes, todos eles podem levar ao mesmo resultado: um aumento descontrolado de temperatura dentro da bateria. Ou seja, o problema não está apenas na fuga térmica em si, mas nas situações capazes de desencadeá-la.

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A bateria muda tudo no carro elétrico

Ao contrário do que o senso comum sugere, o carro elétrico não é um sistema isolado de riscos. Ele continua sujeito a causas tradicionais de incêndio: curto-circuitos em sistemas auxiliares e falhas mecânicas. A diferença está no componente central do sistema — a bateria de alta tensão.

"Ele continua sendo um carro. Pode pegar fogo pelos mesmos motivos de um veículo a combustão. Mas tem uma particularidade: uma bateria muito grande, com enorme quantidade de energia concentrada", explica Biscarri.

Essa bateria, instalada geralmente no assoalho, é composta por centenas ou até milhares de células. Cada uma delas armazena energia por meio de reações químicas complexas, o que transforma o conjunto em um sistema altamente eficiente — mas que exige controle rigoroso.

Por que parece mais perigoso

Se os elétricos pegam menos fogo, por que a sensação de risco é maior?

A resposta está no impacto visual e na dinâmica do incêndio. Quando um carro elétrico entra em fuga térmica, as chamas tendem a ser mais intensas, com emissão de gases e possibilidade de pequenas explosões. Isso gera imagens mais dramáticas — e, consequentemente, maior repercussão.

"É mais cinematográfico. Chama mais atenção, mesmo sendo mais raro", resume Biscarri.

Além disso, o tempo de combate é maior. Enquanto um incêndio em carro a combustão pode ser controlado em minutos, casos envolvendo baterias podem levar horas.

Incêndios em carros elétricos são mais difíceis de apagar

O desafio para conter um incêndio em carro elétrico está justamente na bateria. Como ela fica protegida e selada, o acesso direto às células é limitado. Além disso, o calor gerado internamente continua alimentando a reação mesmo após a contenção inicial das chamas.

"Você apaga e ele pode voltar. O problema é resfriar a bateria por dentro", explica Eduardo Zambelli.

É por isso que o combate exige uma abordagem diferente. Segundo o engenheiro e perito Erbis Biscarri, não se trata apenas de apagar o fogo visível, mas de reduzir a temperatura interna do conjunto. "Não é um incêndio convencional. Você precisa resfriar a bateria por completo para evitar a reignição", afirma.

Na prática, isso significa uso de grandes volumes de água. De acordo com o especialista, o combate pode exigir milhares de litros — em alguns casos, estimativas chegam à casa de 40 mil litros — além de monitoramento contínuo do veículo após o controle das chamas.

O carro costuma dar sinais

Apesar da complexidade, os sistemas atuais são projetados para evitar que o problema evolua sem aviso. Os veículos contam com sistemas de gerenciamento da bateria (BMS), que monitoram temperatura, tensão e funcionamento em tempo real.

Na prática, o motorista pode perceber sinais como perda de desempenho, redução de potência ou alertas no painel antes de um problema mais grave. "Ele não vai dizer exatamente o que está acontecendo, mas indica que há algo errado", diz Zambelli.

Segundo o engenheiro, na maioria dos modelos o próprio sistema atua de forma preventiva ao identificar qualquer anormalidade. Isso inclui a redução da potência do carro e até a limitação — ou bloqueio — do carregamento da bateria, como forma de evitar o agravamento da falha. Esse tipo de intervenção tende a ser perceptível ao motorista, principalmente pela perda de desempenho do veículo.

Mitos sobre fogo em carros elétricos

Um dos mitos mais comuns é que o calor intenso de países como o Brasil aumentaria o risco de incêndio. Os especialistas descartam essa hipótese.

"As baterias são projetadas para operar em diferentes condições climáticas. Não há evidência de que o calor, por si só, cause incêndios", afirma Zambelli.

O mesmo vale para exposição à água ou enchentes, desde que não haja danos estruturais ao veículo.

Onde está o risco real

Se há um ponto de atenção claro, ele está fora da engenharia do carro — e mais próximo do uso.

Intervenções fora do padrão, histórico de colisões, reparos mal executados e uso de equipamentos inadequados aparecem como fatores recorrentes nos casos analisados.

"A tecnologia é segura, mas precisa ser usada dentro das condições corretas", resume Biscarri.

Estadão
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