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Lecar: como a promessa do 'Elon Musk brasileiro' se tornou suspeita de fraude financeira

Ministério da Fazenda aponta indícios de pirâmide financeira no modelo de compra programada da pretensa montadora capixaba

16 abr 2026 - 08h00
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A Lecar, empresa brasileira que promete carros eletrificados, é suspeita de pirâmide financeira. Motivo? Seu esquema de compra programada, em que o consumidor adquire um automóvel da marca — que sequer existe ainda — por meio de pagamentos em até 72 vezes.

A dinâmica, aponta a empresa, é semelhante à de um consórcio: sem taxas, sem juros e "com total transparência". De acordo com a Lecar, na metade do plano o cliente receberá o veículo.

Lecar faz pirâmide financeira?

Segundo o Ministério da Fazenda, contudo, o formato tem "forte indicativo de conduta potencialmente fraudulenta". A informação foi obtida pelo Metrópoles.

Ainda conforme o portal, a nota técnica do Ministério da Fazenda, fundamentada pela Secretaria de Apostas, ressalta que a Lecar não tem autorização para operar a Compra Programada. A companhia do empresário capixaba Flavio Figueredo de Assis pratica, segundo a pasta, "pirâmide financeira".

Práticas questionáveis

A configuração da operação apresenta sinais de alerta críticos: a empresa exige o pagamento de taxa de adesão para que o participante possa atuar como revendedor — fazendo-o, na prática, pagar para trabalhar — enquanto comercializa apenas promessas de entregas futuras sem um produto validado no mercado. Repórter do Jornal do Carro pagou R$ 459 para se tornar um vendedor Lecar. Conseguiu o feito em meia hora.

Para os vendedores, a marca promete que a compra programada trará "praticidade e ganhos reais". De acordo com a pretensa fabricante de veículos, o representante recebe comissões progressivas conforme o número de vendas realizadas.

Sobre isso, a nota técnica é reveladora: "A promessa de 'ganhos robustos sem investimentos' constitui forte indicativo de conduta potencialmente fraudulenta, pois inexiste no mercado lícito remuneração substancial sem aporte de capital ou trabalho qualificado. Esta terminologia é amplamente reconhecida pela CVM [Comissão de Valores Mobiliários] e pelos Procons como marcador típico de esquemas que prometem rendimentos desvinculados de atividade econômica real"

Além disso, para sustentar o modelo, A Fazenda diz que a organização utiliza gatilhos psicológicos de urgência e escassez com o objetivo de pressionar por adesões imediatas. O ponto mais grave, contudo, é a declaração expressa de que a manutenção do fluxo de caixa depende exclusivamente da entrada constante de novos consumidores.

Meia hora para se tornar vendedor Lecar

Fundada por Assis em 2022, a Lecar promete ser uma montadora brasileira de carros híbridos flex com fábrica em Sooretama (ES). Por enquanto, é realmente apenas uma promessa, pois pouca coisa saiu do papel.

Conforme mencionado anteriormente, repórter do JC fez o curso de vendedor Lecar. À época, procuramos Ministério da Fazenda e também o Banco Central do Brasil a fim de obter informações sobre a legalidade da compra programada. Mesmo após mais de uma tentativa, não obtivemos retorno sobre o caso.

Este tipo de prática, com captação de recursos antecipada epromessa de entrega futura, tem de ser regulada pelo Banco Central ou pelo Ministério da Fazenda. Isso porque a atividade, sem quaisquer sorteios ou lances, pode ser considerada operação financeira irregular. Um, digamos, consórcio de gaveta.

Fonte ligada a uma montadora estabelecida no Brasil lembrou ao JC que a Lecar tem de assegurar, por meio de garantias, que o cliente irá receber o produto. Afinal de contas, o consumidor deve demorar a ter um 459 ou uma Campo em casa, já que a companhia sequer começou a construir sua fábrica.

Nota oficial da Lecar

Em comunicado divulgado em uma rede social, a Lecar afirmou:

"Mataram a Gurgel e a Lecar não querem nem deixar nascer. A Lecar esclarece que nenhum de seus clientes alegou prejuízo ou dano decorrente dos fatos relatados na matéria e reitera ainda, e que atua em estrita conformidade com a legislação vigente, adotando rigorosos padrões de governança, transparência e controle.

A Lecar esclarece que não foi notificada, acionada ou contatada pelo Ministério Público Federal em São Paulo ou pela Receita Federal. Reiteramos que não há irregularidades em nossas operações. Estamos e continuaremos à disposição das autoridades e do público em geral para qualquer dúvida ou esclarecimento.

No que diz respeito à alegada "nota técnica" mencionada, a Lecar informa que desconhece a sua existência, origem ou conteúdo, não tendo recebido qualquer comunicação oficial ou extraoficial a esse respeito.

A Lecar não compactua com a divulgação de informações imprecisas ou não verificadas e se resguarda o direito de adotar as medidas cabíveis para a proteção de sua reputação e de seus interesses institucionais."

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Estadão
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