Lecar: como a promessa do 'Elon Musk brasileiro' se tornou suspeita de fraude financeira
Ministério da Fazenda aponta indícios de pirâmide financeira no modelo de compra programada da pretensa montadora capixaba
A Lecar, empresa brasileira que promete carros eletrificados, é suspeita de pirâmide financeira. Motivo? Seu esquema de compra programada, em que o consumidor adquire um automóvel da marca — que sequer existe ainda — por meio de pagamentos em até 72 vezes.
A dinâmica, aponta a empresa, é semelhante à de um consórcio: sem taxas, sem juros e "com total transparência". De acordo com a Lecar, na metade do plano o cliente receberá o veículo.
Lecar faz pirâmide financeira?
Segundo o Ministério da Fazenda, contudo, o formato tem "forte indicativo de conduta potencialmente fraudulenta". A informação foi obtida pelo Metrópoles.
Ainda conforme o portal, a nota técnica do Ministério da Fazenda, fundamentada pela Secretaria de Apostas, ressalta que a Lecar não tem autorização para operar a Compra Programada. A companhia do empresário capixaba Flavio Figueredo de Assis pratica, segundo a pasta, "pirâmide financeira".
Práticas questionáveis
A configuração da operação apresenta sinais de alerta críticos: a empresa exige o pagamento de taxa de adesão para que o participante possa atuar como revendedor — fazendo-o, na prática, pagar para trabalhar — enquanto comercializa apenas promessas de entregas futuras sem um produto validado no mercado. Repórter do Jornal do Carro pagou R$ 459 para se tornar um vendedor Lecar. Conseguiu o feito em meia hora.
Para os vendedores, a marca promete que a compra programada trará "praticidade e ganhos reais". De acordo com a pretensa fabricante de veículos, o representante recebe comissões progressivas conforme o número de vendas realizadas.
Sobre isso, a nota técnica é reveladora: "A promessa de 'ganhos robustos sem investimentos' constitui forte indicativo de conduta potencialmente fraudulenta, pois inexiste no mercado lícito remuneração substancial sem aporte de capital ou trabalho qualificado. Esta terminologia é amplamente reconhecida pela CVM [Comissão de Valores Mobiliários] e pelos Procons como marcador típico de esquemas que prometem rendimentos desvinculados de atividade econômica real"
Além disso, para sustentar o modelo, A Fazenda diz que a organização utiliza gatilhos psicológicos de urgência e escassez com o objetivo de pressionar por adesões imediatas. O ponto mais grave, contudo, é a declaração expressa de que a manutenção do fluxo de caixa depende exclusivamente da entrada constante de novos consumidores.
Meia hora para se tornar vendedor Lecar
Fundada por Assis em 2022, a Lecar promete ser uma montadora brasileira de carros híbridos flex com fábrica em Sooretama (ES). Por enquanto, é realmente apenas uma promessa, pois pouca coisa saiu do papel.
Conforme mencionado anteriormente, repórter do JC fez o curso de vendedor Lecar. À época, procuramos Ministério da Fazenda e também o Banco Central do Brasil a fim de obter informações sobre a legalidade da compra programada. Mesmo após mais de uma tentativa, não obtivemos retorno sobre o caso.
Este tipo de prática, com captação de recursos antecipada epromessa de entrega futura, tem de ser regulada pelo Banco Central ou pelo Ministério da Fazenda. Isso porque a atividade, sem quaisquer sorteios ou lances, pode ser considerada operação financeira irregular. Um, digamos, consórcio de gaveta.
Fonte ligada a uma montadora estabelecida no Brasil lembrou ao JC que a Lecar tem de assegurar, por meio de garantias, que o cliente irá receber o produto. Afinal de contas, o consumidor deve demorar a ter um 459 ou uma Campo em casa, já que a companhia sequer começou a construir sua fábrica.
Nota oficial da Lecar
Em comunicado divulgado em uma rede social, a Lecar afirmou:
"Mataram a Gurgel e a Lecar não querem nem deixar nascer. A Lecar esclarece que nenhum de seus clientes alegou prejuízo ou dano decorrente dos fatos relatados na matéria e reitera ainda, e que atua em estrita conformidade com a legislação vigente, adotando rigorosos padrões de governança, transparência e controle.
A Lecar esclarece que não foi notificada, acionada ou contatada pelo Ministério Público Federal em São Paulo ou pela Receita Federal. Reiteramos que não há irregularidades em nossas operações. Estamos e continuaremos à disposição das autoridades e do público em geral para qualquer dúvida ou esclarecimento.
No que diz respeito à alegada "nota técnica" mencionada, a Lecar informa que desconhece a sua existência, origem ou conteúdo, não tendo recebido qualquer comunicação oficial ou extraoficial a esse respeito.
A Lecar não compactua com a divulgação de informações imprecisas ou não verificadas e se resguarda o direito de adotar as medidas cabíveis para a proteção de sua reputação e de seus interesses institucionais."
View this post on Instagram
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.