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Gasolina com mais etanol irrita colecionadores, mas especialistas indicam soluções

Nova mistura eleva para 32% quantidade de álcool no combustível fóssil, o que exige adaptações diferentes para cada década e modelo de carro antigo

18 jul 2026 - 13h05
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A gasolina com dois pontos porcentuais a mais de etanol em sua composição não foi bem digerida pelo setor de veículos de coleção.

"Apesar das justificativas ambientais, é um fator complicador para o já árduo trabalho de manutenção e preservação de um veículo antigo. Os carros fabricados até os anos 1990 possuem componentes que sequer foram projetados para a mistura atual de 30%", aponta Andrés Pesserl, presidente da Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA).

Em 1º de agosto de 2025, o teor de etanol anidro na gasolina comum saltou de 27% para 30%, conforme determinação da Lei do Combustível do Futuro (14.993/2024). O novo coquetel (batizado de E30) chegou aos postos após um estudo técnico - encomendado pelo Ministério de Minas e Energia ao Instituto Mauá de Tecnologia - concluir que a mudança não afetava desempenho, dirigibilidade, consumo ou emissões "de forma relevante" e que era "viável do ponto de vista técnico e ambiental".

Na última terça-feira (14), o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou um novo aumento, desta vez para 32%. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o novo teor chega para elevar a autossuficiência energética do Brasil e "vai fazer com que o País deixe de importar 900 milhões de litros de gasolina por ano", além de poder baratear o litro da gasolina em aproximadamente R$ 0,03.

Clássicos excluídos

Para o especialista em combustíveis Marcelo Manna, da MM-R Consulting, as bases que sustentam o novo teor etílico na gasolina são questionáveis:

"É importante notar que o estudo do IMT testou o E30, não o E32 agora aprovado. Além disso, nenhum veículo com tecnologia anterior à injeção eletrônica foi incluído na amostra e os testes duraram alguns meses em 2025, tempo insuficiente para capturar efeitos de corrosão, degradação de elastômeros e depósitos que se manifestam após milhares de quilômetros".

"O próprio Ministério de Minas e Energia afirma que 'recomendou-se a realização de testes complementares para veículos mais antigos ou com tecnologias específicas', ressalva que desapareceu das conclusões divulgadas à imprensa", complementa.

Contudo, o principal prejuízo estaria nos efeitos do etanol anidro em sistemas de alimentação do motor não concebidos para recebê-lo, principalmente por seu fator higroscópico, que absorve água do ar.

"Em um tanque de aço de carro antigo, que não conta com tratamento interno, essa água se acumula no fundo, formando uma camada mais densa que a gasolina. Isso cria um eletrólito condutivo que acelera drasticamente a corrosão galvânica, gerando partículas de ferrugem que entopem filtros e carburadores", explica Manna.

Outras questões apontadas são a degradação das mangueiras do sistema de combustível (geralmente de borracha nos modelos mais antigos) e o empobrecimento da mistura entre ar e combustível - o que nos modelos novos é compensado pela injeção eletrônica.

"Quando falamos de carros de coleção, que muitas vezes ficam parados por longos períodos, é ainda mais grave", reflete Manna.

O que fazer

À frente da oficina Motorfast, em São Paulo, Bruno Tinoco relembra que desafios envolvendo a substância que faz os veículos rodarem não são novidade: "No começo, tínhamos dois problemas: falta de ferramentas pra buscar peças importadas, dependendo sempre de concessionárias; e combustíveis. Resolvemos o primeiro, mas 32 anos depois ainda temos o segundo".

"Os importados que chegaram na década de 1990 e não passaram pela tropicalização sofreram muito com bicos injetores e bomba, que com dois anos de uso queimava por conta do nosso combustível ruim. Tanto que o Reginaldo Regino e o Sérgio Habib (importadores de BMW e Citroën na época) tiveram que levar amostras de combustível brasileiro para Alemanha e França para que os carros já saíssem adaptados à nossa gasolina", relembra Tinoco.

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Foto: Divulgação/I / Estadão

Suas recomendações passam por utilizar gasolina com maior octanagem - como Podium (Petrobras), Ipimax Pro (Ipiranga) e V-Power (Shell) -, manter o tanque com no máximo a metade de sua capacidade para evitar que o combustível envelheça e eleger um posto de confiança.

"Assim como conhecer o dono da oficina pode nos dizer sobre o serviço que ela presta, conhecer o dono do posto também pode indicar a qualidade do combustível que ele vende", sugere Tinoco.

No entendimento do consultor técnico Fábio Fukuda, "a gasolina E32 não demanda nenhum cuidado que a E30 já não demandava. Mas, para quem está começando no antigomobilismo, alguns cuidados são fundamentais. O primeiro deles é encontrar um profissional de confiança, que avaliará a necessidade de substituir os elementos como carburador, canalização, mangueiras, bombas e bicos injetores, em carros a partir dos anos 1990".

Tempestade em tanque de etanol

Para alguns colecionadores, contudo, a adição de mais etanol à gasolina não é o fim do antigomobilismo. Proprietário de um BMW 520 1974 e um Volkswagen Variant 1600 1972, Fernando Toledo já prepara seus xodós para a nova mistura.

BMW 520 1974 e um Volkswagen Variant 1600 1972 do colecionador Fernando Toledo
BMW 520 1974 e um Volkswagen Variant 1600 1972 do colecionador Fernando Toledo
Foto: Estadão

"No BMW, vou aumentar um pouco a taxa de compressão e trabalhar na admissão do carburador com tamanhos diferentes de giclê, conforme a proporção dos combustíveis. Com gasolina com mais etanol, aumento o tamanho do giclê", explica.

"Na Variant, o carburador sofre mais com etanol, mais nocivo às borrachas e à boia, por exemplo. Mas, ainda assim, é uma peça que custa pouco e você mesmo pode trocar", complementa.

O problema, na visão de Toledo, é outro: "colecionar veículos é um artigo de luxo, e quem tem acesso a esse tipo de luxo deveria apoiar soluções que nos permitam continuar curtindo nosso hobby sem agredir o meio ambiente.

Mas e os carros antigos que não são de coleção, e que muitas vezes são o veículo de uso diário daqueles que não têm acesso a modelos mais novos? Deveríamos estar discutindo como fortalecer a indústria nacional para temos peças de reposição mais baratas e confiáveis, e não a alta de dois pontos porcentuais de etanol na gasolina", reflete.

Estadão
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