Legacy of Kain: Ascendance é o retorno que perdeu a própria alma
Com um design simplificado demais, a nova jornada em Nosgoth revive a franquia, mas não do jeito que os fãs esperavam
Após algumas remasterizações recentes, parece que a franquia Legacy of Kain finalmente saiu do limbo com um jogo inédito, mas de um jeito que pegou muita gente de surpresa. Legacy of Kain: Ascendance é o mais novo lançamento da série, mas ele não é a sequência que os fãs estão pedindo por décadas.
Lançado discretamente pela Bit Bot Media e Crystal Dynamics, o título troca os gráficos tridimensionais por uma pixel art refinada e uma perspectiva 2D com elementos de plataforma e exploração. É um movimento arriscado, mas será que ele sustenta o peso de um dos roteiros mais densos da história dos games?
O peso da lore: O "retcon" de Elaleth
O ponto central aqui é a narrativa - e é mais do que recomendado que você já tenha jogado os games clássicos, ou que pelo menos conheça a história central de Legacy of Kain. Ascendance se baseia na polêmica HQ Legacy of Kain: Soul Reaver – The Dead Shall Rise, e se passa antes dos eventos do jogo Legacy of Kain: Soul Reaver (1999), e tem como protagonista a nova personagem Elaleth, a irmã perdida de Raziel.
Por mais estranho que possa parecer a introdução dessa irmã, especialmente após cinco jogos clássicos, o roteiro consegue se safar ao usar as manipulações temporais de Moebius para justificar por que essa peça do quebra-cabeça nunca apareceu antes.
Elaleth é apresentada como uma vampira que sofre com uma maldição de Moebius e que fica saltando no tempo contra a própria vontade. O objetivo dela? Vingança contra o próprio irmão, Raziel, por tudo o que ele fez em nome da Ordem Sarafan.
A introdução de Elaleth não chega a ser um problema, e até ajuda a colocar sangue novo na franquia, mas o que muitos fãs provavelmente não vão gostar é a importância que o jogo dá a ela como figura-chave de toda a história, inclusive manipulando personagens importantes e influenciando eventos centrais já estabelecidos na série.
E aí é que mora o problema. Porque no processo de tentar expandir a história, o jogo acaba rebaixando o que fazia ela funcionar.
O labirinto de linha reta
Quando comecei a jogar Ascendance achei que estava dando início a uma aventura metroidvania, com mapas gigantescos, desbloqueio de habilidades e uma infinidade de armas e equipamentos para equipar em minha vampira, ao melhor estilo de Bloodstained: Ritual of the Night. Mas, infelizmente, estava totalmente enganado.
Mecanicamente, Ascendance é um jogo de ação e plataforma, como os primeiros Castlevania, que flerta com o gênero metroidvania, mas sem a profundidade de um Hollow Knight ou até mesmo do recente God of War: Sons of Sparta. Os mapas, que deveriam ser um personagem vivo — cheio de segredos, atalhos e áreas que provocam a curiosidade do jogador — são na verdade corredores horizontais sem alma. A falta de verticalidade e de interconectividade real faz com que a exploração pareça apenas uma tarefa linear burocrática.
Em um jogo da série Soul Reaver, ganhar uma nova habilidade (como atravessar grades ou planar) mudava completamente a sua relação com o mundo. Aqui, Raziel e Elaleth começam e terminam o jogo praticamente com as mesmas ferramentas.
Não há aquele sentimento de "poder crescente". Você não ganha novas armas que mudam o seu estilo de combate ou magias que permitem acessar áreas antes proibidas. O combate que você faz nos primeiros 15 minutos é exatamente o mesmo das últimas horas.
Considerando que estamos falando de vampiros e de manipulação temporal, a falta de uma árvore de habilidades ou de um sistema de power-ups orgânicos é uma falha de design grosseira. O título se contenta em ser um jogo de ação "comum" quando tinha material para ser um metroidvania bem mais robusto.
Os cenários, embora estilizados em pixel art charmosos, carecem de identidade marcante. O level design oscila entre o funcional e o genérico. E, o mais importante, o jogo parece constantemente apressado — como se estivesse mais interessado em manter o jogador em movimento do que em deixá-lo refletir - vale ressaltar que a aventura é bem curta, e tem duração de cerca de 4 horas.
No entanto, um elemento positivo é a possibilidade de se jogar com personagens com habilidades diferentes. Além de Elaleth, também jogamos com Raziel em sua forma humana e vampiro (essa alternância é uma ideia particularmente interessante), e também com Kain, sendo que cada um tem leves diferenças no gameplay.
Outro ponto de destaque é o uso da bela trilha sonora - assinada pelo talentoso Klayton (Celldweller), que moderniza a atmosfera gótica sem descaracterizar a opressão de Nosgoth. Outro acerto foi trazer de volta os dubladores originais, com Simon Templeman (Kain), Michael Bell (Raziel), Anna Gunn (Ariel) e Richard Doyle (Moebius) em ótimas interpretações de seus personagens - sem as vozes deles, o projeto perderia metade de sua alma.
Embora as vozes originais em inglês sejam intocáveis e essenciais para a atmosfera, vale destacar o trabalho de legendagem e tradução dos menus em Legacy of Kain: Ascendance para o português brasileiro.
Considerações
Legacy of Kain: Ascendance é um jogo com boas ideias pontuais e uma tentativa legítima de revisitar um universo adormecido. Mas, no processo, acaba sacrificando aquilo que tornava esse universo único. E o resultado é que falta densidade. Falta identidade. Falta, principalmente, aquela sensação de que estamos diante de algo maior — de um mundo que existe além da tela.
No final das contas, Ascendance parece ter medo de ser um jogo metroidvania complexo. Ao simplificar os mapas e podar a evolução dos personagens, a Bit Bot Media entregou um produto que é "seguro" demais. Ele não é um desastre completo, mas também não consegue justificar o peso do nome que carrega - recomendo esperar uma boa promoção caso tenha interesse em jogá-lo.
Legacy of Kain: Ascendance está disponível para PC, PlayStation 5, Switch e Xbox Series X/S.
Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Crystal Dynamics.
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