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Corrida manipulada: 15 anos do escândalo do GP de Singapura

O primeiro GP noturno da F1 entrou para a história da categoria , tudo por conta de um plano armado para Fernando Alonso vencer a prova

28 set 2023 - 12h17
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Piquet Jr bateu na curva 17 e consumou um dos grandes escandalos da F1
Piquet Jr bateu na curva 17 e consumou um dos grandes escandalos da F1
Foto: F1 / Divulgação

A F1 já teve vários escândalos ao longo de sua história. Um dos mais chocantes foi o do GP de Singapura de 2008, quando Nelsinho Piquet bateu de propósito para ajudar seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, a vencer a prova. Mas para explicar esta história, precisamos voltar e entender o contexto da época…

A categoria vivia na era do reabastecimento. Desde 1994, quando os carros paravam nos boxes, além dos pneus, tinha que colocar mais combustível. Em 1996, a Mercedes-Benz fechou um acordo com a F1 para ter seus carros como o Carro de Segurança oficial da categoria, o instituindo de forma fixa.

Quando o Carro de Segurança entrava na pista, poderia beneficiar quem estava atrás. Por este motivo, a FIA instituiu uma regra: a entrada do box permaneceria fechada até que os carros fossem alinhados. A partir de então, a entrada seria liberada, mas os carros que entrassem só poderiam sair depois que todo o pelotão passasse.

Essa regra gerou alguns problemas: no GP do Canadá de 2007, Giancarlo Fisichella (Renault) e Felipe Massa (Ferrari) foram desclassificados por saírem dos boxes enquanto ele estava fechado. Em 2008, no mesmo GP, um verdadeiro acidente de trânsito, quando Lewis Hamilton (McLaren) não viu o carro de Kimi Raikkonen (Ferrari) parado em sua frente e o acertou em cheio, acabando com a corrida dos dois.

No GP da Alemanha de 2008, aconteceu uma questão diferente: Nelson Piquet Jr. (Renault) foi beneficiado pela batida de Timo Glock (Toyota). O brasileiro largou em 17° lugar, com uma estratégia de uma parada e entrou pouco depois do acidente, antes do Carro de Segurança ser acionado. O resultado disso foi que Piquet ficou em terceiro depois que todos foram para os boxes, somente atrás dos carros da McLaren.

A batida de Timo Glock permitiu que Piquet Jr. se desse muito bem na Alemanha
A batida de Timo Glock permitiu que Piquet Jr. se desse muito bem na Alemanha
Foto: Toyota / Divulgação

Depois da parada de Hamilton e Kovalainen, Piquet Jr. assumiu a ponta, com Felipe Massa em segundo. Poderia ser uma dobradinha brasileira, mas Hamilton conseguiu passar os dois. Apesar de tudo, o resultado foi positivo. Esse fato é muito importante para contar a história.

Cinco corridas depois da Alemanha, aconteceu o GP de Singapura, a primeira corrida noturna da história da F1. O campeonato estava disputado, com Lewis Hamilton (McLaren) e Felipe Massa (Ferrari) e o britânico liderava por apenas um ponto. Massa conquistou a pole, com um tempo 0s664 superior a Hamilton, que ficou em segundo na qualificação. Isso indicava que se o brasileiro ganhasse a prova, sairia como líder.

Quem não foi bem na qualificação foi Fernando Alonso. Com problemas mecânicos no Q2, depois de fazer um bom Q1. A frustração era visível, mas Flavio Briatore (chefe de equipe) e Pat Symonds (diretor executivo) tinham uma ideia, que envolvia Nelsinho Piquet. 

Eles conversaram com o brasileiro sobre o que aconteceu no GP da Alemanha. Nesta dinâmica, Symonds instruiu até a curva onde o piloto deveria bater. O “incidente” deveria acontecer na 17, porque era um ponto de difícil remoção. Para conseguir que a ideia funcionasse, o brasileiro foi chantageado por Briatore e Symonds: se não fizesse, poderia ser o fim de sua carreira na F1. 

Parecia um fim de semana tranquilo para Felipe Massa em Marina Bay. Parecia...
Parecia um fim de semana tranquilo para Felipe Massa em Marina Bay. Parecia...
Foto: Wikimedia Commons

A outra parte do plano era com Fernando Alonso. A Renault parou o espanhol bastante cedo, na volta 12. Uma estratégia bem incomum para quem largava atrás, já que normalmente nestas situações, os pilotos costumavam largar com mais combustível e parar depois.

Na volta 14, cumprindo o plano, Piquet Jr bateu e provocou a entrada do Carro de Segurança, curiosamente ele rodou na volta de apresentação, como se fosse um teste. Após o grid se alinhar, começaram as paradas nos boxes: Felipe Massa, então líder com uma boa vantagem, fez a sua parada. O mecânico liberou o carro antes da hora e a mangueira ficou presa. Massa teve que ir até o final do pit lane e parou, tendo que esperar os mecânicos tirarem a peça, o que lhe custou muito tempo.

Massa caiu para último e terminou apenas à frente de Fisichella da Force India, em 13º lugar. Fernando Alonso se deu bem, pois era o primeiro depois do Carro de Segurança e venceu a prova, algo que levantou suspeitas na época. Mas como ninguém tinha provas concretas, a situação ficou esquecida. O pai do Piquet Jr, o tricampeão de F1 Nelson Piquet, ficou sabendo do caso pelo filho e, segundo o próprio “Nelsão”, os dois ficaram dois meses sem se falar. O pai ainda disse que chegou a falar sobre o ocorrido com Charlie Whiting no GP do Brasil, que era diretor de prova da categoria.

Whiting disse que não poderia fazer nada, a não ser que Piquet Jr. revelasse os fatos formalmente. Posteriormente, o brasileiro acabou sendo demitido da Renault no GP da Hungria de 2009 e seria substituído por Romain Grosjean a partir do GP da Europa em Valência. O escândalo foi revelado de forma inusitada: durante o GP da Bélgica, o jornalista Reginaldo Leme revelou ao mundo durante a transmissão ao vivo que a FIA estava investigando a Renault pelo fato acontecido um ano antes.

Só Reginaldo sabia do fato, tanto que Galvão Bueno (narrador) e Luciano Burti (comentarista) chegaram a duvidar. Porém, os dias seguintes seriam importantes para o caso, provando que Leme tinha revelado um dos maiores escândalos da história da F1. A FIA divulgou naquela semana que havia iniciado investigações formais um mês antes, abrangendo Briatore, Symonds, Alonso e Piquet Jr.

A FIA contou com uma testemunha muito importante que não foi revelada, mas tudo indica era o britânico Alan Permane, atual Diretor Operacional da Alpine e que na época era o Engenheiro Chefe de corrida da Renault. Em 4 de Setembro de 2009, a FIA acusou formalmente a Renault por manipulação de corrida. No dia 10, Piquet Jr. prestou seu segundo depoimento, sendo que havia feito um em 30 de Junho. Nesse, Piquet Jr contou o que já foi citado, além de questionar se Alonso não sabia de nada.

No dia 11, a Renault soltou um comunicado, onde dizia que iria processar os Piquet por calúnia e chantagem, alegando que Piquet Jr. estava inventando a história, pois o mesmo tinha sido demitido da equipe. No dia 14, Pat Symonds acusou Piquet Jr, alegando que a ideia veio dele. 

No dia 15, o jornal britânico The Times, divulgou conversas entre os quatro principais envolvidos. No dia 16, a Renault reviu sua posição, dizendo que não iria mais contestar os fatos apresentados. Além de tudo isso. A FIA verificou as conversas de Piquet Jr. com a equipe, verificando que era possível perceber uma preocupação do brasileiro em qual volta ele estava. Os dados da telemetria disponíveis mostravam que ele não tinha tirado o pé do acelerador, evidenciando que a batida foi de propósito.

No dia 21, a Renault anunciou a demissão de Briatore e Symonds. No mesmo dia, ambos foram julgados pela FIA, além de Piquet Jr. e Alonso. A Renault recebeu uma punição branda:  seria banida da F1 se voltasse a se envolver em escândalos nos próximos dois anos. Briatore negou envolvimento, mas pelas provas claras, acabou sendo banido da F1. Symonds assumiu a culpa e disse que se arrependia, recebendo um banimento de 5 anos da categoria. Piquet Jr. não levou pena, pois foi o delator e Alonso foi absolvido por falta de provas.

Com a repercussão do caso, a Renault perdeu vários patrocinadores com o caso, inclusive a gigante financeira holandesa ING, então o principal do time. No mesmo ano, a fabricante vendeu a equipe para o grupo Genii Capital, que viria a mudar o nome da equipe para Lotus F1 Team em 2011. Piquet Jr nunca mais teve uma chance na F1, porém foi campeão da primeira edição da F-E. Briatore e Pat Symonds receberam perdão da FIA em 2013. Fernando Alonso foi para a Ferrari em 2010, e sempre negou que sabia de algo.

Fernando Alonso disputando o GP de Singapura em 2009, já sem o patrocínio da ING
Fernando Alonso disputando o GP de Singapura em 2009, já sem o patrocínio da ING
Foto: Wikimedia Commons

Briatore não voltou à F1 até 2021, tendo um cargo de Consultor na Liberty Media, mas se mantendo como empresário do próprio Alonso. Symonds voltou a categoria em 2013 pela Williams e atualmente é consultor técnico da F1. E ao final do campeonato de 2008, Lewis Hamilton acabou sendo campeão por 1 ponto. Massa sempre mostrou muito desapontamento com o caso, inclusive com Piquet Jr.

Em 2023, Felipe Massa entrou com uma ação contra a FIA  pedindo o título de 2008 por causa de Singapura, após declrações de Bernie Esclestone dar declarações dizendo que sabia do escândalo já em 2008, o processo ainda está em andamento, mas a chance de sucesso deve ser pequena. 

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