Corrida manipulada: 15 anos do escândalo do GP de Singapura
O primeiro GP noturno da F1 entrou para a história da categoria , tudo por conta de um plano armado para Fernando Alonso vencer a prova
A F1 já teve vários escândalos ao longo de sua história. Um dos mais chocantes foi o do GP de Singapura de 2008, quando Nelsinho Piquet bateu de propósito para ajudar seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, a vencer a prova. Mas para explicar esta história, precisamos voltar e entender o contexto da época…
A categoria vivia na era do reabastecimento. Desde 1994, quando os carros paravam nos boxes, além dos pneus, tinha que colocar mais combustível. Em 1996, a Mercedes-Benz fechou um acordo com a F1 para ter seus carros como o Carro de Segurança oficial da categoria, o instituindo de forma fixa.
Quando o Carro de Segurança entrava na pista, poderia beneficiar quem estava atrás. Por este motivo, a FIA instituiu uma regra: a entrada do box permaneceria fechada até que os carros fossem alinhados. A partir de então, a entrada seria liberada, mas os carros que entrassem só poderiam sair depois que todo o pelotão passasse.
Essa regra gerou alguns problemas: no GP do Canadá de 2007, Giancarlo Fisichella (Renault) e Felipe Massa (Ferrari) foram desclassificados por saírem dos boxes enquanto ele estava fechado. Em 2008, no mesmo GP, um verdadeiro acidente de trânsito, quando Lewis Hamilton (McLaren) não viu o carro de Kimi Raikkonen (Ferrari) parado em sua frente e o acertou em cheio, acabando com a corrida dos dois.
No GP da Alemanha de 2008, aconteceu uma questão diferente: Nelson Piquet Jr. (Renault) foi beneficiado pela batida de Timo Glock (Toyota). O brasileiro largou em 17° lugar, com uma estratégia de uma parada e entrou pouco depois do acidente, antes do Carro de Segurança ser acionado. O resultado disso foi que Piquet ficou em terceiro depois que todos foram para os boxes, somente atrás dos carros da McLaren.
Depois da parada de Hamilton e Kovalainen, Piquet Jr. assumiu a ponta, com Felipe Massa em segundo. Poderia ser uma dobradinha brasileira, mas Hamilton conseguiu passar os dois. Apesar de tudo, o resultado foi positivo. Esse fato é muito importante para contar a história.
Cinco corridas depois da Alemanha, aconteceu o GP de Singapura, a primeira corrida noturna da história da F1. O campeonato estava disputado, com Lewis Hamilton (McLaren) e Felipe Massa (Ferrari) e o britânico liderava por apenas um ponto. Massa conquistou a pole, com um tempo 0s664 superior a Hamilton, que ficou em segundo na qualificação. Isso indicava que se o brasileiro ganhasse a prova, sairia como líder.
Quem não foi bem na qualificação foi Fernando Alonso. Com problemas mecânicos no Q2, depois de fazer um bom Q1. A frustração era visível, mas Flavio Briatore (chefe de equipe) e Pat Symonds (diretor executivo) tinham uma ideia, que envolvia Nelsinho Piquet.
Eles conversaram com o brasileiro sobre o que aconteceu no GP da Alemanha. Nesta dinâmica, Symonds instruiu até a curva onde o piloto deveria bater. O “incidente” deveria acontecer na 17, porque era um ponto de difícil remoção. Para conseguir que a ideia funcionasse, o brasileiro foi chantageado por Briatore e Symonds: se não fizesse, poderia ser o fim de sua carreira na F1.
A outra parte do plano era com Fernando Alonso. A Renault parou o espanhol bastante cedo, na volta 12. Uma estratégia bem incomum para quem largava atrás, já que normalmente nestas situações, os pilotos costumavam largar com mais combustível e parar depois.
Na volta 14, cumprindo o plano, Piquet Jr bateu e provocou a entrada do Carro de Segurança, curiosamente ele rodou na volta de apresentação, como se fosse um teste. Após o grid se alinhar, começaram as paradas nos boxes: Felipe Massa, então líder com uma boa vantagem, fez a sua parada. O mecânico liberou o carro antes da hora e a mangueira ficou presa. Massa teve que ir até o final do pit lane e parou, tendo que esperar os mecânicos tirarem a peça, o que lhe custou muito tempo.
Massa caiu para último e terminou apenas à frente de Fisichella da Force India, em 13º lugar. Fernando Alonso se deu bem, pois era o primeiro depois do Carro de Segurança e venceu a prova, algo que levantou suspeitas na época. Mas como ninguém tinha provas concretas, a situação ficou esquecida. O pai do Piquet Jr, o tricampeão de F1 Nelson Piquet, ficou sabendo do caso pelo filho e, segundo o próprio “Nelsão”, os dois ficaram dois meses sem se falar. O pai ainda disse que chegou a falar sobre o ocorrido com Charlie Whiting no GP do Brasil, que era diretor de prova da categoria.
Whiting disse que não poderia fazer nada, a não ser que Piquet Jr. revelasse os fatos formalmente. Posteriormente, o brasileiro acabou sendo demitido da Renault no GP da Hungria de 2009 e seria substituído por Romain Grosjean a partir do GP da Europa em Valência. O escândalo foi revelado de forma inusitada: durante o GP da Bélgica, o jornalista Reginaldo Leme revelou ao mundo durante a transmissão ao vivo que a FIA estava investigando a Renault pelo fato acontecido um ano antes.
Só Reginaldo sabia do fato, tanto que Galvão Bueno (narrador) e Luciano Burti (comentarista) chegaram a duvidar. Porém, os dias seguintes seriam importantes para o caso, provando que Leme tinha revelado um dos maiores escândalos da história da F1. A FIA divulgou naquela semana que havia iniciado investigações formais um mês antes, abrangendo Briatore, Symonds, Alonso e Piquet Jr.
A FIA contou com uma testemunha muito importante que não foi revelada, mas tudo indica era o britânico Alan Permane, atual Diretor Operacional da Alpine e que na época era o Engenheiro Chefe de corrida da Renault. Em 4 de Setembro de 2009, a FIA acusou formalmente a Renault por manipulação de corrida. No dia 10, Piquet Jr. prestou seu segundo depoimento, sendo que havia feito um em 30 de Junho. Nesse, Piquet Jr contou o que já foi citado, além de questionar se Alonso não sabia de nada.
No dia 11, a Renault soltou um comunicado, onde dizia que iria processar os Piquet por calúnia e chantagem, alegando que Piquet Jr. estava inventando a história, pois o mesmo tinha sido demitido da equipe. No dia 14, Pat Symonds acusou Piquet Jr, alegando que a ideia veio dele.
No dia 15, o jornal britânico The Times, divulgou conversas entre os quatro principais envolvidos. No dia 16, a Renault reviu sua posição, dizendo que não iria mais contestar os fatos apresentados. Além de tudo isso. A FIA verificou as conversas de Piquet Jr. com a equipe, verificando que era possível perceber uma preocupação do brasileiro em qual volta ele estava. Os dados da telemetria disponíveis mostravam que ele não tinha tirado o pé do acelerador, evidenciando que a batida foi de propósito.
No dia 21, a Renault anunciou a demissão de Briatore e Symonds. No mesmo dia, ambos foram julgados pela FIA, além de Piquet Jr. e Alonso. A Renault recebeu uma punição branda: seria banida da F1 se voltasse a se envolver em escândalos nos próximos dois anos. Briatore negou envolvimento, mas pelas provas claras, acabou sendo banido da F1. Symonds assumiu a culpa e disse que se arrependia, recebendo um banimento de 5 anos da categoria. Piquet Jr. não levou pena, pois foi o delator e Alonso foi absolvido por falta de provas.
Com a repercussão do caso, a Renault perdeu vários patrocinadores com o caso, inclusive a gigante financeira holandesa ING, então o principal do time. No mesmo ano, a fabricante vendeu a equipe para o grupo Genii Capital, que viria a mudar o nome da equipe para Lotus F1 Team em 2011. Piquet Jr nunca mais teve uma chance na F1, porém foi campeão da primeira edição da F-E. Briatore e Pat Symonds receberam perdão da FIA em 2013. Fernando Alonso foi para a Ferrari em 2010, e sempre negou que sabia de algo.
Briatore não voltou à F1 até 2021, tendo um cargo de Consultor na Liberty Media, mas se mantendo como empresário do próprio Alonso. Symonds voltou a categoria em 2013 pela Williams e atualmente é consultor técnico da F1. E ao final do campeonato de 2008, Lewis Hamilton acabou sendo campeão por 1 ponto. Massa sempre mostrou muito desapontamento com o caso, inclusive com Piquet Jr.
Em 2023, Felipe Massa entrou com uma ação contra a FIA pedindo o título de 2008 por causa de Singapura, após declrações de Bernie Esclestone dar declarações dizendo que sabia do escândalo já em 2008, o processo ainda está em andamento, mas a chance de sucesso deve ser pequena.