F1: Por que a Cadillac escolheu correr com motores Ferrari
A abordagem da Cadillac para entrar na F1 foi pragmática e passou inclusive pela escolha da Ferrari, não somente pelo lado técnico
Uma das grandes curiosidades da temporada 2026 da F1 é o desempenho da Cadillac. Após uma grande insistência inicial por parte de Michael Andretti, tentando passar uma série de coisas e criando várias inimizades, foi necessário que a General Motors tomasse à frente do projeto para que a Liberty Media e os times quebrassem a resistência à entrada de uma nova equipe.
Inicialmente, os Andretti pensaram em fazer a aquisição de um time atual (opção preferida pela Liberty) e chegaram a deixar tudo muito bem encaminhado com a Sauber. Porém, quando o negócio estava praticamente fechado, não houve um acordo. Chegou a aparecer a opção Alpha Tauri (atual Racing Bulls), mas não passou das conversas iniciais.
Uma nova janela se abriu quando a FIA abriu chamada para novas equipes para as temporadas 2025 ou 2026. A Andretti se candidatou e anunciou um investimento enorme na construção de sua nova fábrica nos Estados Unidos, onde aglutinaria todas suas operações, além de uma base na Inglaterra, que também serviria às atividades da Fórmula E. Além disso, confirmou o envolvimento da Cadillac e a vinda de Pat Symonds como consultor. Este nome era importante pois o britânico foi um dos nomes importantes na área técnica da F1 por parte da Liberty Media e foi uma das cabeças que ajudou na definição do regulamento que entra em vigor este ano.
A Andretti foi escolhida pela FIA após analises, mas sempre com a ressalva que a aprovação da parte comercial estava vinculada à aprovação da Liberty Media (dona dos direitos comerciais). Aqui, começou um grande desenho político e técnico.
O desenho da entrada da Cadillac sempre foi com conjunto completo: carro e motor. Tanto que a General Motors começou investimento pesado para o desenvolvimento e fabricação de uma unidade de potência. Mas não ficaria pronto a tempo para estrear em 2026, dada a complexidade do processo. Mas mesmo com uma certa pressão da FIA (Mohammed Ben Sulayem), o motor só ficará pronto para 2029.
Com a grande resistência ao nome de Michael Andretti por ter feito uma abordagem extremamente agressiva, uma enorme jogada política começou a ser feita. O ex-piloto começou a ser escateado e as negociações só progrediram mesmo quando a General Motors se envolveu diretamente no projeto e com a entrada de Dan Towriss como líder do projeto. Isso ajudou a quebrar resistências.
Outro fato que ajudou a aprovação da Andretti foi a entrada da Ferrari no meio. Inicialmente, se falava que a Andretti tinha um acordo de fornecimento com a Renault. Porém, com a negativa inicial de entrada, o negócio foi desfeito. Com a opção de ganhar tempo na composição da estrutura e principalmente na parte técnica, a Andretti optou por usar uma solução utilizada pela sua conterrânea Haas: comprar soluções técnicas de uma equipe.
Aqui entrou a Ferrari. Os italianos iriam perder um cliente a partir de 2026 já que a Sauber passaria a ser time de fábrica da Audi. Querendo ou nao, os italianos tem um peso político importante no processo. Desta forma, o time escolheu ter motores e caixa de câmbio da Ferrari, optando por usas suspensões próprias. Esta decisão ajudou a fazer com que as negociações fossem facilitadas.
Além disso, a Cadillac acaba por ter um ótimo referencial técnico para sua unidade de potência. Embora seja usada, em princípio, por duas temporadas (2029 e 2030), a unidade de potência estadunidense poderá se aproveitar destas informações para que venha à pista evitando certos problemas e com base em dados provados em competição, mesmo com limitações instituídas por contrato e regras financeiras.
Em um momento em que ainda se tem dúvidas sobre uma possivel antecipação de nova configuração (o assunto saiu da linha de frente das discussões dadas as incógnitas com o novo regulamento) e com a complexidade das novas regras, qualquer ganho de tempo para focar no necessário é importante. Sem contar o apoio político conseguido para a entrada da Cadillac por parte da Ferrari, que ainda teria mais um time que poderia ajudar nos seus interesses na F1. Neste caso, um belo ganha-ganha.