Urach volta ao Carnaval após 10 anos e cita fase convertida
Aos 38 anos, nova musa da Porto da Pedra fala sobre reconciliação com o passado e o fim do distanciamento religioso da folia
A trajetória de Andressa Urach é, sem dúvida, uma das mais complexas e vigiadas da cultura pop brasileira. Da consagração como vice-Miss Bumbum ao trauma de saúde que a levou a uma conversão religiosa radical.
E, agora, ao seu polêmico e lucrativo retorno ao mercado do entretenimento adulto, cada passo da gaúcha de Ijuí gera debate. No entanto, o ano de 2026 marca o fechamento de um ciclo que muitos acreditavam ser definitivo: o seu retorno oficial à Marquês de Sapucaí.
Anunciada como musa da Unidos do Porto da Pedra, Urach não está apenas voltando ao samba; ela está enfrentando fantasmas de uma década inteira. Durante o período em que esteve ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, o Carnaval não era apenas evitado, era demonizado em seu discurso.
Hoje, aos 38 anos, a modelo olha para trás com uma mistura de análise crítica e aceitação, tratando sua participação no desfile da Série Ouro como um marco de reconciliação com a própria história e com o corpo que, por pouco, não perdeu em 2014.
1. O silêncio de uma década: quando o Carnaval se tornou pecado
Para entender o peso do retorno de Andressa Urach em 2026, é preciso revisitar o hiato de dez anos que a afastou da folia. Após o episódio gravíssimo de sepse causado pela aplicação de hidrogel, que a deixou entre a vida e a morte, Andressa buscou refúgio na religião.
Naquela fase, a modelo adotou um estilo de vida conservador, desfez-se de roupas curtas e passou a pregar contra a exposição do corpo, algo que é a essência do Carnaval de avenida.
"Na minha fase convertida, o Carnaval era um assunto proibido para mim", revela a modelo. Ela explica que a repressão não era apenas externa, vinda de dogmas religiosos, mas uma autovigilância constante.
Durante esse período, Andressa evitava até mesmo assistir aos desfiles pela televisão, temendo que a vibração da festa pudesse corromper a nova identidade que ela tentava construir. O Carnaval era visto como o símbolo máximo da "vida mundana" que ela jurou abandonar.
2. A anulação da identidade e o distanciamento simbólico
O afastamento de Urach não foi apenas geográfico ou de agenda; foi uma tentativa de apagamento histórico. "Eu me anulei em várias áreas, inclusive em coisas que sempre fizeram parte da minha história", afirma.
Para a modelo, negar o Carnaval era negar a Andressa que o Brasil conheceu nos anos 2010. Ela relata que o distanciamento simbólico foi doloroso, pois envolvia cortar laços com amigos do meio e ignorar uma paixão pelo espetáculo que sempre correu em suas veias.
Hoje, com o amadurecimento que os 38 anos trouxeram, ela consegue analisar aquele período sem o peso da culpa, mas com a clareza de quem reconhece um processo de anulação pessoal.
A decisão de não participar da festa fazia sentido dentro da redoma de fé em que vivia, mas, segundo ela, aquela Andressa "anulada" já não existe mais. O retorno à Sapucaí é, portanto, o resgate de uma parte de sua personalidade que ficou trancada por dez anos.
3. Ressignificação: fé e folia podem coexistir?
Um dos pontos mais sensíveis na entrevista de Andressa Urach é a forma como ela lida com a sua espiritualidade atual. Ao contrário do que muitos críticos apontam, ela afirma que voltar ao Carnaval não significa cuspir no passado ou negar a existência de Deus em sua vida.
"Não é sobre dizer que tudo o que vivi antes foi errado ou negar a minha fé. É sobre entender que eu mudei", explica.
Essa ressignificação é o cerne da sua nova fase. Urach defende que o amadurecimento permite que uma mulher seja dona de suas escolhas estéticas e profissionais sem que isso invalide sua relação com o sagrado. Para ela, o Carnaval de 2026 é uma festa de liberdade.
A mulher que hoje é uma das maiores criadoras de conteúdo adulto do país vê na avenida um palco de celebração da sobrevivência, encarando a nudez e a fantasia não como pecado, mas como expressão artística e profissional.
4. Porto da Pedra: O convite que mudou o jogo
A escolha da Unidos do Porto da Pedra como o lar para seu retorno não foi por acaso. A escola de São Gonçalo, que desfila pela Série Ouro com o enredo "Das Mais Antigas do Mundo, o Doce e Amargo Beijo da Noite", ofereceu a Andressa o acolhimento necessário para este "reboot".
O enredo, que fala sobre segredos e mistérios da noite, parece dialogar diretamente com a trajetória da modelo, que sempre viveu intensamente os extremos da luz e da sombra.
Andressa ressalta que o convite teve um peso simbólico especial. "Não foi uma decisão impulsiva. Eu senti que estava pronta para voltar, para viver isso com consciência", diz. Integrar a Porto da Pedra em 2026 representa, para ela, uma validação de que o meio carnavalesco ainda respeita sua trajetória como personalidade da mídia, apesar de todas as idas e vindas e das polêmicas que cercam sua vida privada e financeira atualmente.
5. Preparação intensa e o corpo aos 38 anos
A preparação de Andressa Urach para o desfile de 14 de fevereiro de 2026 tem sido rigorosa. Após passar por diversas cirurgias plásticas recentes, a modelo foca agora no condicionamento físico.
Desfilar como musa exige fôlego para atravessar os 700 metros da avenida sambando e sorrindo, algo que ela não faz profissionalmente há muito tempo.
Além da dieta e dos treinos, Andressa investe na saúde mental. Ela sabe que será o centro das atenções e que as críticas sobre seu corpo e seu comportamento serão inevitáveis.
No entanto, ela demonstra uma confiança renovada. Aos 38 anos, ela afirma se sentir mais bonita e poderosa do que aos 20, creditando essa segurança à liberdade financeira e à autonomia que conquistou sobre sua própria imagem, independentemente de aprovações externas.
6. Expectativas para a noite do desfile: entrega e gratidão
O desfile da Porto da Pedra promete ser um dos momentos mais comentados do sábado de Carnaval em 2026. Andressa Urach encerra suas reflexões com um tom de esperança e dever cumprido antes mesmo de pisar no asfalto.
"Estou voltando com o coração aberto", conclui. Para ela, atravessar a linha final da dispersão será a prova definitiva de que ela retomou as rédeas de sua narrativa.
O público pode esperar uma Andressa entregue ao personagem de musa, mas com a consciência de quem conhece os riscos da fama excessiva.
O "doce e amargo beijo da noite" do enredo da escola sintetiza bem a vida de Urach: uma jornada de altos e baixos, de glórias e dores, que agora se reencontra com o brilho das lantejoulas. Para Andressa, 2026 não é apenas um ano de Carnaval; é o ano da sua libertação final de qualquer dogma que a impedisse de sambar.