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Lançamento de pacotes fora das metas fiscais é muito preocupante, diz Otaviano Canuto

Economista que já foi dirigente Banco Mundial também aborda o risco de os investimentos trilionários em IA enxugarem a liquidez de capital nas economias emergentes

18 jun 2026 - 16h51
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O economista Otaviano Canuto, que já foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diz que o Brasil é "mestre" em recorrer a manobras para contornar as regras fiscais, o que, mesmo num contexto em que o mundo inteiro lida com desequilíbrios nas contas públicas, é muito preocupante.

Segundo Canuto, os programas lançados pelo governo, à medida que as eleições se aproximam, têm impacto nas contas públicas, ainda que não comprometam as metas do arcabouço fiscal. "As instituições do Brasil são bem lenientes, e o fato é que o governo tem recorrido a isso", disse Canuto em entrevista ao Estadão/Broadcast. Nesta quinta-feira, 18, às 18h, ele participa de webinar promovido do Brazil-Florida Business Council (BFBC) sobre as eleições presidenciais e as perspectivas para investimentos no Brasil.

Pesquisador sênior no Policy Center for the New South, um think tank (centro de estudos) focado em políticas públicas, Canuto observa que a polarização política interdita o debate sobre o ajuste fiscal. Ele também aborda o risco de os investimentos trilionários em inteligência artificial enxugarem a liquidez de capital nas economias emergentes. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Apesar do crescimento da dívida pública brasileira, o quadro fiscal também piorou no resto do mundo. Em termos relativos, a situação fiscal do Brasil melhorou?

Sim, mas isso não elimina os efeitos negativos da deterioração fiscal ao próprio país. Quem compra papel, quem compra dívida pública, não fica olhando só ao relativo. O risco vai aumentar com a trajetória de expansão da dívida pública. A deterioração fiscal nos países avançados não nos permite ignorar o assunto. Os juros vão subir no exterior, o que vai impor uma dificuldade ainda maior para os juros caírem no Brasil. E juros mais altos jogam contra a trajetória da dívida pública brasileira. Aos poucos, corremos o risco de entrar numa trajetória explosiva da dívida, que já passou de 80% do PIB. O Brasil precisa de um saldo primário melhor, sem recorrer a manobras por fora (das regras fiscais), em que nós somos mestres.

'A polarização não ajuda a discussão de temas relevantes da pauta econômica, não só no Brasil', diz Canuto
'A polarização não ajuda a discussão de temas relevantes da pauta econômica, não só no Brasil', diz Canuto
Foto: Monalisa Lins/Estadão / Estadão

O governo tem abusado dessas manobras em ano de eleição, lançando programas fora da regra fiscal?

Tem feito isso. As instituições do Brasil são bem lenientes, e o fato é que o governo tem recorrido a isso. Todos esses pacotes e linhas de crédito têm efeito fiscal, mas não estão sendo incorporados aos indicadores que compõem as metas fiscais oficiais. Isso é muito preocupante.

A polarização política afasta uma discussão sobre o ajuste fiscal?

A polarização não ajuda a discussão de temas relevantes da pauta econômica, não só no Brasil. Ninguém quer prometer que vai ser, digamos assim, mais austero.

Por outro lado, o fim da escala 6x1 está avançando no Congresso. Qual pode ser o impacto na inflação e no crescimento econômico?

O impacto em termos de custo não vai ser tão pronunciado. Há margem para que a transição ocorra sem impactos de custo significativos. Vai depender, é claro, de como a produção se adapta. Não estou dizendo que o impacto é zero. O custo salarial por hora vai aumentar para as empresas, mas não será necessariamente algo catastrófico.

Será possível compensar esse aumento de custo com ganhos de produtividade?

Há atenuantes, como já se viu em experiências em outros lugares do mundo. A rigor, eu não atribuiria cenários catastróficos, com exceção, talvez, de um ou outro setor que terá mais dificuldade em se adaptar.

Mudando de assunto, o investimento trilionário que está sendo feito em inteligência artificial nos Estados Unidos...

Não só nos Estados Unidos. Boa parte dos equipamentos é importada da Ásia. E os investimentos em inteligência artificial nos EUA têm beneficiado muito os países exportadores, incluindo semicondutores, na Malásia, na Coreia e em Taiwan. O que está puxando a economia americana é o investimento em inteligência artificial. Em grande medida, o desempenho agregado muito bom dos Estados Unidos decorreu da combinação de investimentos em centros de dados, centros de energia, em capital fixo e assim por diante.

É uma bolha?

Há pelo menos uns três anos acompanhamos a história da inteligência artificial como uma bolha. Mas é uma bolha que, ao invés de explodir, continua sugando dinheiro do mundo inteiro. Todo mundo está comprando não só ações, mas também papéis de dívida (das empresas de IA). O fato é que, por enquanto, a evolução dos resultados dessas empresas está corroborando a valorização, e isso está puxando para cima a economia.

Os fundamentos das empresas de IA são, então, mais sólidos do que eram os das empresas da bolha da internet?

A julgar pelas receitas versus o custo, sim. A ideia de bolha não nega o efeito real da tecnologia. A transformação que a internet trouxe, mesmo sendo financiada por uma bolha, é inegável. Da mesma forma, o resultado da revolução da inteligência artificial vai ser significativo em termos de produtividade.

A IA pode drenar investimentos em outros setores? Será um desafio para mercados emergentes menos inseridos na corrida tecnológica?

Existe, sim, a preocupação de que a liquidez seja inteiramente sugada pelas empresas de IA. Os Estados Unidos já viraram, em grande medida, um grande sugador de riqueza do mundo inteiro, seja pelos títulos da dívida pública, seja via empresas de IA no mercado de capitais.

Com o acordo de paz entre EUA e Irã tudo volta a ser como era antes?

Não creio. No curto prazo, os efeitos do fechamento do Estreito de Ormuz não vão desaparecer da noite para o dia, sem falar dos danos (da guerra) à infraestrutura da região. O Oriente Médio virou um ponto importante em várias cadeias produtivas, que vão além do petróleo. Estou falando, por exemplo, de gás e fertilizantes. O trânsito por Ormuz vai demorar algum tempo até os navegantes se sentirem seguros. O prêmio de risco do petróleo subiu.

O choque do petróleo deve acelerar a transição para energias renováveis? Ou deve, na verdade, estimular investimentos na produção de petróleo fora do Golfo Pérsico?

O prêmio de risco da segurança energética subiu, o que favorece a mudança para a energia limpa ou novas rotas. Os próprios países árabes estão gastando um dinheiro enorme em oleodutos para criar outros canais. A preocupação com segurança energética é maior agora, levando à busca por menor dependência.

Estadão
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