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'Estadão' publica série de entrevistas com CEOs do mercado financeiro sobre eleições

Com clientes em crise e em negócio de 'rouba-monte', comandantes de instituições financeiras defendem de maneira unânime necessidade de ajuste fiscal, que derrubará juros e fará economia voltar a andar

8 set 2026 - 05h45
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Resumo
Líderes do mercado financeiro ouvidos pelo Estadão alertam para a urgência de um ajuste fiscal nas eleições de 2026. Preocupados com o impacto dos juros altos sobre empresas e empregos, os executivos cobram equilíbrio nas contas para conter a inflação e evitar um colapso econômico. Críticos aos planos imediatistas dos principais candidatos e adotando postura defensiva nos investimentos, a maioria prevê reformas fiscais inevitáveis após o pleito, independentemente de quem seja o vencedor.

O Estadão publica, a partir desta terça-feira, 8, uma série de entrevistas com presidentes executivos de instituições financeiras sobre as eleições de 2026. Comandantes de bancos de investimentos independentes, fundo de previdência privada, gestoras e plataforma de investimento, eles conseguem ter um termômetro relativamente preciso para medir a temperatura da economia e dos negócios, graças à demanda de seus clientes corporativos.

Em comum, todos se dizem preocupados com a urgência de um ajuste fiscal. Se o governo não adequar seus gastos à arrecadação, dizem eles, a pressão sobre a inflação continuará alta e, por consequência, também a taxa básica de juros. Principal ferramenta monetária do Banco Central, a Selic segura a alta de preços mas, como consequência, tira o dinheiro de circulação, paralisa negócios e o crescimento.

Lançamento da campanha de Lula: política fiscal do governo petista é desaprovada por CEOs do mercado financeiro
Lançamento da campanha de Lula: política fiscal do governo petista é desaprovada por CEOs do mercado financeiro
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

"A economia não aguenta mais um ano com os juros reais nesse nível", diz Daniel Wainstein, co-CEO do Seneca Evercore, que acaba de criar o Banco Seneca. "O empresário não aguenta e, no momento em que chegar ao inevitável desemprego, a situação será insustentável."

O relato de empresas sufocadas também é outro ponto comum no discurso de quem trabalha com reestruturação de dívidas, captações de recursos ou operações de fusões e aquisições. Os pedidos de recuperação judicial em grandes empresas têm gerado um efeito cadeia no qual as fornecedoras menores também estão sendo sufocados. Há relatos de companhias que reduziram produção por faltar dinheiro para manutenção de máquinas e equipamentos.

"Se a gente não tiver uma forma de reduzir os juros no Brasil, vamos caminhar para um abismo", afirma Ricardo Lacerda, CEO do banco de investimentos BR Partners. "Vamos começar a ter discussões sobre calote na dívida pública, inflação e coisas que a gente achou que eram fantasmas de um passado muito longínquo."

Assim, para a maior parte deles haverá algum ajuste nas contas públicas, independentemente de quem seja eleito. Porém, nem todos enxergam o risco de dominância fiscal, que é quando as altas taxas de juros perdem seu efeito.

Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos, vê o fato de estarmos "na beira do precipício" como algo positivo, pois serve como o único limite capaz de sensibilizar e forçar o governo a agir.

"Nosso cenário é de algum ajuste fiscal, sendo que, o que muda (dependendo de quem ganhar as eleições) é a intensidade do que será feito e de muita volatilidade até a definição", diz ele. "Nossas posições aqui são muito táticas, posições de curtíssimo prazo."

Gestora tem priorizado investimentos defensivos

Isso significa que, em vez investir no longo prazo, a gestora tem priorizado a liquidez rápida e a segurança para blindar o patrimônio dos clientes contra a volatilidade típica das eleições. Em termos macroeconômicos, quando grandes investidores institucionais adotam essa postura defensiva simultaneamente, o efeito prático é uma desaceleração generalizada na movimentação e no crescimento da economia real.

A maioria dos entrevistados se posiciona de maneira crítica em relação às discussões das proposta para o País feitas pelos candidatos. "Os planos de campanha atacam apenas as emergências e não pensam o Brasil que queremos no longo prazo", afirma Rodolfo Reichert, CEO da Genial Investimentos. "Se o candidato A ou B ganhar, a única diferença é que um vai ser mais fiscalista, o outro vai deixar (o Orçamento) mais solto, mas não é isso que vai fazer a diferença no longo prazo para a gente. Não temos plano que nos oriente para onde ir."

Nenhum dos entrevistados apoiou explicitamente a reeleição do presidente Lula ou a candidatura do deputado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência. Pelo contrário, as posturas variaram entre o ceticismo analítico e críticas a ambos. Contra Lula, porém, as posições foram mais firmes. O único que está ao lado de um candidato é Lacerda, que tem acompanhado Ronaldo Caiado em seu périplo eleitoral.

Todos, por outro lado, viram seus negócios crescer durante o último governo. Eles atribuem os resultados a estratégias individuais de reposicionamento dos negócios de acordo com as tendências do mercado e não a uma onda de crescimento do País. "O trabalho é muito mais de roubar monte dos bancos tradicionais do que do crescimento em si da economia", diz Wainstein.

Com 225 mil seguidores no Instagram, Walter Maciel, CEO da AZ Quest, é o dono de opiniões mais polêmicas entre os entrevistados. Para ele, há uma chance de Flávio ser eleito em primeiro turno, pelo fato de todos os outros competidores, com exceção de Lula, serem de direita e haver a possibilidade de voto útil por conta de uma eventual falta de reação de outras candidaturas.

Maciel também acredita que o ajuste fiscal pode ter efeito similar ao Plano Real para a população. "Quando o juro cair para 7%, o poder de compra da população vai aumentar e o cara que fizer essa manobra vai ser mega popular", diz. "Vai voltar bolsa, vai voltar investimento e as pessoas vão ter a sensação de melhoria de vida."

Estadão
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