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Análise: João Gilberto, o gênio divisor de águas

'Chega de Saudades', 'Desafinado' e 'Samba de uma nota só' fecharam um ciclo estilístico em nossa mais delicada música de câmara popular

8 jul 2019
03h11
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No final do ano de 1958 passei umas férias numa cidade do interior de São Paulo. Circulando numa praça da cidade, ouvi dos autofalantes de uma loja a "não-voz" de um cantor que murmurava uma sofisticada melodia, com harmonias arrojadas, envolta num arranjo por demais econômico, cool, algo que nada tinha a ver com a música popular brasileira, submersa num atormentado vale de lágrimas na base do "ninguém-me-ama-ninguém-me-quer. Fiquei paralisado. Sai então atrás do disco e de todas as informações que tinham a ver com o grito silencioso daquele intérprete. Tempos depois, conversando com amigos, soube que todos, sem uma única exceção, lembram-se do momento exato em que ouviram pela primeira vez aquele Chega de Saudades de Jobim com letras de Vinicius na interpretação do Baiano-Bossa-Nova João Gilberto. Poucos meses depois saíram duas novas gravações - Desafinado e Samba de uma nota só - que fechavam um ciclo estilístico divisor de águas em nossa mais delicada música de câmara popular.

As interpretações de João e as melodias de Jobim iriam influenciar uma enorme geração de intérpretes e compositores de boa formação, espraiando um estilo musical coloquial, sofisticado, jovem que iria substituir os arranjos melodolorosos do jargão "Oh mulher, estrela a refulgir" do antigo Vinicius pelo "ela é carioca, olha o jeitinho dela".

Em 1962 essa música se internacionalizava a partir de um show no Carnegie Hall de Nova York. Estilisticamente tinha tudo a ver com as artes de vanguarda da época. Com o cool jazz de Miles Davis, com o cinema Nouvelle Vague francês de poucas palavras, atores, cenários e movimentações de câmeras; com o rompimento da poesia com o verso, substituída pela Poesia Concreta de algumas poucas letras, silabas ou palavras esparsas no branco da página; com a arquitetura de Niemeyer, de linhas discretas e edifícios brancos sobre pilotis que pareciam flutuar; com a música dodecafônica que filtrava a música clássica de todos os conteúdos acumulados na história e deixava o som livre, leve e solto, formando um cristalino mosaico abstrato; tudo a ver também com a não menos abstrata pintura concretista, geométrica e econômica nascida no Brasil pelas mãos de Cordeiro, Fiaminghi, Saciloto, Lígia Clark e outros, espalhada depois internacionalmente por Vasarely.

É curioso notar que, se a música popular americana importou em meados do século XX ritmos latinos, os mambos e cha-cha-chas lá chegavam para animar festinhas e bailes populares. Enquanto isso as canções da Bossa Nova, na voz de João Gilberto penetraram naquele país através da elite dos músicos de jazz até chegar ao maior cantor popular do século, Frank Sinatra. Lembre-se que o álbum de jazz mais vendido da história é Getz-Gilberto. E, quando perguntaram a Eric Clapton, o maior guitarrista do barulhento rock depois de Jimmi Hendrix, quem ele queria visitar quando veio ao Brasil, respondeu na lata: João Gilberto. E Leonard Feather não titubeou em assinalar na revista Down Beat - a bíblia do jazz - que em 40 anos ninguém influenciou mais o estilo jazzístico que João Gilberto.

Estadão
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