Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Festival de cinema de Berlim se pronuncia após polêmica sobre Gaza

15 fev 2026 - 13h40
(atualizado às 14h04)
Compartilhar
Exibir comentários

Escritora indiana desistiu de participar do festival de cinema de Berlim após jurados evitarem se pronunciar sobre a guerra na Faixa de Gaza e defenderem que cineastas deveriam manter-se "fora da política".A diretora da 76ª Berlinale, o festival de cinema de Berlim, Tricia Tuttle, divulgou nota em defesa dos cineastas e jurados que participam do evento após o presidente do júri, o diretor alemão Wim Wenders, ser criticado por afirmar que o cinema deveria ficar "fora da política".

Na nota, Tuttle ressalta o caráter político do festival e argumenta que os cineastas não têm o dever de se posicionar sobre tudo.

"Temos que nos manter fora da política, porque, se fizermos filmes que sejam dedicadamente políticos, entramos no campo da política; mas nós somos o contrapeso da política", havia declarado Wenders na quinta-feira, em resposta a um jornalista que perguntou aos jurados como eles viam a postura do governo alemão em relação ao conflito na Faixa de Gaza.

A fala de Wenders gerou mal-estar entre alguns participantes da Berlinale e levou a autora indiana Suzanna Arundhati Roy a anunciar a retirada do seu filme do festival.

"Ouvir essas pessoas dizerem que a arte não deve ser política é de deixar qualquer um boquiaberto", declarou a escritora em comunicado à imprensa. "É uma forma de encerrar uma conversa sobre um crime contra a humanidade, mesmo quando ele se desenrola diante de nós em tempo real - quando artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo ao seu alcance para impedi-lo."

Reagindo à polêmica deflagrada após a coletiva, Tuttle afirmou, em nota publicada neste sábado (14/02) no site da Berlinale, que os cineastas falam "através de seus filmes, sobre seus filmes - e às vezes também sobre temas geopolíticos que podem estar associados ao seu trabalho ou não".

Ela destacou que a programação inclui 278 filmes, sobre temas diversos: genocídio, violência sexual na guerra, corrupção, violência patriarcal, colonialismo e abuso de poder estatal. "Entre os cineastas, há pessoas que vivenciaram violências e genocídios, e que por causa de seu trabalho ou posicionamento político correm o risco de ser presos, exilados ou até mesmo mortos", frisou.

Tuttle disse não acreditar que entre os participantes do festival haja alguém "indiferente ao que acontece no mundo", ou que não leve a sério "os direitos, a vida ou o imenso sofrimento das pessoas em Gaza e na Cisjordânia, República Democrática do Congo, no Sudão, no Irã, na Ucrânia, em Minneapolis e em um número assustadoramente grande de outros lugares".

Ao mesmo tempo, ressaltou que os artistas "têm a liberdade de exercer seu direito à liberdade de expressão como queiram", mas não são obrigados a se posicionar "sobre todos os temas políticos que lhes são apresentados - a menos que eles queiram".

Festival diz que críticas se baseiam em palavras tiradas do contexto

Em um segundo comunicado, enviado a jornalistas neste domingo, a Berlinale ressaltou a importância de sair "em defesa de nossos cineastas e, especialmente, de nosso júri e de seu presidente [Wenders]" diante da "tormenta midiática" que se desenrolou desde a coletiva de imprensa da quinta-feira.

De acordo com a Berlinale, as críticas à falta de posicionamentos políticos mais contundentes por parte dos jurados estão baseadas em palavras "desvinculadas não só do contexto, como também da trajetória e dos valores que esses artistas representam".

"Nossa responsabilidade é criar um espaço em que se possam escutar e respeitar diversas perspectivas, tanto dos próprios filmes como por parte de quem os realiza, incluindo aqueles que trabalham com fortes impulsos políticos", afirma a nota.

Como a polêmica começou

A Berlinale é conhecida por seu teor mais político, e a programação costuma refletir isso. Na abertura desta edição, artistas desfilaram no tapete vermelho pressionando pelo fim do regime autoritário no Irã, por exemplo.

A polêmica começou durante uma coletiva de imprensa antes da abertura do festival.

A entrevista, transmitida ao vivo pelo site do festival, chegou a ter o sinal interrompido quando um jornalista direcionou ao júri a pergunta sobre o conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza.

"A Berlinale, como instituição, tem demonstrado solidariedade com os povos do Irã e da Ucrânia, mas nunca com a Palestina, mesmo hoje em dia", afirmou o jornalista alemão Tilo Jung durante a coletiva. "À luz do apoio do governo alemão ao genocídio em Gaza e seu papel como principal financiador da Berlinale, vocês, como membros do júri..."

A transmissão ao vivo foi interrompida antes que ele pudesse terminar o questionamento: "Vocês, como membros do júri, apoiam esse tratamento seletivo dos direitos humanos?"

A interrupção gerou especulações sobre se o festival teria tentado censurar o tema, o que os organizadores negaram. Posteriormente, o vídeo com a íntegra da coletiva foi disponibilizado no site da Berlinale.

Antes da resposta de Wenders, outra jurada, Ewa Puszczynska, produtora do filme Zona de Interesse, que trata do Holocausto, disse que o questionamento do jornalista era "um pouco injusto".

"Há muitas guerras com genocídios, e não falamos sobre isso", reagiu ela. "Portanto, essa é uma questão muito complicada e acho um pouco injusto perguntar o que pensamos, como apoiamos ou não apoiamos, se conversamos com nossos governos ou não."

Acusações de antissemitismo

Nos últimos dois anos, vários cineastas fizeram declarações políticas sobre o conflito em Gaza, e o festival de cinema de Berlim enfrentou críticas de diferentes lados sobre como lidou com esse tema.

Por um lado, a Berlinale é apontada como relutante em manifestar solidariedade aos palestinos; por outro, de antissemitismo por abrir espaço a vozes dissidentes.

Críticas às políticas de Israel por parte de um cineasta israelense estiveram entre os incidentes da edição de 2024 que levaram o festival a ser acusado de antissemitismo.

Yuval Abraham, o co-diretor israelense do documentário No Other Land, que retrata a ocupação na Cisjordânia, passou a receber ameaças de morte em seu país natal após seu apelo, na cerimônia de premiação do festival, para que se pusesse fim a "esse apartheid, essa desigualdade".

ra (EFE, AFP, DW, ots)

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade