O filme em que James Van Der Beek se tornou vilão
Em 2002, Regras da Atração fracassou nas bilheterias e recebeu críticas medianas. Mas a história insana de estudantes universitários niilistas merece ser assistida — nem que seja apenas para ver o ator interpretando o anti-Dawson definitivo
É um filme baseado em um romance de Bret Easton Ellis sobre um jovem psicopata destrutivo chamado Bateman. O protagonista do filme, um ex-ator mirim bem conceituado agora na casa dos 20 e poucos anos, está fazendo um papel fora do seu tipo, o que significa que o filme lhe dá a oportunidade de se estabelecer como um astro de cinema versátil e lucrativo. No entanto, ao estrear, o filme recebe uma resposta que varia de morna a hostil.
Fãs de cinema e aficionados por assassinos em série podem reconhecer isso como uma descrição do clássico cult de 2000 Psicopata Americano, estrelado por Christian Bale — mas também é uma descrição do filme praticamente esquecido de 2002 Regras da Atração, estrelado por James Van Der Beek. Rules é um filme estranho, frenético e espalhafatoso no qual Van Der Beek, que morreu na quarta, 12, aos 48 anos, acreditava profundamente e esperava que reiniciasse e redefinisse sua carreira quando Dawson's Creek (1998) chegasse ao fim.
Ele interpreta Sean Bateman, um id humano que, no universo de Ellis, é o irmão mais novo do assassino em série Patrick Bateman, o Psicopata Americano titular. (Numa espécie de agrado aos fãs, Sean em certo momento atende o telefone dizendo "Patrick?", pensando que é seu irmão.) Sean não é literalmente sanguinário como seu mano, embora ele se descreva como um "vampiro emocional". Ele vende drogas para seus colegas de faculdade, massacra os sentimentos de qualquer um que tente se aproximar dele e, em determinado momento, soca Jessica Biel no rosto. Sean é uma pessoa horrível demais para alcançar o nível de anti-herói, mas ele é com certeza um anti-Dawson.
No ano seguinte ao lançamento de Rules, escrevi um perfil sobre Van Der Beek. Dawson's Creek tinha acabado de sair do ar e o ator, então com 26 anos, estava ansioso para falar sobre seu futuro. Eu estava ansiosa para perguntar a ele sobre Regras da Atração. Disse a ele que havia gostado de sua atuação e observei como era impressionante que ele tivesse escolhido dar uma guinada tão radical em relação ao seu trabalho anterior.
"Uma coisa da qual eu estava muito ciente desde o início é que não poderia pedir às pessoas para pagar dez dólares para me ver fazer num filme o que elas poderiam me ver fazendo na TV de graça", Van Der Beek me disse. "Todo mundo dizia que eu estava tentando mudar minha imagem, mas eu não via dessa forma. Era o melhor roteiro não filmado que eu já tinha visto, e significava que eu não precisava interpretar o mesmo personagem que estava interpretando há cinco anos."
O roteiro, de Roger Avary, coautor de Pulp Fiction (1994), que também dirigiu, não era a única coisa que o filme tinha a seu favor. Além de Van Der Beek, contava com um elenco impressionante de jovens atores do início dos anos 2000. Shannyn Sossaman interpreta uma virgem por quem Sean acredita estar apaixonado. Biel é uma viciada em cocaína impiedosa que, somos informados, mais tarde se casa com um senador e tem quatro filhos. O personagem de Ian Somerhalder se delicia em seduzir caras enrustidos agressivos. Kate Bosworth é uma idiota brega. E Faye Dunaway, Fred Savage, Swoosie Kurtz e Paul Williams roubam a cena em papéis menores graças a uma escalação estilo Tarantino.
Antes de entrevistar Van Der Beek, assisti a um DVD promocional de Rules que encontrei numa mesa da revista onde trabalhava. Não tinha ideia do que esperar, em parte por causa da campanha de marketing esquizofrênica do filme. Um trailer começava: "Das mentes corruptas que trouxeram Pulp Fiction e Psicopata Americano…", o que é constrangedor pela forma como está se esforçando, mas pelo menos dá uma indicação do DNA do filme. O resto do trailer, junto com os comerciais de TV, posicionou Rules como um filme adolescente divertido não muito diferente de outros da época, uma era de ouro de filmes adolescentes divertidos mais ou menos delimitada por As Patricinhas de Beverly Hills (1995) e Meninas Malvadas (2004) e que incluía filmes como 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999), As Apimentadas (2000), Can't Hardly Wait (1998) e Ela É Demais (1999).
Eu tinha assistido Van Der Beek ser fotografado por horas naquele dia, forçado a usar uma série de roupas cada vez mais ridículas em uma série de poses cada vez mais ridículas. Ele estava fazendo isso principalmente ao ar livre na imponente Bethlehem Steel Mill num dia quente e chuvoso. No entanto, sua postura positiva e polida nunca mudou — até eu perguntar sobre a campanha de marketing de Regras da Atração.
"Vou ter problemas se começar a falar sobre como estava frustrado", disse ele, apertando a boca. Permaneci em silêncio, esperando que ele começasse a falar sobre isso de qualquer jeito, o que ele fez. "Os comerciais de TV e os trailers eram sobre um filme totalmente diferente! Eu não teria assistido a esse filme. E certamente não teria participado dele."
Fico me perguntando se seus sentimentos sobre Rules mudaram com o passar dos anos, porque, como percebi ao reassistir na semana passada, o filme não envelheceu bem. Duas cenas gráficas de agressão sexual e morte por suicídio são totalmente gratuitas, sem relevância significativa para o enredo — e em diferentes graus ambas são apresentadas como piada. Embora uma cidade universitária da Nova Inglaterra em 2002 pudesse muito bem não ter muitas pessoas negras, as que aparecem no filme são um capanga jamaicano que empunha um facão de um chefão local do tráfico, alguns jogadores de futebol americano e uma enfermeira que se recusa a ajudar um estudante sofrendo overdose porque, como ela diz a eles, "Estou no meu intervalo". E ele não consegue traduzir o realismo mágico peculiar dos romances de Ellis — um no qual a magia é feita por bruxos niilistas — para a tela tão habilmente quanto Psicopata Americano, resultando em personagens que se comportam de maneiras que nenhum ser humano jamais se comportaria, sem nenhuma razão aparente.
A atuação de Van Der Beek, no entanto, permanece tão ótima quanto era há 20 anos. A maneira como ele consegue transmitir a dor, prazer, raiva, resignação, entusiasmo de Sean — ou de alguma forma várias dessas coisas ao mesmo tempo — cada vez que profere o bordão patético de Sean, "Rock n' roll". Ou a maneira como ele encara a câmera com um olhar sombrio à la Jack Nicholson em O Iluminado (1980) (ambos os atores têm sobrancelhas pesadas e testas altas idealmente adequadas para encarar câmeras com olhares sombrios). Ou a maneira como ele zomba com desdém da insanidade daqueles ao seu redor, mesmo sendo ele quem os está enlouquecendo.
Para qualquer fã de Van Der Beek, vale a pena assistir. Rock n' roll.