Nos últimos anos, observamos um crescimento expressivo na busca pelas chamadas canetas emagrecedoras, que prometem uma perda de peso rápida, promessa que de fato, se concretiza. Ainda assim, chama atenção o caráter quase pandêmico que esse movimento vem assumindo. Inicialmente indicados para o tratamento do diabetes, esses fármacos passaram a ocupar o cotidiano de milhões de pessoas como atalhos para o corpo ideal. Mas, quando o emagrecimento se transforma em uma busca desesperada por aceitação e valorização estética, surge uma pergunta inevitável: o que isso tem feito com a mente?
Canetas emagrecedoras sob ponto de vista da psicologia
Do ponto de vista da psicologia, é fundamental lembrar que a relação com o corpo nunca está separada da forma como nos percebemos como pessoas. Corpo, identidade e autoestima caminham juntos. Pesquisas indicam que indivíduos com altos níveis de insatisfação corporal, vergonha em relação ao próprio corpo ou foco excessivo no peso tendem a buscar esses medicamentos, muitas vezes aceitando inclusive seus efeitos colaterais. Esse movimento, impulsionado por um imaginário cultural que associa magreza a valor e merecimento, revela mais do que o desejo de mudar o corpo: revela feridas internas que não se curam apenas com intervenções médicas.
Não há evidências da relação de perda de peso e autoestima
A ciência ainda começa a mapear essa dimensão psicológica. Até o momento, não há evidências sólidas de que a simples perda de peso leve automaticamente a melhorias profundas na autoestima ou na saúde mental. Em alguns casos, observa-se justamente o contrário: o emagrecimento rápido pode reforçar padrões de pensamento em que o valor pessoal fica condicionado ao corpo. Por isso, é essencial olhar para os motivadores internos que alimentam essa busca acelerada por determinados padrões estéticos. Órgãos reguladores, como o FDA e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), vêm reforçando o monitoramento de possíveis efeitos adversos psicológicos, incluindo sintomas de ansiedade, alterações de humor e, em casos isolados, episódios depressivos.
Os desafios invisíveis do emagrecimento rápido
O emagrecimento acelerado, impulsionado pelo uso de medicamentos, costuma ser apresentado como uma solução objetiva. No entanto, seus impactos psicológicos menos visíveis merecem atenção
O fim do "ruído alimentar"
Ao reduzir os pensamentos constantes sobre comida, o chamado food noise, muitas pessoas perdem uma de suas principais formas de regulação emocional. Sem suporte psicológico, esse silêncio pode dar lugar a sentimentos de vazio, tristeza ou irritabilidade.
Cérebro, prazer e motivação
Esses medicamentos atuam nos centros de recompensa do cérebro. Estudos indicam que a modulação da dopamina pode reduzir o prazer não apenas em relação à comida, mas também em atividades cotidianas antes prazerosas, fenômeno conhecido como anedonia.
Quando o corpo muda mais rápido que a mente
A perda de peso acelerada pode gerar um descompasso entre a imagem corporal e a vivência psíquica. Mesmo após mudanças físicas significativas, algumas pessoas continuam se percebendo no "corpo antigo", favorecendo frustração, insegurança e novas obsessões estéticas.
Controle excessivo e perfeccionismo
Quando o emagrecimento se torna um objetivo absoluto, pode surgir um padrão de vigilância constante sobre o corpo e o comportamento. Esse movimento costuma estar associado à ansiedade, ao medo de perder valor pessoal e à dificuldade de lidar com imperfeições.
Reforço de crenças rígidas sobre valor e aparência
A promessa de resultados rápidos pode fortalecer mitos culturais sobre o "corpo ideal", fazendo com que a autoestima fique ainda mais condicionada à aparência e a padrões difíceis de sustentar emocionalmente.
Intensificação de sintomas emocionais em alguns casos
Embora a ciência ainda busque diferenciar causalidade de correlação, relatos clínicos e o monitoramento de agências reguladoras acendem um alerta para possíveis efeitos colaterais na saúde mental, como picos de ansiedade, sintomas depressivos e pensamentos intrusivos.
Por que não basta emagrecer para cuidar da mente
O corpo pode mudar, mas a forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos conosco não se transforma automaticamente com a perda de peso. A autoestima não nasce na balança. Ela se constrói ao longo do tempo, nas narrativas internas, no cuidado terapêutico, no acolhimento das emoções e nos significados que atribuímos ao corpo e à própria história.
Enquanto a medicina oferece ferramentas importantes para o funcionamento físico, a psicologia nos lembra que saúde integral acontece quando corpo, mente e história pessoal caminham juntos. Ignorar essa dimensão emocional é tratar apenas uma parte do problema.
Na clínica, é comum perceber que o desejo intenso de mudar o corpo muitas vezes reflete feridas emocionais profundas: padrões antigos de comparação, sentimentos de não merecimento e a crença de que só seremos aceitos ao atingir um ideal estético. Diante dessas dores, o uso de medicamentos pode até auxiliar, mas não basta. É preciso um olhar mais cuidadoso, compassivo e estruturado sobre essa busca. Um olhar que considere quem a pessoa é, o que viveu e o que realmente espera encontrar nessa transformação.
Thais Rosa é Psicóloga e Psicanalista, apresenta o "Madrugada Astral", toda quarta-feira, a partir das 00h30, na Rádio Vibe Mundial e Astral TV.