O Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida, ganhou destaque por ajudar no emagrecimento e no controle do diabetes tipo 2.
Agora, um possível benefício pouco divulgado começa a chamar a atenção de especialistas: a redução da dor articular, principalmente no joelho.
Segundo o ortopedista Mario Zambon, especialista em dores de difícil controle e mestre em gerontologia, os efeitos podem ir além da balança.
"A gente observa que não é só a perda de peso. Existem mecanismos anti-inflamatórios envolvidos que ajudam a melhorar o ambiente dentro da articulação", explica o médico.
O tema é especialmente relevante para pessoas com osteoartrite, doença que provoca desgaste da cartilagem e dor crônica.
O medicamento age só por causa do emagrecimento?
Perder peso já é, por si só, um fator importante para aliviar a dor no joelho. Menos carga significa menos pressão sobre a articulação.
Mas os estudos indicam que o efeito do Mounjaro pode ser duplo: além de favorecer o emagrecimento, o medicamento parece atuar diretamente em processos inflamatórios do organismo.
"Ele reduz substâncias inflamatórias produzidas por células de defesa e diminui mediadores inflamatórios dentro da articulação. Isso cria um ambiente menos agressivo para a cartilagem", afirma Zambon.
Há também indícios de proteção do tecido articular. Algumas pesquisas sugerem que o medicamento pode inibir enzimas que degradam a cartilagem e estimular a produção de colágeno tipo dois, que é essencial para a estrutura da articulação.
A melhora da dor pode aparecer nas primeiras semanas?
A resposta varia conforme o organismo e o quadro clínico de cada paciente. Algumas pessoas relatam melhora logo nas primeiras semanas. Outras percebem os benefícios de forma mais gradual.
Esses medicamentos têm um efeito analgésico e anti-inflamatório que pode trazer um alívio inicial. Mas os resultados mais consistentes aparecem ao longo das semanas, com a soma da perda de peso e da redução da inflamação.
Quem pode se beneficiar mais dessa estratégia
Os melhores resultados têm sido observados em pessoas com osteoartrite leve a moderada, dor crônica no joelho, inflamação de baixo grau, sobrepeso ou obesidade e doenças metabólicas associadas.
Nesses casos, o tratamento pode atuar em dois fatores importantes da dor articular: a sobrecarga mecânica e a inflamação sistêmica.
"Pacientes com excesso de peso e desgaste articular tendem a se beneficiar porque tratamos ao mesmo tempo o peso e o processo inflamatório que agrava a dor", destaca o médico.
Quem deve ter cautela com o uso
Apesar dos possíveis benefícios, o Mounjaro não é indicado para todos e exige avaliação médica cuidadosa.
Devem ter atenção especial pessoas com:
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Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide
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Síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2
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Pancreatite atual ou anterior
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Problemas na vesícula, como cálculos biliares
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Diabetes mal controlado, com episódios frequentes de hipoglicemia
Gestantes e lactantes também precisam discutir riscos e benefícios com o médico.
"É um medicamento que precisa de indicação individualizada. Nem todo paciente com dor no joelho é candidato ao uso", reforça o ortopedista.
Por que emagrecer ajuda a dor do joelho?
A obesidade piora a osteoartrite de duas maneiras. A primeira é mecânica. Cada quilo extra aumenta a pressão exercida sobre o joelho ao caminhar, subir escadas ou ficar em pé.
Já a segunda é metabólica. O tecido adiposo libera substâncias que mantêm o corpo em um estado de inflamação contínua.
"Quando o paciente perde peso, mesmo de forma moderada, já ocorre redução da pressão sobre a articulação e diminuição das substâncias inflamatórias circulantes", explica Zambon.
Estudos mostram que perder entre 5% e 10% do peso corporal já pode trazer melhora importante da dor e da função do joelho.
O Mounjaro pode retardar a progressão da osteoartrite?
Pesquisas recentes indicam que medicamentos dessa classe podem estar associados à redução da perda de cartilagem, menor necessidade de infiltrações e queda na taxa de cirurgias em alguns grupos de pacientes.
Esses dados sugerem um possível efeito na progressão da doença, mas ainda são necessárias mais pesquisas.
"Os resultados apontam potencial para retardar a evolução da osteoartrite e, em alguns casos, adiar a cirurgia. Mas isso nunca substitui a avaliação individual e o acompanhamento contínuo", ressalta.
Tratamento vai além do medicamento
Mesmo com os avanços, o Mounjaro não substitui outras medidas importantes no cuidado com a saúde do joelho.
O tratamento da dor articular costuma incluir:
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Fortalecimento muscular
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Atividade física orientada
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Fisioterapia
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Controle do peso a longo prazo
"O remédio pode ser um aliado, mas faz parte de um conjunto de estratégias para proteger a articulação e melhorar a qualidade de vida", finaliza Mario Zambon.
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