Os animais que realizam trabalhos que nem humanos ou robôs conseguem

Em uma era de automação e robótica, ainda existem certos trabalhos especializados que somente um animal pode desempenhar.

2 fev 2026 - 17h08
Ratos treinados podem detectar a presença de minas terrestres muito mais rápido que os métodos convencionais
Ratos treinados podem detectar a presença de minas terrestres muito mais rápido que os métodos convencionais
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Eles conseguem vasculhar uma área do tamanho de uma quadra de tênis em cerca de 20 minutos, enquanto humanos com detectores de metal levariam até quatro dias", diz a dra. Cynthia Fast, que treina esses animais extraordinários na ONG APOPO.

A APOPO se dedica à detecção e remoção de minas terrestres e outros resquícios explosivos de guerra, utilizando métodos inovadores, como o treinamento de ratos-gigantes-africanos (Cricetomys gambianus).

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Todos os anos, minas terrestres matam ou mutilam milhares de pessoas no mundo todo.

"Trabalhamos com o rato-gigante-africano (ou rato-gigante-da-Gâmbia), que tem aproximadamente o tamanho de um gato pequeno. Esses animais recebem esse nome por causa de suas grandes bolsas nas bochechas, semelhantes às de um esquilo ou hamster, onde gostam de armazenar comida."

Eles são chamados de "HeroRATs" (algo como "RatosHeróis" em tradução livre) e fazem um trabalho à altura do nome: desminam áreas de risco de minas terrestres em algumas das regiões mais problemáticas do mundo — em outras palavras, salvam vidas.

"Atualmente, eles estão em Angola, Azerbaijão e Camboja, e anteriormente tínhamos ratos trabalhando em Moçambique. Até agora, eles limparam 120 milhões de metros quadrados de antigos campos minados."

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Essa é uma área maior que a cidade de Paris ou cerca de 17 mil campos de futebol.

Essas criaturas são perfeitas para o trabalho: longevas, inteligentes e altamente treináveis, grandes o suficiente para cobrir vastas áreas, mas pequenas o suficiente para caminhar sobre uma mina sensível à pressão sem acioná-la.

A APOPO nunca perdeu um rato em um campo minado.

Além disso, eles são muito mais eficientes do que detectores de metal, porque se houver muita sucata metálica na área, eles a ignoram.

Quando os ratos sentem o cheiro dos vapores de substâncias explosivas como TNT, eles arranham a superfície do solo. Esse é o sinal para os tratadores marcarem o local, e um humano com ferramentas e tecnologia poder retornar mais tarde e remover as minas com segurança.

Fast afirma que seus ratos nunca deixaram de encontrar uma única mina em mais de 25 anos.

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Mas, apesar desse histórico impressionante, uma equipe de ratos não inspira imediatamente confiança nas comunidades com as quais trabalha, mesmo que usem coletes com identificação.

"No início, havia muito mais ceticismo, e quando tentamos realizar essas cerimônias de devolução de terras às comunidades, elas se recusaram até mesmo a pisar nelas porque não confiavam nos ratos", diz Fast.

"Uma das coisas que implementamos foi organizar uma partida de futebol no terreno que antes estava minado, e quando viram que confiávamos o suficiente em nossos ratos para jogar lá, as pessoas também começaram a jogar", continua ele.

"Agora, em comunidades como o Camboja, as pessoas vêm até mim e dizem: 'Quando vocês vão trazer um rato aqui perto do meu arrozal? Porque tenho medo de que possa haver minas aqui'."

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Os HeroRATs não servem apenas para desarmar minas terrestres. A equipe também está experimentando seu uso em missões de busca e resgate, encontrando e ajudando pessoas soterradas sob escombros após desastres naturais.

E, em uma era de automação e robótica, não apenas essas criaturas, mas também outras, como furões e cães, continuam indispensáveis para fazer o que nós não conseguimos.

Da caça à física atômica

Seus corpos longos e esguios e sua natureza curiosa permitem que eles entrem em buracos e túneis, algo que humanos e muitos cães não conseguem fazer bem
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Em um campo no norte de Derbyshire, na Inglaterra, uma profissional altamente qualificada chamada Emily se prepara para o trabalho.

"Se você a vir tremendo, não é porque ela está com frio ou com medo. É porque seu corpo está se preparando, aquecendo os músculos."

Emily é uma furão dourada clara, de aparência alongada, ágil e flexível. O homem que a segura é seu chefe, ou talvez mais precisamente, seu colega James McKay.

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James tem mais do que apenas Emily na equipe. Ele dirige a Escola Nacional de Treinamento de Furões e gerencia uma equipe de elite com mais de 40 Mustela putorius furo.

"As pessoas falam sobre treinar furões. Eu acredito que suas habilidades são inatas e tudo o que fazemos é canalizá-las."

Que os furões realizem trabalhos não é exatamente uma novidade. Eles foram domesticados pela primeira vez há cerca de 2.500 anos para caçar animais que os humanos não conseguiam alcançar facilmente.

"A Legião Romana os levava consigo porque, onde quer que fossem, precisavam de uma maneira de expulsar os coelhos de suas tocas, e a única forma de fazê-los correr era enviar algo que os forçasse a sair", explica James.

Nos séculos seguintes, além da caça, eles também foram usados historicamente para proteger celeiros e plantações de roedores.

Mas Emily e seus colegas não se limitam à caça; eles fazem todo tipo de coisa.

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Na década de 1980, James percebeu que seus furões tinham diversas habilidades que eram úteis.

"Uma fazenda onde eu costumava ir para coletar coelhos para controlar a população estava com um problema nos drenos do campo, e o dono reclamava que teria que contratar equipes para cavar todo o campo e encontrar onde estavam os bloqueios", lembra James.

"Tive um lampejo de inspiração e disse a ele que poderíamos colocar um furão em uma das extremidades do ralo, ver até onde ele ia, marcar aquele ponto e depois fazer a mesma coisa na outra extremidade. Fizemos isso e descobrimos onde estava o bloqueio", acrescenta. "Essa foi a pequena semente da qual tudo brotou."

Historicamente, na Europa e na América do Norte, os furões têm ajudado na caça de pequenos animais, no controle de pragas e na proteção de plantações, puxando coelhos e roedores para fora de tocas profundas
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Hoje, James é requisitado para todos os tipos de trabalhos, não apenas para encontrar bloqueios, canos e ralos, mas também para instalar cabos de fibra óptica de alta velocidade.

Eles fazem isso prendendo um fio fino à coleira do furão, que então se move como uma agulha peluda por recantos e frestas que nós, humanos, simplesmente não conseguimos alcançar.

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Eles podem ir muito fundo no subsolo, ou através de cavidades ou atrás de paredes falsas.

Uma boa comunicação é vital para o trabalho em equipe, e James nunca perde contato com seus "engenheiros", que carregam um transmissor.

Ele diz que às vezes as pessoas se preocupam com o bem-estar animal, mas tem certeza de que suas criaturas estão felizes com seu trabalho.

"Eu não faria isso se achasse que havia qualquer crueldade ou risco real envolvido. Quando coloco meu furão na frente de um buraco, tudo o que ele quer fazer é entrar e ver o que há do outro lado", diz ele.

James, é claro, não é o único que reconheceu o potencial de engenharia dos furões. Uma das doninhas mais famosas de todos os tempos se chamava Felicia.

Em 1971, durante a construção do Laboratório Nacional de Aceleradores (posteriormente renomeado Fermilab em homenagem a Enrico Fermi), surgiu um problema: os longos e estreitos tubos de vácuo que fariam parte do acelerador de partículas precisavam estar perfeitamente limpos de poeira e detritos metálicos.

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Para resolver isso, um engenheiro britânico lembrou que as doninhas exploram naturalmente túneis e frestas, então sugeriu usar uma para percorrer os tubos e arrastar um fio que permitiria a passagem de um cotonete com solução de limpeza ao longo do tubo.

Isso foi feito, e Felicia assumiu a tarefa de resolver o problema para os cientistas que pesquisavam física de partículas.

O melhor amigo

Freya detecta corretamente uma amostra de malária em uma fileira de recipientes de amostras na sede da organização beneficente Medical Detection Dogs
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Você já deve ter ouvido falar de "cães farejadores de câncer", aqueles que conseguem detectar a doença.

Mas o alcance deles vai muito além disso: epilepsia, malária, Parkinson e até mesmo covid-19.

Como os cães conseguem farejar doenças em humanos ainda é uma ciência em desenvolvimento, mas a dra. Claire Guest, cofundadora e diretora científica da Medical Detection Dogs (um centro de treinamento em Milton Keynes, na Inglaterra), está envolvida desde o início.

"Os cães nos ensinaram coisas que não imaginávamos antes: foi completamente revolucionário pensar que o câncer tinha cheiro. Agora, sabemos que as doenças têm, sim, um cheiro", diz Guest.

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O que os torna realmente excelentes no que fazem?

"Bem, em primeiro lugar, é o incrível olfato deles. Estamos falando de 300 milhões de receptores sensoriais. Os humanos têm 5 milhões. Se um humano consegue detectar uma colher de chá de açúcar em uma xícara de chá, um cão consegue detectá-la em duas piscinas olímpicas cheias de água", explica ela.

Claire acrescenta que o tipo de nariz que esses animais possuem é incrivelmente bem projetado.

Os cães conseguem inspirar o ar em um fluxo contínuo enquanto o expiram por outras partes do nariz.

Isso permite que o cheiro alcance os receptores olfativos com mais eficácia, sem que o ar antigo se misture com o novo.

Em outras palavras, eles conseguem inspirar e expirar simultaneamente pelo nariz, maximizando a detecção de moléculas de odor. É por isso que eles conseguem detectar cheiros muito sutis e seguir rastros por horas.

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"É um sistema muito sofisticado", conclui Guest.

Mas há outra qualidade importante que torna esses cães fantásticos em seu trabalho. Tudo se resume à motivação.

"Os cães não fazem isso apenas pelas recompensas que recebem. Eles querem que seus donos sejam felizes", afirma ela.

"Um estudo recente mostrou que, quando estamos com nosso cachorro e o acariciamos, liberamos ocitocina, o hormônio do amor que antes se acreditava ser produzido apenas entre mães e filhos ou casais muito próximos."

"Mas o que é ainda mais incrível, eu acho, é que o cachorro nos reflete e também libera ocitocina, completando assim um vínculo total e recíproco. O cachorro é tão apegado a nós quanto nós a ele", diz ela.

Durante a pandemia de covid, houve uma iniciativa internacional de pesquisa com o objetivo de treinar cães farejadores, e Floki foi um dos participantes australianos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Além de treinar cães biodetectores que trabalham na identificação de amostras, o centro também treina cães de assistência médica, que vivem e trabalham com um único humano.

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Eles são treinados para soar o alarme quando uma emergência médica pode ocorrer.

Lauren sofre de síndrome da taquicardia ortostática postural e um distúrbio neurológico funcional, que causa convulsões não epilépticas, e Mabel é sua cadela de assistência, o que significa que ela a alerta quando está prestes a passar mal e ter uma crise.

"Por exemplo, ela coloca a cabeça no meu colo e, se eu tento me levantar, ela não se mexe, indicando que eu preciso ficar sentada porque vou desmaiar."

Isso mudou a vida dela.

"Eu tinha uns 16 anos quando fui diagnosticada. Eu estava estudando e indo bem academicamente. Eu era dançarina e, de repente, passei de não conseguir me sentar na cama sem que alguém estivesse lá para garantir que eu não caísse e me machucasse. Sem conseguir me vestir, me lavar ou me alimentar sozinha, senti como se meu mundo tivesse realmente encolhido", lembra Lauren. "Ter a Mabel mudou tudo: posso sair e me locomover sozinha… é absolutamente incrível."

Se existisse uma máquina que pudesse fazer tudo o que a Mabel faz, qual ela escolheria?

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"Eu sempre escolheria a Mabel em vez de um robô, porque ela faz muito mais do que apenas alertar sobre algo. Existe também essa conexão emocional", diz.

"Imagine o pior dia da sua vida, mas ter alguém sentado ao seu lado, fazendo você se sentir melhor. E não há nada tão especial quanto acordar de manhã e ver alguém tão feliz em te ver. Eu jamais a trocaria por um robô!"

*Para mais detalhes sobre o assunto, ouça o podcast The Animal Employment Agency da série Discovery da BBC

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