Para grande parte dos brasileiros, janeiro é sinônimo de aperto financeiro com IPVA, matrícula escolar, impostos, cartão estourado, dívidas acumuladas do fim do ano e a sensação de que o dinheiro evaporou. Somado à pressão emocional das promessas de 'vida nova', esse cenário cria um ambiente de ansiedade intensa, e, segundo especialistas, é um dos períodos em que mais ocorrem recaídas em vícios comportamentais.
Segundo o psicólogo clínico Leonardo Teixeira, especializado em compulsões, o estresse financeiro altera diretamente o funcionamento da mente. "A ansiedade deixa o cérebro mais impulsivo. Quando a pessoa acredita que está 'sem saída', ela busca qualquer forma de alívio rápido. E é aí que muitos caem em apostas, compras impulsivas, pornografia, álcool ou outras compulsões."
Ele aponta que a lógica emocional é simples. Quanto maior for a sensação de descontrole financeiro, maior a tendência de buscar anestesia emocional imediata. Em vez de lidar com dívidas, a pessoa tenta desligar o desconforto por alguns minutos, mesmo sabendo que isso aprofunda o problema. "O vício promete uma fuga temporária. E quando a pessoa está desesperada, a promessa parece irresistível", afirma.
Por que janeiro é tão perigoso para quem já tem histórico de impulsos?
Para o especialista, o início do ano reúne todos os elementos que favorecem recaídas, como culpa pós-festas, pressão por produtividade, expectativa de recomeço e medo de não conseguir organizar a vida. A sensação de fracasso é um gatilho emocional, especialmente em quem já enfrenta comportamentos compulsivos.
Além disso, campanhas esportivas retomam em janeiro, o que reativa impulsos em quem tenta se afastar de apostas. Já o uso de pornografia aumenta em períodos de estresse, segundo o clínico, pela busca de dopamina rápida. "O cérebro ansioso quer alívio. Ele não quer solução, quer pausa. E a pausa oferecida por vícios costuma ser instantânea, embora custe caro depois."
A pressão social também intensifica o risco. As redes sociais exibem viagens, conquistas e metas, e criam uma comparação constante com a própria realidade. "Sentir que está 'atrasado' em relação aos outros é um gatilho emocional muito forte. Muita gente aposta tentando recuperar dinheiro ou compra impulsivamente tentando recuperar autoestima", reforça.
Como interromper o ciclo ansiedade?
Para Teixeira, o primeiro passo é reconhecer que a ansiedade financeira não é apenas um problema econômico, mas emocional. Criar um plano de organização simples, limitar a exposição a gatilhos, evitar ambientes de risco e buscar apoio profissional são estratégias essenciais, especialmente no início do ano.
Ele orienta que familiares prestem atenção a mudanças de humor, tentativas de esconder dívidas, mentiras sobre gastos, irritabilidade e isolamento - sinais comuns de pessoas que buscam alívio compulsivo. "A pessoa envergonhada se esconde. E quando se esconde, o comportamento compulsivo cresce no escuro."
Buscar ajuda especializada - psicoterapia, CAPS, grupos de apoio - é fundamental para reduzir o risco de recaídas e criar estratégias de enfrentamento. "Resolver dívidas exige clareza mental. E clareza não combina com impulsividade. Janeiro é um mês delicado, mas também pode ser o ponto de virada quando a pessoa decide pedir ajuda", completa.
*Fonte: Tais Gomes - TG Comunica