Os brasileiros passam, em média, 116 horas por semana em frente às telas. O número significa que, ao longo de uma vida com expectativa média de 76 anos, são cerca de 52 anos, 9 meses e 16 dias diante de telas, segundo levantamento encomendado pela empresa de cibersegurança NordVPN e divulgado neste ano.
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O tempo na frente das telas aumentou desde a última edição do estudo, que foi realizada em 2022. Na comparação, o brasileiro passou a ficar 1 ano, 6 meses e 3 dias a mais na internet ao longo da vida. A pesquisa foi realizada pela Cint entre 1º e 17 de abril de 2026, com mais de 20 mil usuários de internet de 20 países. No Brasil, foram entrevistadas 1.003 pessoas entre 18 e 74 anos.
A maior parte do tempo na frente das telas acontece por entretenimento. As redes sociais consomem 12 horas e 19 minutos por semana, enquanto os serviços de streaming representam 11 horas e 28 minutos. Já os vídeos ocupam outras 10 horas e 49 minutos e a música, 8 horas e 32 minutos.
Os números da pesquisa mostram que a relação dos brasileiros com a internet continua crescendo: 32% dos entrevistados afirmaram considerar a inteligência artificial parte essencial da rotina, enquanto 33% disseram que não conseguem imaginar passar um dia inteiro sem acessar a internet.
Para o psiquiatra Gustavo Estanislau, além da quantidade de horas no celular, é preciso de atenção à causa desse comportamento, já que nem todo uso frequente de telas significa uma dependência.
Hoje, para trabalhar, estudar, conversar, se informar e até resolver tarefas do cotidiano, é preciso usar algum tipo de tela. O principal sinal de alerta, segundo o especialista, é perder o controle sobre o uso e começar a ter prejuízos na vida.
Por que é tão difícil largar o celular?
Segundo Estanislau, um dos motivos é o próprio funcionamento dos aplicativos, que são desenvolvidos para prender nossa atenção e fazer com que não seja possível perceber a passagem do tempo. Entre notificações, pop-ups, algoritmos e conteúdos personalizados, podemos passar horas rolando a tela sem notar.
"Os aplicativos são desenvolvidos para prender a nossa atenção, e, de uma certa forma, impedir que a gente perceba a quantidade de tempo que a gente passa naquela atividade específica", explica o psiquiatra.
Outro fator que pode prender o usuário à tela são os vídeos curtos, formato cada vez mais utilizado nas redes sociais. Eles fazem com que o conteúdo seja mais fácil de digerir, ao contrário de vídeos longos, que exigem mais atenção e têm menos estímulos. De acordo com o especialista, esse formato favorece os chamados disparos dopaminérgicos, que estão relacionados ao sistema de recompensa e à motivação.
A dopamina, hormônio associado ao prazer, é um dos fatores envolvidos na sensação de bem-estar que pode ser causada pelas telas. Além disso, está ligado à motivação para continuar fazendo alguma atividade. "As pessoas geralmente associam dopamina ao prazer, mas muitas vezes uma pessoa que está há bastante tempo jogando um jogo já não tem a sensação de prazer, mas tem a motivação de continuar jogando", afirma o especialista.
O psiquiatra explica que olhar para o celular ou pensar que pode haver uma nova mensagem ou notificação já pode despertar essa expectativa. É uma das razões pelas quais algumas pessoas verificam o telefone repetidamente, mesmo sem terem recebido nenhum aviso.
Problema não está só na tecnologia
Para o psiquiatra, o problema não está só na tecnologia, já que o celular pode ocupar o lugar que antes era do tédio, espera ou de outras atividades sem tantos estímulos. Segundo Estanislau, muitas pessoas recorrem às telas para aliviar sentimentos como ansiedade, tristeza e estresse, o que representa um risco maior de dependência.
"Quando as telas reduzem níveis de estresse, ansiedade e tristeza, aí a gente tem um tipo de contato mais perigoso, com mais chance de vício", afirma. O uso constante também pode mudar a forma como a pessoa se relaciona com outras atividades do cotidiano.
Estanislau compara o mecanismo à alimentação: se uma pessoa come chocolate e queijos muito saborosos antes de comer brócolis, o vegetal pode parecer menos interessante. A lógica seria semelhante com as telas, por exemplo, depois de receber estímulos rápidos e frequentes, atividades mais tranquilas podem parecer pouco atrativas.
Além disso, existe a questão de que as redes sociais expõem os usuários a histórias de sucesso, viagens, celebridades, conquistas e momentos bons em geral. Observar esse tipo de conteúdo o tempo todo pode gerar uma sensação de que "a grama do outro é sempre mais verde", segundo o psiquiatra. Vale lembrar que, muitas vezes esses momentos são apenas recortes da realidade. Essa situação pode ser preocupante especialmente no caso de crianças e adolescentes expostos às telas.
Quando o uso excessivo das telas vira um problema?
Para Estanislau, não existe um número mágico de horas que determine quando alguém está viciado em telas. O mais importante é observar se existe perda de controle e se o uso começa a provocar prejuízos.
Entre os sinais de alerta estão:
- dificuldade para reduzir o tempo nas telas;
- não conseguir controlar o conteúdo acessado;
- afastamento da família e dos amigos;
- redução da interação social presencial;
- problemas para dormir;
- prejuízos no trabalho ou nos estudos;
- irritabilidade;
- gastos excessivos com jogos e aplicativos;
- dificuldade de parar mesmo percebendo as consequências.
"A coisa mais importante aqui é que as pessoas não devem focar no número de horas que a pessoa passa, mas sim na sensação de perda de controle", afirma o psiquiatra.
Ao perceber que o uso das telas está causando prejuízos, o primeiro passo recomendado pelo especialista é procurar um psicólogo, que pode avaliar a situação e identificar se é necessário outro tipo de acompanhamento. A redução do tempo de tela pode fazer parte do processo, mas Estanislau alerta para um erro comum: simplesmente tirar o celular ou o aplicativo sem colocar outra atividade no lugar.
"O mais importante é não fazer uma redução sem a gente ter algo para colocar em troca", avalia. Isso pode significar recuperar atividades presenciais, exercícios, hobbies, encontros com amigos ou outras formas de ocupar o tempo.