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'A única solução é consumir menos': especialistas alertam para a invasão dos microplásticos no organismo e no planeta

Professora de Patologia da USP afirma que a única solução real é a redução drástica do consumo e da produção de materiais plásticos

11 ago 2026 - 04h58
Plástico no meio ambiente
Plástico no meio ambiente
Foto: Tanvi Sharma/Unsplash

Presente nas roupas que vestimos, em muitos produtos de limpeza que usamos e até no ar que respiramos, o microplástico tem se tornado uma preocupação crescente não apenas para os cientistas, mas também para a população. Um estudo da Universidade de Toulouse (França) publicado na revista científica PLOS One mostra que um adulto médio pode inalar aproximadamente 68 mil partículas de microplástico por dia em ambientes internos, quantidade que supera em mais de 100 vezes o que a comunidade científica esperava encontrar.

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Parte dessa exposição já foi atestada por grupos de pesquisas, como o da Dra. Thais Mauad, professora do Departamento de Patologia da Universidade de São Paulo (USP), que encontrou microplásticos no cérebro humano. "Vários estudos identificaram a presença de microplástico por todo o corpo humano, mas como as amostras são retiradas em situações particulares, ainda não sabemos precisar o tamanho dessa contaminação", afirma a especialista.

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O que são os microplásticos?

Apesar da presença do microplástico na rotina, muitas pessoas não sabem exatamente o que é a substância. De acordo com a Dra. Thais, o microplástico consiste em “qualquer plástico que mede até 5 mm de diâmetro”.

“Há o plástico que é produzido em tamanho reduzido, como os encontrados em esfoliantes e adicionados a produtos de maquiagem. E também há o microplástico ambiental, que é aquele plástico que está no meio ambiente se degradando até atingir esse tamanho”, explica. 

Os plásticos são feitos principalmente a partir de derivados do petróleo, portanto, é um material artificial. O período de decomposição desse tipo de composto pode chegar a mais de 450 anos.

“O plástico demora vários anos para se degradar, passando pelo tamanho de um microplástico, até chegar ao nanoplástico [entre 1 e mil nanômetros]”, ressalta a especialista.

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Por que devemos nos preocupar com os microplásticos?

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 400 milhões de toneladas de plástico são produzidas no mundo anualmente, sendo um terço dessa quantidade utilizado apenas uma vez. A entidade internacional também destaca que a quantidade desse material despejada em oceanos, rios e lagos diariamente equivale à carga de mais de 2 mil caminhões de lixo. 

A poluição por microplásticos vai além da demora no processo de decomposição: cientistas já não procuram mais onde eles estão, mas sim se existe algum lugar na Terra que conseguiu escapar deles. Há registros da substância encontrada próximo ao pico do Monte Everest, na neve fresca da Antártida e até na água da chuva.

E no corpo humano o cenário não é diferente. “Sabemos que os microplásticos já foram encontrados em diversas partes do corpo - inclusive no leite materno, no sangue e no líquido amniótico -, mas ainda não temos noção do tamanho do efeito disso. Quando começa a fazer mal, quais são os grupos mais vulneráveis, entre outras questões. Há teorias baseadas em estudos experimentais, mas ainda há muito a ser estudado”, afirma a Dra. Thais Mauad.

Uma dessas teorias é que os microplásticos podem prejudicar o cérebro humano. Um estudo da Universidade de Tecnologia de Sydney (UTS), da Austrália, em parceria com a Universidade de Auburn, dos Estados Unidos, publicado na revista Molecular and Cellular Biochemistry, identificou cinco mecanismos pelos quais essas substâncias podem ampliar o risco de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.

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Os aditivos químicos que acompanham os microplásticos também são motivo de preocupação. “Essas substâncias que dão as características particulares de cada plástico são chamadas aditivos. Existem muitos estudos em humanos que mostram associações adversas no desenvolvimento neurológico, potencial cancerígeno e efeito disruptor endócrino”, alerta a especialista.

“Quando tomamos bebidas quentes - como o café - no copo de plástico, a temperatura elevada solta não apenas o polímero básico do microplástico, mas também os aditivos”, exemplifica. A Dra. também destaca que a preocupação foi tamanha que o bisfenol, um desses aditivos mais conhecidos, foi retirado de brinquedos infantis.  

O que pode ser feito para reduzir a quantidade e o contato de plástico e microplástico?

Para a Dra. Thais Mauad, a ação mais direta para reduzir a quantidade de plástico e microplástico é recusar itens descartáveis, como copos de plástico, canudos e sacolas. “Levar sua garrafinha para todo lugar, evitar comprar alimentos armazenados no plástico, priorizar comprar alimentos a granel e comprar menos roupa - quando comprar, priorizar fibras naturais em detrimento das sintéticas”, exemplifica. “Acredito que a única coisa que vai salvar o planeta é consumir menos”, resume.

A especialista avalia a reciclagem como um engodo. “Os plásticos gerados pela reciclagem podem ser mais tóxicos, já que o processo mistura plásticos que não se sabe de onde vieram e os transformam num outro produto. Isso gera químicos de alta preocupação que não se sabe nem quais são”, explica.

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A professora também afirma que medidas de grandes entidades, como o Tratado Global de Plásticos da ONU, encontram entraves no enfrentamento da crise da poluição plástica. “O lobby das indústrias petrolíferas está empenhado para que esse tratado não aconteça. Elas sabem que a única solução para combater o problema do plástico é parar de produzir plástico, mas isso implica na redução dos lucros delas”, exemplifica.

E alerta para produtos que se colocam como “plásticos biodegradáveis”: “Não existe plástico biodegradável. O que existe, que é muito ruim, são produtos que colocam pequenas moléculas no meio desses plásticos para eles se degradarem mais rápido. Então isso dá a impressão que ele está desaparecendo, mas na verdade você está gerando microplástico muito mais rapidamente. Ou situações em que essas substâncias só são biodegradáveis em condições industriais muito específicas, que não acontecem na natureza.”

Já os materiais produzidos a partir de biomassa - como o amido de milho - podem ser, de fato, biodegradáveis. No entanto, a especialista alerta para a necessidade de fiscalização. “É preciso prestar muita atenção no material que está sendo vendido. Muitas vezes, o que chamam de plástico biodegradável é apenas o plástico convencional com aditivos que o fazem fragmentar-se mais rápido, acelerando a criação de microplásticos. A única solução realmente eficiente é parar de usar o plástico que não seja essencial”, reforça.

Fonte: Portal Terra
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