Israel vai às urnas após guerra e enfrenta eleição mais imprevisível desde o ataque do Hamas

A menos de uma semana das eleições legislativas de 27 de outubro, Israel enfrenta uma das disputas mais incertas de sua história recente. Primeiro pleito desde o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, a votação ocorre após três anos de guerra regional, sob crescente isolamento internacional do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e em meio a uma campanha dominada por temas de segurança, colonização da Cisjordânia e o futuro das relações com os Estados Unidos.

21 out 2026 - 12h05
Resumo
Na primeira eleição legislativa após o ataque do Hamas, Benjamin Netanyahu tenta manter no poder sua coalizão de direita diante da oposição liderada por Gadi Eisenkot. Com pesquisas apontando um empate técnico e 10% de indecisos, nenhum bloco parece ter os 61 assentos necessários para formar governo. Sob o impacto da guerra, o pleito é marcado por tensões na Cisjordânia, a influência do voto árabe e o peso do apoio de Donald Trump à segurança de Israel em meio ao isolamento do premiê.

Com informações de Frédérique Misslin, correspondente da RFI em Jerusalém, e AFP

A uma semana das eleições, Benjamin Netanyahu agradeceu ao presidente norte-americano Donald Trump por seu "imenso apoio".
A uma semana das eleições, Benjamin Netanyahu agradeceu ao presidente norte-americano Donald Trump por seu "imenso apoio".
Foto: © REUTERS - Ammar Awad / RFI

As eleições legislativas marcadas para a próxima terça-feira (27) representarão um teste decisivo para o futuro político de Benjamin Netanyahu, que tenta manter no poder a coalizão mais à direita da história de Israel. A votação será a primeira realizada desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, evento que transformou profundamente a política israelense e desencadeou uma guerra cujos desdobramentos continuam moldando o cenário eleitoral.

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A poucos dias do pleito, as pesquisas apontam uma disputa extremamente apertada entre o bloco liderado por Netanyahu e a aliança de oposição comandada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses, Gadi Eisenkot. Segundo os levantamentos mais recentes, nenhum dos dois campos políticos parece capaz de alcançar sozinho a maioria parlamentar necessária para formar governo.

O sistema eleitoral israelense aumenta ainda mais a incerteza. O Knesset, o Parlamento do país, possui 120 cadeiras, e qualquer coalizão precisa conquistar pelo menos 61 assentos para governar. Como a eleição é proporcional e o quadro partidário é altamente fragmentado, acordos entre legendas costumam ser indispensáveis para a formação de maiorias.

Impasse

Para a cientista política Yael Shomer, da Universidade de Tel Aviv, as pesquisas indicam um impasse entre os dois principais blocos políticos. Segundo ela, fatores como a participação eleitoral e o desempenho dos pequenos partidos podem ser decisivos para definir a composição final do Parlamento.

A incerteza é ampliada pelo elevado número de indecisos. De acordo com os levantamentos divulgados nesta semana, cerca de 10% dos eleitores ainda não escolheram em quem votar, um índice considerado relevante numa disputa em que poucos assentos podem determinar a formação do próximo governo.

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A campanha também ocorre em um contexto excepcional. Desde outubro de 2023, Israel esteve envolvido em sucessivas frentes de conflito, incluindo a guerra em Gaza, operações militares no Líbano e confrontos com o Irã, fatores que colocaram as questões de segurança no centro do debate político.

Eleição ocorre sob o peso da guerra e da polarização

A composição do atual governo está entre os temas mais discutidos durante a campanha. A coalizão de Netanyahu reúne partidos nacionalistas religiosos e formações da extrema direita, que defendem posições duras em relação aos palestinos e à expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada.

Do outro lado, o chamado "bloco da mudança" busca reunir eleitores descontentes com a longevidade política do primeiro-ministro, que soma mais de 18 anos no poder ao longo de diferentes mandatos e continua sendo uma das figuras mais influentes da história política israelense.

O líder do partido árabe israelense Raam, Mansour Abbas, afirmou à AFP que uma vitória de Netanyahu e de seus aliados representaria um cenário especialmente preocupante para a minoria árabe do país.

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Segundo Abbas, uma nova legislatura dominada pela direita nacionalista poderia ampliar a demolição de construções palestinas e acelerar a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia. "Eles consideram os cidadãos árabes como inimigos", declarou.

Os partidos árabes acompanham com atenção o comparecimento às urnas dentro de sua base eleitoral, tradicionalmente um dos fatores capazes de alterar a distribuição de cadeiras na Knesset em disputas equilibradas.

A participação da população árabe aparece, inclusive, entre as principais incógnitas apontadas pelos especialistas. Em eleições anteriores, oscilações relativamente pequenas nesse eleitorado tiveram impactos significativos sobre a composição das coalizões parlamentares.

Violência de colonos invade debate eleitoral

A reta final da campanha também foi influenciada pelos acontecimentos registrados durante o último fim de semana na Cisjordânia ocupada.

Neste domingo (18), o serviço diplomático da União Europeia condenou "energicamente" os recentes ataques cometidos por colonos israelenses contra palestinos durante a colheita anual de azeitonas. A crítica ocorreu após uma série de episódios que envolveram agressões contra agricultores, diplomatas europeus e uma jornalista norte-americana.

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As imagens das agressões receberam ampla cobertura internacional e provocaram reações incomuns até entre aliados tradicionais de Israel.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou estar profundamente perturbado pelas cenas que mostravam a agressão à jornalista norte-americana. O caso tornou-se um dos assuntos centrais da campanha e contribuiu para recolocar o debate sobre a violência de colonos no centro da política israelense.

No sábado (17), um prefeito francês de 78 anos que participava de uma visita institucional também foi agredido por colonos na Cisjordânia, aumentando a repercussão internacional das denúncias.

O gabinete de Netanyahu reagiu acusando críticos de promoverem uma campanha de "difamação" contra Israel e contra os colonos israelenses, enquanto autoridades do país afirmaram que investigações estavam em andamento.

Os acontecimentos ocorreram justamente durante a temporada da colheita de azeitonas, período que historicamente registra aumento das tensões entre colonos e agricultores palestinos em diversas áreas da Cisjordânia.

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Apoio de Trump oferece trunfo a Netanyahu

Outro elemento relevante da campanha tem sido a relação entre Israel e os Estados Unidos.Apesar do crescente isolamento internacional enfrentado por Netanyahu, muitos israelenses continuam atribuindo ao presidente norte-americano, Donald Trump, um papel importante na libertação dos reféns mantidos pelo Hamas após os ataques de 2023.

Esse fator ajuda a explicar por que o líder israelense tem destacado constantemente a parceria estratégica com Washington, especialmente nas áreas de defesa e segurança.

O apoio de Trump surge em um momento particularmente sensível para Netanyahu. O premiê enfrenta forte pressão diplomática em diferentes frentes internacionais e continua alvo de procedimentos ligados à atuação de Israel durante a guerra em Gaza.

Ao mesmo tempo, o governo israelense procura demonstrar firmeza diante do Irã, tema que permanece entre as prioridades do eleitorado conservador.

A proximidade entre Netanyahu e a Casa Branca pode fortalecer sua imagem junto a setores do eleitorado preocupados com a segurança nacional, embora não esteja claro se será suficiente para garantir maioria parlamentar.

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Com os dois principais blocos praticamente empatados, uma elevada parcela de indecisos e a possibilidade de pequenos partidos ficarem abaixo da cláusula de barreira, o resultado da próxima terça-feira (27) permanece em aberto.

Três anos após o ataque que redefiniu a história recente do país, os israelenses irão às urnas  para decidir qual caminho Israel pretende seguir após um dos períodos mais turbulentos desde sua fundação.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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