Macron chega à reta final do mandato em baixa e cercado de protestos

Quase uma década após sua primeira eleição como presidente, Emmanuel Macron está à frente de um país tenso que caminha para o abismo fiscal

18 out 2026 - 07h36
Resumo
A sete meses do fim do mandato, Emmanuel Macron enfrenta forte crise na França, marcada por baixa aprovação popular (15%), déficits fiscais graves e contínuos protestos sociais. Visto como distante da população e enfraquecido após perder a maioria parlamentar, o presidente não consolidou reformas essenciais, como a da previdência, gerando instabilidade econômica e temores de intervenção financeira. O cenário desgastou o centro político e abriu caminho para o avanço da extrema direita.
Emmanuel Macron, presidente da França
Emmanuel Macron, presidente da França
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Enquanto milhares de estudantes do ensino médio saíam às ruas na semana passada em um grito coletivo de revolta juvenil, o presidente Emmanuel Macron, da França, viajou para um navio da Marinha na costa da Bretanha. Do convés, ele assistiu ao lançamento de um novo míssil balístico a partir de um submarino francês movido a energia nuclear.

Foi uma demonstração reveladora das prioridades de Macron em um país onde o presidente, por tradição, se mantém acima da confusão da política interna. Macron deixou a cargo de seu primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, a tarefa de tentar tranquilizar o povo francês de que o governo estava lidando com a crescente agitação social.

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Isso também refletiu como Macron, após quase uma década no poder, não conseguiu resolver os múltiplos problemas que afligem a economia e o sistema de previdência social da França — problemas que ele prometeu resolver quando foi eleito em 2017, aos 39 anos, como um reformista ambicioso, e que agora se consolidaram em uma crise sistêmica.

"Lembrem-se de que Macron publicou um livro antes da eleição de 2017, chamado 'Révolution'", disse Jérôme Fourquet, analista político do instituto de pesquisas IFOP. "Nós pensamos: ele vai relançar a máquina, vai liderar uma revolução."

A apenas sete meses do fim de seu mandato, o presidente "não conseguiu realizar essa revolução", disse Fourquet. Em vez disso, disse o analista, ele pode ser lembrado como "o último capitão do navio".

Na terça-feira, 13, o Ministério do Interior francês informou que 160 mil manifestantes se reuniram em toda a França, nos mais recentes protestos para chamar a atenção para salas de aula superlotadas, prédios escolares em ruínas e a escassez de professores. Os protestos, agora em sua quarta semana, reforçaram o retrato de um país em desordem.

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Os problemas fiscais da França são tão graves que especialistas afirmam que o país pode finalmente ser forçado a aceitar o colapso de seu generoso Estado de bem-estar social. Tal cenário poderia desencadear cortes dolorosos nos benefícios sociais ou até mesmo um calote na dívida francesa.

É certo que muitos desses problemas já existiam antes de Macron. Alguns foram agravados por eventos fora de seu controle, como a pandemia do coronavírus e as guerras no Irã e na Ucrânia, que alimentaram a inflação e prejudicaram ainda mais o orçamento.

Ainda assim, críticos afirmam que Macron não conseguiu dar um passo significativo para resolver os problemas estruturais de longa data da França, seja por causa da reação negativa da população, seja por seus próprios erros de cálculo político. Seu legado, portanto, provavelmente será o de promessas não cumpridas.

O gabinete de Macron se recusou a comentar.

Ex-banqueiro de investimentos que já havia atuado como ministro da Economia, Macron assumiu o cargo prometendo revitalizar a economia da França por meio da redução de impostos para empresas e pessoas de alta renda, da flexibilização das leis trabalhistas e da reforma do sistema de aposentadoria. Isso, segundo ele, fomentaria uma cultura empreendedora e tornaria a França novamente atraente para os investidores, o que reacenderia o crescimento econômico.

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Macron alcançou os dois primeiros objetivos, mas não o terceiro. Ele provocou protestos furiosos ao aprovar um aumento impopular da idade de aposentadoria na França, de 62 para 64 anos — uma medida que, segundo economistas, era fundamental para conter o déficit público. Depois que Macron perdeu sua maioria na Assembleia Nacional, os legisladores cederam à opinião pública, votando em 2025 pela suspensão da mudança.

Ao mesmo tempo, a eliminação do imposto sobre os ricos por Macron rendeu-lhe o apelido pouco lisonjeiro de "presidente dos ricos". Isso se tornou um problema político à medida que o aumento dos preços criava uma pressão sobre o custo de vida. De 2018 a 2020, a França foi abalada pelo movimento de protesto dos "Coletes Amarelos", que começou quando as pessoas saíram às ruas para se manifestar contra os preços dos combustíveis e uma série de outras queixas.

"Nunca tivemos tantas pessoas muito ricas, e temos muitas pessoas que não conseguem pagar as contas", disse Jean-Yves Camus, cientista político da Fundação Jean Jaurès, um centro de estudos de tendência de esquerda em Paris. "A sociedade francesa, que sempre teve como objetivo ser igualitária, está seguindo o caminho americano."

Mas Araud disse que as qualidades que permitiram a Macron atuar com destaque no cenário global acabaram prejudicando-o em seu próprio país. Suas credenciais de elite e seu jeito intelectual fizeram com que ele parecesse distante da realidade da França comum, afirmou ele.

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"Ele é o presidente 'rúcula' por excelência em uma época populista", disse Araud, relembrando um episódio em que Barack Obama — de quem dizem que compartilha algumas das características autoritárias de Macron — foi criticado por mencionar folhas de salada exóticas em uma reunião com agricultores.

Os eleitores franceses há muito tempo estão desiludidos com Macron. Seu índice de aprovação ficou em 15%, o nível mais baixo desde que assumiu o cargo, de acordo com uma pesquisa realizada na semana passada pela empresa de pesquisas Ipsos. A queda na popularidade de Macron coincidiu com uma série de reveses eleitorais, alguns deles causados por ele mesmo.

Depois que seu partido sofreu uma derrota esmagadora nas eleições para o Parlamento Europeu em 2024, o presidente convocou eleições antecipadas na França. A decisão, que surpreendeu seus assessores, saiu pela culatra, deixando seu partido com menos cadeiras no Parlamento nacional.

Macron viu-se com pouca margem de manobra legislativa à medida que a situação fiscal da França continuava a se deteriorar. Sua iniciativa de reformar o Estado francês já era, naquele momento, apenas uma lembrança. A eclosão da guerra no Irã fez os preços da energia subirem novamente, obscurecendo ainda mais o panorama econômico da França.

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Mesmo ao pressionar pelo fim dos conflitos no Irã e na Ucrânia, Macron viu-se, em grande parte, à margem das negociações dominadas pelos Estados Unidos. Uma exceção foi quando ele negociou recentemente um acordo com Trump e outros líderes para liberar 100 milhões de barris de petróleo bruto e diesel estocados, a fim de amenizar os preços que a guerra havia elevado.

No plano interno, Macron passou por uma sucessão de primeiros-ministros enquanto o governo se esforçava para aprovar um orçamento. O drama aparentemente interminável em torno das finanças da França aprofundou as dúvidas dos investidores sobre a credibilidade do país.

Com os rendimentos dos títulos franceses ultrapassando brevemente o limiar perigoso de 5%, há receios de que o país possa mergulhar em uma crise financeira em grande escala. Os investidores também estão alarmados com a perspectiva de que a líder de extrema direita Marine Le Pen tenha um caminho plausível para a presidência no próximo ano.

Macron, que derrotou Le Pen por duas vezes, há muito se apresenta como um baluarte contra a extrema direita. Mas sua incapacidade de transformar seu movimento político em um partido centrista autossustentável, segundo analistas, contribuiu para o enfraquecimento do centro político da França, deixando o país vulnerável a uma tomada de poder pela extrema direita.

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Alain Minc, um empresário francês que foi conselheiro próximo de Macron antes de se desentender com ele no meio de seu mandato, disse que o legado do presidente poderia ser dividido claramente em duas partes.

O primeiro mandato de Macron, durante o qual ele promoveu algumas mudanças significativas, foi "mais do que decente". Seu segundo mandato, disse Minc, foi um "drama", culminando na crise atual, que levou alguns a questionar se a França precisará ser socorrida pelo Banco Central Europeu (BCE).

"Seu legado será dramático", disse Minc, e não no bom sentido. "A França precisar do apoio do BCE é a posição mais humilhante em que se pode estar."

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