Brasileiros na Argentina fazem campanha digital para alertar sobre os perigos do modelo econômico de Milei

Argentinos oferecem caronas e ajuda com a campanha, incluindo edição de vídeo e hospedagem. A mobilização espontânea a partir de testemunhos pessoais cresceu após o primeiro turno, potencializou a campanha no exterior e influenciou o debate nas redes sociais no Brasil.

17 out 2026 - 11h00
Resumo
Brasileiros residentes na Argentina e cidadãos locais criaram a campanha digital "Eu venho do futuro" para alertar eleitores no Brasil sobre os impactos negativos do modelo fiscal de Javier Milei, que inspira a candidatura de Flávio Bolsonaro. Relatos espontâneos sobre inflação, desemprego e pobreza viralizaram nas redes. Além da mobilização virtual, voluntários argentinos oferecem apoio logístico, como caronas, para incentivar o voto em Lula no segundo turno e combater a abstenção.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

A vitória de Flávio Bolsonaro e do Partido Liberal no primeiro turno das eleições presidenciais e legislativas acendeu o alerta entre muitos eleitores, que temem um projeto hegemônico capaz de comprometer o Estado democrático de direito.

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Esse temor, somado à promessa da campanha de Bolsonaro de promover um "tesouraço" no gasto público, tendo como inspiração o ajuste do presidente argentino, Javier Milei, levou muitos brasileiros na Argentina a querer contar aos eleitores no Brasil sobre as dolorosas consequências do modelo argentino de arrocho fiscal.

A esses relatos em primeira pessoa somaram-se os próprios argentinos, que querem alertar os brasileiros sobre os riscos de seguir por esse caminho que, segundo pesquisas, é rejeitado por dois terços da população do país.

A médica psiquiatra brasileira Isla Montalier, que vive na Argentina há 15 anos, publicou um vídeo relatando sua experiência pessoal e a de seus pacientes diante da inflação no país. O modelo econômico argentino tem sido apresentado por Bolsonaro como bem-sucedido, mas a inflação anual ainda gira em torno de 33%, acompanhada por perdas salariais, recessão, desemprego e aumento da pobreza.

"O vídeo nasceu da necessidade de informar os brasileiros sobre a realidade argentina", conta Isla à RFI. "O objetivo de publicar o vídeo foi alertar e responder a essas pessoas que me perguntam, com fontes e com a realidade do que se vive em consequência desse controle inflacionário. A vulnerabilidade alimentar, o desemprego, os cortes de direitos, o abandono de tratamento de pacientes por não poderem sustentá-lo financeiramente e a desesperança", descreve Isla.

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Estudantes assistem a uma aula ao ar livre em uma universidade pública de Buenos Aires, na Argentina, na terça-feira, 13 de outubro de 2026, como parte de uma manifestação que reivindica um aumento no financiamento para a educação pública.
Estudantes assistem a uma aula ao ar livre em uma universidade pública de Buenos Aires, na Argentina, na terça-feira, 13 de outubro de 2026, como parte de uma manifestação que reivindica um aumento no financiamento para a educação pública.
Foto: RFI

Furar a bolha

A publicação teve uma repercussão inesperada, sendo compartilhada pela comunidade brasileira na Argentina e por artistas no Brasil, furando a bolha.

"O vídeo acabou furando várias bolhas, chegou a mais de um milhão de visualizações, mais de 90 mil curtidas, mais de 11 mil comentários e mais de 65 mil compartilhamentos. Realmente, não busquei engajamento ou viralização com esse vídeo", conta.

Mas, na realidade polarizada do Brasil, também veio o ódio, um dos recursos mais incentivados pela extrema direita.

"Eu recebi muitas mensagens de ódio, de ameaça. Colocaram minha foto e a do meu namorado no Twitter. Disseram que iam à minha casa, que iam me deportar, que eu ia ter de morrer por ser comunista. Ainda bem que as mensagens de apoio, de amor e de entendimento do que eu estava compartilhando foram muito maiores do que as de ódio", compara Isla, uma referência na comunidade brasileira na Argentina.

"Mas eu não me arrependo de nada. Eu sempre vou defender a Democracia e a liberdade de poder falar sem medo", sublinha.

"Eu venho do futuro"

Rapidamente, nasceu uma campanha denominada "Eu venho do futuro", em referência aos três anos de Milei que Bolsonaro quer copiar. O lema lembra o "efeito Orloff", baseado no comercial de uma marca de vodca lançado na década de 1980 e que tinha como slogan "Eu sou você amanhã".

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O bordão da publicidade virou uma expressão popular usada para descrever a tendência de o Brasil repetir medidas econômicas que já haviam sido implementadas antes na Argentina. Foi assim com o Plano Cruzado, o Plano Verão, o Plano Real e até com o confisco das poupanças pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello.

No Núcleo do Partido dos Trabalhadores na Argentina, Mayara dos Santos explica à RFI que a reação da comunidade brasileira neste segundo turno é orgânica.

"Isso acaba surpreendendo a gente porque aconteceu de maneira espontânea, por parte de diferentes pessoas, argentinas, brasileiras, da comunidade em geral. Pode até parecer que há uma grande campanha armada por trás, mas isso parte das experiências individuais das pessoas. É o desejo de contar sobre um modelo que não vem funcionando. É o desejo de mostrar o modelo falido que vem empobrecendo as pessoas aqui", avalia Mayara.

"Vemos isso de uma maneira espetacular. Pedimos e incentivamos que as pessoas continuem fazendo. O Brasil precisa receber esses relatos daqui. As pessoas não estão vivendo bem. Estão afetadas", pede.

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Influência na campanha do Brasil

Os vídeos e relatos em primeira pessoa deram visibilidade à campanha do PT na Argentina e influenciaram o debate nas redes sociais brasileiras sobre as consequências do modelo de ajuste fiscal de Milei.

"Aumentamos muito o nosso engajamento nas redes sociais. Houve também uma descentralização da comunicação, porque ela parte de pessoas individuais. Isso vem dando ainda mais alcance à campanha. O partido no Brasil também vem recebendo, adotando e olhando para a Argentina de outra maneira. As nossas redes sociais, desde que começamos a campanha, aumentaram 80% em número de seguidores e o engajamento com as publicações cresceu quase 90%. Já temos publicações com mais de um milhão de visualizações", celebra Mayara.

A secretária do Núcleo do PT na Argentina também destaca o sentimento de pertencimento em um momento crítico para o sistema democrático.

"Parte da nossa campanha foi 'Ainda estamos aqui', porque nós também fazemos parte da democracia do Brasil e mantemos a conexão com o nosso país. Então, como militantes ou não militantes, o nosso desejo é fortalecer a Democracia porque ela está em risco neste momento", adverte.

Em Lomas de Zamora, nos arredores de Buenos Aires, pessoas fazem trocas de bens, cozinham juntas para diminuir os gastos. Famílias contraem empréstimos de curto prazo para comprar mantimentos mostram as tensões sociais que surgem sob o programa de austeridade do presidente argentino Javier Milei.
Foto: RFI

Argentinos oferecem ajuda

E como ficam os argentinos nessa reação? Muitos também gravam vídeos, até em português. Eles também participam ativamente de outra modalidade de apoio: a carona.

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No primeiro turno, em Buenos Aires, Córdoba e Mendoza, havia 12.901 eleitores aptos a votar. Mas somente 5.927 pessoas compareceram às urnas, representando 45,9% de participação e 54,1% de abstenção. Foram registrados 5.788 votos válidos, 81 votos em branco e 58 votos nulos. Lula recebeu 3.738 votos, mais do que o dobro dos 1.663 votos obtidos por Flávio Bolsonaro.

Em Buenos Aires, o maior colégio eleitoral da América Latina, Lula venceu com 66% dos votos, mas a abstenção foi a grande vencedora. Isso porque o centro de votação na capital argentina abrange 12 províncias com cidades localizadas a centenas e até milhares de quilômetros de distância.

Por isso, o professor universitário argentino Ramiro Bertoni ofereceu carona para que brasileiros fossem até o centro de votação.

"É uma maneira de colaborar. Esta é uma batalha voto a voto da qual estamos todos pendentes e também angustiados com o resultado do primeiro turno. Eu ainda não sei de onde sairão as pessoas nem aonde terei de ir para buscá-las. Veremos quantas viagens poderei fazer no dia", explica Ramiro à RFI.

O voluntário está disposto a dirigir mais de 100 quilômetros por trecho para buscar eleitores brasileiros apenas para ampliar os votos em Lula. Mas por que tanto esforço para virar o resultado?

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"É importante que Lula ganhe estas eleições. É crucial, fundamental. Esta é uma das batalhas mais relevantes devido à situação do mundo e da região. E também acho que será uma bofetada em Trump, que se mostra como o machão querendo pisar no Brasil e ameaçando o país", afirma Ramiro, evidenciando o sentimento de solidariedade regional.

"Lula é um dos grandes líderes mundiais, sem dúvida. Seria uma loucura que perdesse para alguém que nunca administrou nem um clube de bairro. Seria uma tragédia para a Democracia. Com Bolsonaro, o Brasil passaria a fazer parte do 'Escudo das Américas' e toda a América do Sul ficaria subordinada a Trump", conclui, em tom de preocupação.

Uma preocupação que serve como motivação para o professor. Há também quem ofereça casa para eleitores que moram longe passarem a noite, outros oferecem ajuda para organizar eventos nesta reta final e até serviços gratuitos de edição de vídeo.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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