Um protesto de professores e estudantes em frente ao Congresso argentino terminou em confronto com a polícia, deixando 25 detidos e oito agentes feridos. O ato exigia a aplicação da Lei de Financiamento Universitário, aprovada para corrigir verbas e salários pela inflação, mas suspensa pelo governo de Javier Milei sob a justificativa de preservar o superávit fiscal. Segundo entidades, os cortes reais de 40,5% nas verbas já levaram à demissão de cerca de 10 mil docentes e pesquisadores.
Os incidentes ocorreram nos arredores do Congresso, em Buenos Aires, e envolveram dezenas de manifestantes. A polícia utilizou jatos d'água e gás lacrimogêneo para dispersar o protesto, enquanto parte dos participantes respondeu com pedras e pedaços de mobiliário urbano.
Os confrontos continuaram após o término da manifestação, que reuniu milhares de professores, estudantes e funcionários de instituições para exigir a aplicação da Lei de Financiamento Universitário.
Vinte e cinco pessoas foram detidas, e oito agentes das diferentes forças mobilizadas para a operação ficaram feridos, informaram à AFP fontes do Ministério da Segurança Nacional. "As mesmas pessoas violentas de sempre. Querem impor o caos, desafiar as forças de segurança e transformar as ruas em uma zona sem lei", escreveu no X a ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva.
Governo adia cumprimento da lei
A manifestação ocorreu após numerosas jornadas de greve, protestos dentro das universidades e decisões judiciais que obrigam o Executivo a cumprir a chamada Lei de Financiamento Universitário. O texto foi aprovado pelo Congresso em agosto de 2025 e determina que o governo de Javier Milei recomponha salários, bolsas de estudo e orçamentos de acordo com a inflação. No entanto, o governo usa uma série de artifícios políticos para não cumprir a lei, alegando que isso afetaria o superávit fiscal.
Os recursos destinados às universidades registraram uma queda de 40,5% em termos reais na comparação entre o primeiro semestre deste ano e o de 2023, segundo um estudo do Centro de Pesquisa de Economia Nacional da Universidade de Buenos Aires.
Com bandeiras de centros estudantis e sindicatos de professores, os manifestantes exibiam mensagens como "Milei, cumpra a lei" e "A universidade pública é um direito, não um privilégio".
"Estamos exigindo que nos paguem o que nos devem", disse Francisca Staiti, secretária-geral do sindicato de professores Conadu Histórica. Ela afirmou que as restrições orçamentárias provocam o "acúmulo de empregos ou a renúncia aos cargos" de docentes.
Relatórios do setor estimam que 10 mil docentes e pesquisadores pediram demissão desde o início do governo Milei. "Vão embora porque o salário não é suficiente", comentou Victoria Coronel, estudante de Serviço Social na Universidade de La Matanza. Ela ressaltou que os cortes também são perceptíveis na manutenção da universidade. Segundo a estudante, "algumas coisas quebram e demoram para ser consertadas".
Conflito prolongado
O porta-voz da presidência, Adrián Ravier, disse na última terça-feira que "não é verdade que essa lei não esteja sendo cumprida". No entanto, ressaltou que a norma "está suspensa" enquanto o governo define seus próximos passos em relação ao assunto. O Executivo também argumenta que a legislação não especifica quais fundos deveriam ser usados para financiá-la.
Essa foi a quinta passeata nacional de estudantes e professores universitários desde o início do mandato de Milei, em dezembro de 2023. As instituições públicas de ensino superior estão entre as principais afetadas pelas políticas de ajuste fiscal do presidente argentino, que concedeu aumentos nas verbas considerados insuficientes pelas instituições.
A passeata contou com o apoio de partidos políticos de oposição, sindicatos, organizações sociais e aposentados, enquanto o Congresso também trata da eventual revogação de um amplo decreto com o qual Milei governa desde o primeiro mês de mandato.
Com AFP