Argentinos fazem mega manifestação contra o ajuste de Milei incluindo advertência às eleições no Brasil

A chamada "5ª Marcha Federal Universitária" foi originalmente convocada pelo Conselho Interuniversitário Nacional, que exige o financiamento do ensino superior, negado pelo presidente Javier Milei, apesar da Lei. A manifestação soma diversos setores da sociedade civil porque o Congresso também trata da eventual revogação de um amplo decreto com o qual Milei governa desde o primeiro mês de mandato.

15 out 2026 - 08h38
Resumo
Estudantes, professores e sindicatos realizam megaprotesto na Argentina contra cortes orçamentários e salariais promovidos por Javier Milei, exigindo a Lei de Financiamento Universitário. A mobilização ocorre enquanto o Congresso avalia revogar um megadecreto do governo. O ato reúne milhares de brasileiros no país, que alertam contra o modelo de ajuste fiscal diante do cenário político no Brasil, defendendo a educação pública e a ciência contra as perdas econômicas acumuladas sob a atual gestão.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Argentinos voltam às ruas em protesto contra as políticas do governo Milei.
Argentinos voltam às ruas em protesto contra as políticas do governo Milei.
Foto: Getty Images via AFP - LEIGH VOGEL / RFI

Professores, estudantes e instituições exigem a aplicação da Lei de Financiamento Universitário, aprovada pelo Congresso em agosto de 2025, que determina que o governo de Javier Milei recomponha salários e orçamentos de acordo com a inflação. No entanto, o governo usa uma série de artifícios políticos para não cumprir a lei, alegando que isso afetaria o superávit fiscal.

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As principais reivindicações universitárias são um reajuste salarial para reverter perdas de 33,4%, um aumento do orçamento destinado às universidades, que sofreu um corte de 47,7%, e um aumento das bolsas de ensino, que estão 20% menores. Todas essas perdas estão acumuladas desde que Milei assumiu, em dezembro de 2023.

Contra o modelo Bolsonaro

Há cerca de 15 mil estudantes universitários brasileiros na Argentina. A maioria adverte que o desfinanciamento promovido por Milei faz parte da promessa de Flávio Bolsonaro de aplicar o mesmo modelo de ajuste no Brasil.

A estudante de Medicina brasileira Letícia Lopes, da Universidade de Buenos Aires, expõe essa preocupação à RFI.

"Nós estamos articulando a presença de estudantes brasileiros, especialmente na área da Saúde, para somar forças à mobilização em defesa da universidade pública. Muitos de nós que estudamos aqui vivenciamos diretamente as consequências do desfinanciamento das universidades. Sentimos as consequências dos ajustes do governo Milei e estamos acompanhando com muita preocupação esse debate no Brasil", explica Letícia, uma referência estudantil entre os brasileiros.

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No primeiro turno, em Buenos Aires, o maior colégio eleitoral da América Latina, Lula ganhou com 66,1% dos votos. Um dos fatores que explicam uma vitória com dois terços do eleitorado é a experiência dos brasileiros com as consequências sociais e econômicas do modelo Milei.

"Aqui nós estamos vendo as consequências do ajuste fiscal e do desfinanciamento das universidades: salários baixos, dificuldade para manter as atividades acadêmicas e os impactos na pesquisa científica. No Brasil, as propostas de ajuste fiscal que vêm sendo discutidas pela equipe de Flávio Bolsonaro, incluindo as possíveis mudanças no financiamento da Educação e da Saúde, nos despertam preocupações parecidas", aponta Letícia à RFI.

"Defender a universidade pública é defender o direito ao conhecimento, à Ciência e a uma formação de qualidade, tanto na Argentina quanto no Brasil. Portanto, a defesa da Educação pública argentina também é uma luta nossa", conclui.

Amplo leque contra o ajuste

Por isso, esperam-se manifestações de apoio a Lula. Somaram-se ao protesto universitário centrais sindicais, organizações civis e movimentos políticos, entidades e instituições historicamente aliadas a Lula, como a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA).

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O amplo leque de setores sociais envolvidos indica uma mega participação popular na manifestação. Nas quatro edições anteriores, o protesto levou mais de um milhão de pessoas às ruas em todo o país, metade delas na capital argentina.

O epicentro do protesto será nas imediações do Congresso, onde também haverá uma sessão plenária para aprovar projetos de financiamento destinados a pessoas com deficiência e a devedores inadimplentes.

Congresso pode derrubar um dos pilares de Milei

Os deputados vão tratar da eventual revogação de um mega decreto por meio do qual Milei tem governado desde o primeiro mês de mandato. O decreto altera direitos trabalhistas, regras sobre aluguéis e planos de saúde, a compra de terras por estrangeiros, regulações da economia e o funcionamento de empresas públicas. Sua rejeição representaria um duro revés para o governo. O Senado já havia rejeitado o decreto em março de 2024.

Em maior ou menor medida, aposentados, servidores, trabalhadores do setor privado e informais acumulam perdas salariais diante da inflação, mas os servidores e os aposentados estão entre os mais prejudicados, com perdas em torno de 36,5%.

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A manifestação é decorrência da sentença judicial que ordena ao governo aplicar a Lei de Financiamento Universitário. O governo já entrou com recurso na Justiça.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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