Paris tem carros queimados e vidros estilhaçados após protestos se transformarem em tumultos e saques

No sábado (17/10), diversas cidades francesas foram tomadas por milhares de manifestantes que pedem melhorias nos serviços públicos e se queixam do aumento no custo de vida

17 out 2026 - 11h42
(atualizado em 18/10/2026 às 10h56)
Resumo
Cerca de 550 mil pessoas foram às ruas na França contra o custo de vida e a precarização dos serviços públicos. Apesar de a maioria agir pacificamente, atos violentos e saques atingiram Paris e outras cidades, deixando mais de 500 agentes de segurança feridos e cerca de 1,5 mil lojas danificadas. A polícia prendeu 1,8 mil pessoas em meio a incêndios, confrontos e depredações, evidenciando uma profunda crise política e social que pressiona o governo Macron.
Rua em Paris cheia de lixo e destruição após os protestos
Rua em Paris cheia de lixo e destruição após os protestos
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A França acordou, neste domingo (18/10), diante de um cenário de destruição generalizada após um dia de tumultos e manifestações, com vitrines estilhaçadas, carros incendiados, bicicletas carbonizadas e pilhas de vidro e escombros nas calçadas de Paris.

A polícia prendeu cerca de 1,8 mil pessoas no sábado (17/10), enquanto aproximadamente 550 mil manifestantes foram às ruas em protestos que, em sua maior parte, transcorreram de forma pacífica.

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Os franceses protestaram contra o aumento dos preços dos combustíveis, o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos, incluindo o ensino.

Grupos de manifestantes violentos — alguns vestidos de preto e com máscaras ou balaclavas — também surgiram em Paris, Marselha e outras cidades, onde chegaram a incendiar carros e edifícios.

Saques generalizados ocorreram nas cidades de Paris, Marselha e Lille, além de outras áreas.

Em Paris, manifestantes entraram em confronto com a tropa de choque da polícia, que utilizou gás lacrimogêneo e jatos d'água contra a multidão.

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Ao longo do dia, alguns grupos atearam fogo nas ruas e incendiaram veículos. Pelo menos um restaurante foi completamente destruído pelo fogo, e a BBC presenciou confrontos.

A tropa de choque avançou contra uma multidão no centro de Paris e atingiu várias pessoas com cassetetes.

"É como se tivéssemos vivido uma guerra", disse Mehmet Ozeden, morador de Paris, à agência de notícias AFP.

Outra moradora, Anita GrasIt, afirmou que foi "aterrorizante" ver grupos de jovens "quebrando tudo, com total impunidade".

Os saqueadores "carregavam, orgulhosos, cestas de supermercado cheias de mercadorias e riam de seus furtos", relatou à BBC Maryse, uma moradora da região que informou apenas seu primeiro nome.

Mais ao sul, em Marselha, manifestantes invadiram a prefeitura e usaram uma grade de metal como arma.

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Em Lille, segundo a polícia, uma unidade do McDonald's foi incendiada e uma loja da Apple na cidade foi invadida e saqueada.

O interior destruído de um restaurante na capital francesa, na manhã de domingo (18/10)
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Mais de 500 policiais e bombeiros ficaram feridos durante os distúrbios de sábado, informou o Ministério do Interior da França.

Cerca de 1,5 mil lojas e estabelecimentos comerciais também foram danificados durante os tumultos, segundo a Federação do Comércio.

Na manhã de domingo, em Paris, os moradores avaliavam os estragos, que incluíam vitrines quebradas de lojas de grife, como Ralph Lauren, Gucci e Versace.

Comerciantes começaram o dia cedo, munidos de vassouras para recolher grandes cacos de vidro. Caminhões de lixo circulavam por algumas das vias principais para remover os escombros.

Muitas lojas foram pichadas com frases como "taxem os ricos" e "devorem os ricos".

A BBC visitou uma loja de roupas próxima à Place de la République, no centro de Paris, que havia sido saqueada; pilhas de vestuário e móveis estavam espalhadas pelo local.

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O proprietário, visivelmente abalado, contou à BBC que viu, pelas imagens das câmeras de segurança, que os saqueadores permaneceram na loja por pouco mais de uma hora e meia — período durante o qual não houve qualquer presença policial.

O dono do estabelecimento — que pediu para não ser identificado — afirmou à BBC não acreditar que os responsáveis pelo saque fossem, de fato, manifestantes que protestavam contra as condições nas escolas ou o custo de vida.

Segundo ele, os saqueadores apenas aproveitaram as manifestações.

Perto da Place de la République, um repórter da BBC visitou a padaria "Good Vibes", que teve sua vitrine completamente estilhaçada, e a loja de vinhos "Nicolas", onde todas as garrafas foram roubadas ou quebradas, o que deixou um forte cheiro de álcool no ar.

Imagens de câmeras de segurança, exibidas pelo canal francês France 2, mostram grupos de adolescentes — a maioria com máscaras — dentro de uma loja de celulares pegando produtos das prateleiras.

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Um manifestante fica frente a frente com a tropa de choque francesa em meio a confrontos durante uma manifestação contra o custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis em Paris
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Desde o final do mês passado, protestos estudantis na França levaram centenas de milhares de pessoas às ruas.

Os manifestantes exigem mais investimentos nas escolas e criticam a falta de professores e funcionários, a superlotação das salas de aula e as condições precárias das instalações de educação.

O ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, afirmou que, embora o direito à manifestação seja fundamental, ocorreram "atos de violência" cometidos por "milhares de indivíduos de extrema-esquerda" decididos a atacar prédios públicos e confrontar a polícia.

Segundo ele, o grupo foi posteriormente acompanhado por "delinquentes que saquearam e depredaram diversos estabelecimentos comerciais em várias cidades francesas".

Na cidade de Lyon, o prefeito Grégory Doucet classificou o incêndio no posto de turismo local como "uma tragédia".

Em declaração ao canal francês BFMTV, ele afirmou: "Isso parte nossos corações, pois se trata de um edifício histórico muito icônico e conhecido."

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A polícia local informou que "indivíduos hostis" impediram que os bombeiros combatessem o incêndio com segurança.

As equipes de bombeiros também enfrentaram um incêndio na prefeitura de Limoges, que resultou no desabamento de parte da estrutura. Autoridades locais declararam que o prédio foi "praticamente destruído".

Maurice Barate, prefeito do departamento de Haute-Vienne, afirmou que "uma horda desenfreada" ateou fogo, "deliberadamente", no edifício de 143 anos.

Em outro episódio, na cidade de Saint-Étienne, um jovem teve a mão arrancada pela explosão de um artefato, informou o prefeito Régis Juanico por meio das redes sociais.

"Uma tragédia como essa jamais deveria ter acontecido", declarou ele.

Uma mulher faz exercícios perto de veículos carbonizados em Paris, perto da Place de la République
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O Ministério do Interior da França disse que os protestos de sábado envolveram "atos de violência direcionados" de "indivíduos encapuzados" em partes da capital e também em Marselha, Rennes, Toulouse e na cidade ocidental de Angers.

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Danos a edifícios foram relatados em toda a França, inclusive em Grenoble, Avignon, Pau, Montpellier e Valence.

Os protestos representam algo mais profundo para a França?

Para Hugh Schofield, correspondente da BBC News em Paris, a pergunta que precisa ser feita sobre os protestos na França é a seguinte: trata-se apenas de apenas mais uma manifestação — algo que acontece com frequência no país — ou há algo mais profundo e significativo acontecendo?

Segundo ele, em um certo nível, o movimento assemelha-se muito ao que já ocorreu tantas vezes na França: a causa, a marcha, a destruição, o gás lacrimogêneo, as prisões, as denúncias de brutalidade policial...

Segundo o correspondente, essas cenas culminam num ato final que se desenrola quando todos sentem que já basta.

"Praticamente todo outono, surge na França alguma questão que segue esse mesmo padrão", escreve Schofield.

"Mas será que agora há algo diferente? Algo capaz de transformar o período de 2026-2027 em um daqueles momentos que marcam uma época — como maio de 1968, a Comuna de Paris de 1870 ou as revoluções sociais de 1848 por toda a Europa —, ocasiões em que os protestos realmente trouxeram mudanças?", questiona ele.

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Existem argumentos sólidos que sustentam essa visão, observa o jornalista.

"Há a incapacidade de ação do governo centrista francês. Há o experimento fracassado de uma década de 'macronismo' radical. Há uma desilusão generalizada com a política tal como a conhecíamos."

"Há a crise da dívida, que, segundo analistas sérios, poderia levar a França a um calote. Há o empobrecimento provocado pela inflação."

"Há a ascensão dos extremos. Há uma guerra na Europa. Há a figura de Trump. E há as eleições presidenciais francesas, marcadas para abril/maio."

"O mundo está muito instável. As coisas estão mudando", conclui Schofield.

Manifestantes buscam proteção atrás de uma barricada enquanto a tropa de choque francesa utiliza canhões de água em meio a confrontos durante uma manifestação na Place de la République, em Paris
Foto: Reuters / BBC News Brasil

'Pacifistas' que estão 'apenas tentando promover mudanças': estudantes compartilham suas visões sobre os protestos em Paris

A BBC News conversou com alguns manifestantes nas ruas de Paris.

Estar nas manifestações é "muito importante", disse um estudante, ao explicar que não são apenas alunos que foram para as ruas hoje, mas também os trabalhadores.

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Após semanas de protestos estudantis, o movimento dos chamados "coletes amarelos" e sindicatos uniram forças com os jovens em uma manifestação mais ampla contra o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos.

"Todas as gerações" estão nas ruas hoje para expor problemas, afirmou um segundo estudante à BBC.

"Isso realmente nos dá força para continuar e sermos ouvidos pelo governo", acrescentou ele.

Outro manifestante disse estar "lutando contra a ascensão de políticas extremistas".

"É impossível viver nessa situação", avalia ele.

Um quarto participante do prostesto descreveu o grupo como "pacifista".

"Estamos simplesmente cansados de tudo isso. Só tentamos fazer com que as coisas mudem, mas nada avança", declarou ele.

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No meio da entrevista para a BBC News, os estudantes tiveram que cobrir a boca, à medida que mais uma rodada de gás lacrimogêneo foi lançada por policiais nas proximidades.

Jean-Luc Mélenchon (em primeiro plano), líder do partido de esquerda 'França Insubmissa', diz que os protestos acontecem 'com calma'
Foto: Reuters / BBC News Brasil

'A violência precisa acabar': as declarações dos políticos franceses

O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu "calma" antes dos protestos do sábado (17/10).

Ele afirmou acreditar no direito de manifestação, mas apelou aos manifestantes para que demonstrem "respeito pelas pessoas e pelo patrimônio".

No início da semana passada, a porta-voz do governo declarou que Macron teme que preocupações "legítimas" estejam sendo "exploradas" por forças políticas.

O ministro Sébastien Lecornu sugeriu, também na semana passada, que a indignação dos estudantes estaria sendo manipulada pelo partido de esquerda francês "A França Insubmissa", liderado por Jean-Luc Mélenchon.

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"Membros deste partido estão instrumentalizando o movimento estudantil do ensino médio para obter vantagem eleitoral", afirmou Lecornu na quarta-feira (14/10), acusando-os de incentivar os protestos.

Após visitar uma escola que sofreu atos de vandalismo na quinta-feira (15/10), o ministro da Educação, Édouard Geffray, apelou aos manifestantes, e afirmou que "a violência precisa acabar" e que "apenas o diálogo" poderá resolver a questão.

Jordan Bardella, presidente do partido de direita radical "Reunião Nacional", declarou estar "preocupado" com os protestos — segundo comentários citados pela imprensa francesa —, e classificou a situação como uma "oportunidade para uma França caótica se unir em torno de Jean-Luc Mélenchon".

No sábado (17/10), Mélenchon se manifestou em postagens no X.

Ele escreveu: "Enquanto os canais de notícias nos inundam com imagens de violência em dezenas de cidades, tudo se desenrola com calma, com dezenas de milhares de pessoas mobilizadas com calma. Dois mundos, duas realidades."

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"Em Paris, uma densa procissão desfila calmamente há uma hora ao longo do Boulevard Magenta. Jovem, ativa, inundada de cartazes feitos à mão", observou ele, numa postagem subsequente.

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