Por Parisa Hafezi e Angus McDowall
DUBAI, 2 Jul - Os clérigos no poder no Irã estão preparando dias de cerimônias fúnebres em massa para o aiatolá Ali Khamenei, como uma demonstração de devoção pública à República Islâmica e prova de que seu fervor revolucionário ainda arde com força.
O líder supremo do Irã foi morto por ataques dos Estados Unidos e de Israel no primeiro ataque da guerra, e os eventos fúnebres terão início no fim de semana em Teerã, com procissões em massa planejadas para a próxima semana em Qom e Mashhad, além de cerimônias no Iraque.
"A grande participação do público na procissão fúnebre do líder martirizado e dos outros mártires será, na prática, mais um referendo para a República Islâmica", declarou o aiatolá Mohammad Saidi, líder da oração de sexta-feira em Qom, à mídia estatal.
Se realmente o veem como um referendo, as autoridades não estão deixando o resultado ao acaso.
Elas esperam mobilizar milhões de apoiadores para inundar as cidades do Irã, providenciando transporte, acomodação e alimentação, a fim de proclamar o poder de seu Estado teocrático após ele ter sobrevivido ao que consideraram uma guerra existencial.
A morte de Khamenei e a sucessão de seu filho Mojtaba como terceiro líder supremo do Irã, em meio a um conflito com seus maiores inimigos, marcam um momento histórico nos 47 anos de República Islâmica. Mojtaba, gravemente ferido no ataque que matou seu pai, não foi visto em nenhuma imagem recente desde o início da guerra.
Mas, por trás da fachada de unidade e devoção, o apoio público à República Islâmica ficou cada vez mais frágil, afirmam analistas.
Por todo o país, muitos iranianos estão cansados de décadas de sanções que sufocam sua economia e indignados com a repressão imposta em nome de uma revolução de 1979 da qual apenas os mais velhos, em uma população predominantemente jovem, conseguem se lembrar.
Quando as pessoas tomaram as ruas em dezembro e janeiro em manifestações provocadas pela inflação, muitas gritavam por morte a Khamenei, e as autoridades só conseguiram reprimir os distúrbios atirando em milhares de manifestantes.
Depois que notícias sobre a morte de Khamenei começaram a circular nos primeiros dias da guerra, moradores de Teerã relataram sons de comemoração vindos de trás das janelas de casas e apartamentos em algumas partes da cidade.
Agora, Teerã está tensa e silenciosa, um contraste marcante com o emocionante último enterro de um líder supremo — o pai da revolução, o aiatolá Ruhollah Khomeini.
Naquela ocasião, milhões de pessoas em pranto se aglomeraram ao redor do cortejo fúnebre de Khomeini e algumas subiram na ambulância, com a perna nua do líder falecido aparecendo por baixo do sudário enquanto a Guarda Revolucionária lutava para conter a multidão.
Samira, de 35 anos, cujo marido é dono de um restaurante em Teerã, disse que sua família não planeja participar de nenhum evento fúnebre e que iria deixar Teerã por uma semana. "É como se a vida tivesse parado e houvesse basijis por toda parte", disse ela, referindo-se à organização de milícia voluntária afiliada à Guarda Revolucionária.