O Senado francês aprovou o projeto "quebrou, pagou", que responsabiliza manifestantes financeiramente por vandalismo em protestos, prevendo indenizações de até € 10 mil e penhora de benefícios sociais por danos coletivos, além de ampliar o uso de videovigilância. A medida busca aliviar prejuízos de comerciantes e do Estado, mas sofre forte oposição da esquerda, que alerta para riscos à liberdade de manifestação. A proposta agora segue para tramitação na Assembleia Nacional.
O Senado francês aprovou nesta quarta-feira (28) o projeto de lei conhecido como "casseurs-payeurs" — "quebrou, pagou", em uma tradução livre — criado para responsabilizar financeiramente participantes de manifestações que terminem em atos de vandalismo. O texto foi aprovado por 229 votos a 105 e agora será encaminhado à Assembleia Nacional, a Câmara dos Deputados francesa, onde deverá enfrentar um debate acalorado.
A proposta ganhou força depois dos episódios de violência e depredação registrados em diferentes cidades francesas durante os protestos de 17 de outubro contra o aumento do custo de vida. Segundo a rede das câmaras de comércio e indústria da França, mais de 2.500 estabelecimentos comerciais foram atingidos nos últimos dias.
O principal ponto do projeto estabelece uma forma de responsabilidade civil coletiva. Em determinadas circunstâncias, uma pessoa que faça parte conscientemente de um grupo que tenha cometido depredações poderá ser obrigada a pagar pelos danos, mesmo que não tenha sido identificada como autora direta do vandalismo.
O valor da indenização será limitado a € 10 mil por pessoa.
A proposta também permite que determinados benefícios sociais sejam penhorados para o pagamento das indenizações. Entre eles estão benefícios familiares e auxílios pessoais para moradia. Os senadores ampliaram ainda mais essa possibilidade durante a votação, incluindo outras prestações sociais.
Governo fala em "bom senso"
O ministro francês do Interior, Laurent Nuñez, defendeu o projeto como uma medida de "bom senso" diante da necessidade de responder rapidamente aos danos provocados durante os protestos.
O texto havia sido elaborado durante o verão europeu, depois dos episódios de violência registrados na França após a conquista da Liga dos Campeões pelo Paris Saint-Germain, no fim de maio. Os acontecimentos de outubro deram à proposta uma nova dimensão política.
A ideia é evitar que a conta dos prejuízos recaia exclusivamente sobre comerciantes, empresas, seguradoras ou o Estado — e, consequentemente, sobre os contribuintes.
Críticos denunciam risco à liberdade de manifestação
A esquerda francesa se opôs fortemente ao projeto e acusa o governo de promover uma "deriva liberticida", ou seja, de adotar medidas que poderiam restringir direitos e liberdades fundamentais, especialmente o direito de manifestação.
A preocupação central está justamente na possibilidade de responsabilizar alguém pelos danos cometidos por outras pessoas do mesmo grupo. Para os críticos, isso pode criar situações em que manifestantes sejam punidos financeiramente sem terem cometido pessoalmente qualquer ato de vandalismo.
Medidas de segurança
Além da responsabilidade financeira, o Senado endureceu o texto com uma série de medidas relacionadas à segurança.
Entre elas está a facilitação do uso da videoproteção algorítmica, tecnologia que permite analisar automaticamente imagens de câmeras para identificar determinados comportamentos ou pessoas segundo critérios previamente estabelecidos.
As medidas de segurança tiveram, em sua maioria, o apoio do governo.
O projeto agora segue para a Assembleia Nacional, onde o cenário é mais complexo porque nenhum grupo político possui maioria absoluta. A discussão deverá opor aqueles que defendem uma resposta mais dura ao vandalismo aos que consideram que a proposta pode atingir o direito constitucional de protestar.
O desafio para os deputados será definir até onde pode ir a responsabilização de participantes de uma manifestação sem transformar a punição coletiva em uma restrição ao direito individual de protestar.
Com AFP