O calor extremo e a seca na França forçaram medidas inéditas na agroindústria. O governo autorizou, em caráter excepcional, que o champanhe da safra de 2026 ultrapasse o limite de 13% de teor alcoólico devido à alta concentração de açúcar nas uvas, colhidas precocemente. Paralelamente, o clima afetou o setor leiteiro: a falta de pastagens e o estresse térmico do gado reduziram a produção de leite e ameaçam a qualidade de queijos tradicionais, exigindo a revisão de regras de denominação de origem.
As autoridades francesas anunciaram nesta quarta-feira (28) que o champanhe elaborado a partir das uvas colhidas neste verão poderá, excepcionalmente, ultrapassar o limite regulamentar de 13% de teor alcoólico volumétrico total.
"Os vinhos elaborados em 2027, resultantes de um corte (mistura) de vinhos da safra de 2026 — não enriquecidos — com vinhos de safras anteriores — enriquecidos — poderão exceder, após a tomada de espuma, o limite máximo de 13% de teor alcoólico volumétrico total", especifica a portaria publicada no Journal officiel, o Diário Oficial francês.
O teor alcoólico do champanhe varia conforme o produtor e o rótulo, mas geralmente fica entre 12% e 12,5%. Para efeito de comparação, as cervejas comuns costumam apresentar entre 4% e 6% de álcool, enquanto muitos vinhos tranquilos (que não passam por uma segunda fermentação para adquirir efervescência) têm graduação alcoólica entre 12% e 15%.
A medida foi adotada "em caráter excepcional, em virtude das condições climáticas do verão de 2026, marcadas por ondas de calor e uma seca excepcional, que resultaram em teores alcoólicos volumétricos potenciais particularmente elevados na safra de 2026", afirma o texto.
Derrogação temporária
No início de setembro, o Comité Champagne, entidade que representa os produtores da bebida, obteve junto ao Instituto Nacional de Origem e Qualidade (INAO) uma derrogação temporária das normas de produção, uma medida sem precedentes no setor.
A autorização permitirá que os viticultores cujas uvas colhidas neste ano, que apresentam elevado potencial alcoólico, elaborem vinhos que, após os processos de vinificação e de tomada de espuma (segunda fermentação, responsável pela formação das bolhas no champanhe), poderão ultrapassar o limite habitual de 13%.
A flexibilização também se aplica aos cortes com vinhos de safras anteriores que tenham passado por eventual chaptalização, técnica que consiste na adição de açúcar ao mosto para aumentar o teor alcoólico potencial do vinho após a fermentação.
A medida, porém, deverá beneficiar apenas "alguns viticultores", estimou no início de setembro Maxime Toubart, presidente do Sindicato Geral dos Viticultores e copresidente do Comité Champagne.
A colheita de 2026 foi a mais precoce já registrada na região de Champagne. Os primeiros cortes de uvas começaram em 6 de agosto, e a vindima se generalizou em 17 de agosto, duas semanas antes do início da safra de 2025, que já havia sido considerada precoce, segundo o comitê.
O ciclo excepcional, marcado por geadas precoces, seguidas de ondas de calor e seca, pode se tornar cada vez mais frequente, à medida que as mudanças climáticas obrigam os viticultores a adaptar suas práticas e a antecipar as operações no vinhedo, ressaltou a entidade.
Seca ameaça a qualidade dos queijos
Outro setor afetado pelas condições climáticas extremas do último verão no hemisfério norte é o de laticínios. Produtores ouvidos pelo canal France 3 relatam quedas de 10% a 15% na produção de leite em algumas propriedades, acompanhadas de uma deterioração da qualidade, com consequências diretas para a renda dos pecuaristas.
A retração já era esperada diante da redução na disponibilidade de alimentos para o gado. A produção de forragem, utilizada para alimentar os animais, registra perdas estimadas em 30% em volume. Por enquanto, os criadores que utilizam silagem, técnica de conservação de plantas forrageiras para alimentação animal, recorrem aos estoques do ano passado, cuja qualidade permanece satisfatória.
A compra de suplementos alimentares, no entanto, representa um desafio que vai além do custo: a disponibilidade desses insumos também preocupa, diante do risco de escassez.
A seca comprometeu tanto as pastagens quanto as colheitas destinadas à alimentação dos rebanhos. Em 20 de agosto de 2026, o déficit de crescimento das pastagens atingia 36% em nível nacional. Diante da falta de alimento fresco, criadores franceses tiveram de começar a consumir seus estoques de forragem e silagem reservados para o inverno já em meados de julho, quase três meses antes do habitual.
Produção sensível
A produção leiteira é particularmente sensível à qualidade da alimentação. Uma silagem de valor nutricional inferior pode comprometer o rendimento das vacas e alterar a composição do leite em menos de um mês, com possíveis repercussões nas características dos queijos produzidos a partir dessa matéria-prima.
O impacto também alcança os queijos beneficiados pela certificação de Denominação de Origem Protegida (DOP). Produtores de especialidades como Roquefort, Rocamadour, Reblochon, Saint-Nectaire e Comté precisaram revisar temporariamente seus cadernos de especificações para se adaptar à escassez, ou mesmo à ausência, de pastagens locais.
Os dados oficiais confirmam a tendência de retração. A produção francesa de leite de vaca caiu cerca de 1% em junho de 2026, na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo o relatório de conjuntura do setor leiteiro bovino publicado em agosto pela FranceAgriMer, órgão público francês responsável pelo acompanhamento dos mercados agrícolas e de produtos do mar.
"A onda de calor que atingiu o país nesse período causou estresse térmico nos animais, provocando uma redução no rendimento leiteiro", explica o documento.
Sob temperaturas elevadas, as vacas precisam gastar mais energia para regular a temperatura corporal e aumentar a ingestão de água, em detrimento da energia disponível para a produção de leite. Um animal pode consumir até 150 litros de água por dia, dependendo das condições ambientais e de sua produção. O estresse térmico, portanto, compromete o desempenho do rebanho e pode agravar as perdas em um setor que já enfrenta dificuldades com a escassez de forragem.
RFI e AFP