Onda de calor leva França a flexibilizar regras do champanhe e ameaça qualidade dos queijos

A onda de calor que atingiu a França neste ano deve afetar a produção de produtos emblemáticos do país, como o champanhe. Uma decisão inédita flexibiliza as regras de produção do famoso vinho espumante francês. Além dos vinhos, outro setor afetado pelas temperaturas extremas é o dos laticínios. Produtores de leite temem uma queda na qualidade de seus produtos.

28 out 2026 - 14h17
Resumo
O calor extremo e a seca na França forçaram medidas inéditas na agroindústria. O governo autorizou, em caráter excepcional, que o champanhe da safra de 2026 ultrapasse o limite de 13% de teor alcoólico devido à alta concentração de açúcar nas uvas, colhidas precocemente. Paralelamente, o clima afetou o setor leiteiro: a falta de pastagens e o estresse térmico do gado reduziram a produção de leite e ameaçam a qualidade de queijos tradicionais, exigindo a revisão de regras de denominação de origem.

As autoridades francesas anunciaram nesta quarta-feira (28) que o champanhe elaborado a partir das uvas colhidas neste verão poderá, excepcionalmente, ultrapassar o limite regulamentar de 13% de teor alcoólico volumétrico total.

"Os vinhos elaborados em 2027, resultantes de um corte (mistura) de vinhos da safra de 2026 — não enriquecidos — com vinhos de safras anteriores — enriquecidos — poderão exceder, após a tomada de espuma, o limite máximo de 13% de teor alcoólico volumétrico total", especifica a portaria publicada no Journal officiel, o Diário Oficial francês.

Publicidade

O teor alcoólico do champanhe varia conforme o produtor e o rótulo, mas geralmente fica entre 12% e 12,5%. Para efeito de comparação, as cervejas comuns costumam apresentar entre 4% e 6% de álcool, enquanto muitos vinhos tranquilos (que não passam por uma segunda fermentação para adquirir efervescência) têm graduação alcoólica entre 12% e 15%.

A medida foi adotada "em caráter excepcional, em virtude das condições climáticas do verão de 2026, marcadas por ondas de calor e uma seca excepcional, que resultaram em teores alcoólicos volumétricos potenciais particularmente elevados na safra de 2026", afirma o texto.

Derrogação temporária

No início de setembro, o Comité Champagne, entidade que representa os produtores da bebida, obteve junto ao Instituto Nacional de Origem e Qualidade (INAO) uma derrogação temporária das normas de produção, uma medida sem precedentes no setor.

A autorização permitirá que os viticultores cujas uvas colhidas neste ano, que apresentam elevado potencial alcoólico, elaborem vinhos que, após os processos de vinificação e de tomada de espuma (segunda fermentação, responsável pela formação das bolhas no champanhe), poderão ultrapassar o limite habitual de 13%.

Publicidade

A flexibilização também se aplica aos cortes com vinhos de safras anteriores que tenham passado por eventual chaptalização, técnica que consiste na adição de açúcar ao mosto para aumentar o teor alcoólico potencial do vinho após a fermentação.

A medida, porém, deverá beneficiar apenas "alguns viticultores", estimou no início de setembro Maxime Toubart, presidente do Sindicato Geral dos Viticultores e copresidente do Comité Champagne.

A colheita de 2026 foi a mais precoce já registrada na região de Champagne. Os primeiros cortes de uvas começaram em 6 de agosto, e a vindima se generalizou em 17 de agosto, duas semanas antes do início da safra de 2025, que já havia sido considerada precoce, segundo o comitê.

O ciclo excepcional, marcado por geadas precoces, seguidas de ondas de calor e seca, pode se tornar cada vez mais frequente, à medida que as mudanças climáticas obrigam os viticultores a adaptar suas práticas e a antecipar as operações no vinhedo, ressaltou a entidade.

Publicidade
Imagem de ilustração. Colheitas de uva na França são realizadas cada vez mais cedo devido ao calor.
Imagem de ilustração. Colheitas de uva na França são realizadas cada vez mais cedo devido ao calor.
Foto: RFI

Seca ameaça a qualidade dos queijos

Outro setor afetado pelas condições climáticas extremas do último verão no hemisfério norte é o de laticínios. Produtores ouvidos pelo canal France 3 relatam quedas de 10% a 15% na produção de leite em algumas propriedades, acompanhadas de uma deterioração da qualidade, com consequências diretas para a renda dos pecuaristas.

A retração já era esperada diante da redução na disponibilidade de alimentos para o gado. A produção de forragem, utilizada para alimentar os animais, registra perdas estimadas em 30% em volume. Por enquanto, os criadores que utilizam silagem, técnica de conservação de plantas forrageiras para alimentação animal, recorrem aos estoques do ano passado, cuja qualidade permanece satisfatória.

A compra de suplementos alimentares, no entanto, representa um desafio que vai além do custo: a disponibilidade desses insumos também preocupa, diante do risco de escassez.

A seca comprometeu tanto as pastagens quanto as colheitas destinadas à alimentação dos rebanhos. Em 20 de agosto de 2026, o déficit de crescimento das pastagens atingia 36% em nível nacional. Diante da falta de alimento fresco, criadores franceses tiveram de começar a consumir seus estoques de forragem e silagem reservados para o inverno já em meados de julho, quase três meses antes do habitual.

Publicidade
Produtor refresca vacas com mangueira no auge de onda de calor, em Saint-Philbert-de-Bouaine, na França, em julho de 2026.
Foto: RFI

Produção sensível 

A produção leiteira é particularmente sensível à qualidade da alimentação. Uma silagem de valor nutricional inferior pode comprometer o rendimento das vacas e alterar a composição do leite em menos de um mês, com possíveis repercussões nas características dos queijos produzidos a partir dessa matéria-prima.

O impacto também alcança os queijos beneficiados pela certificação de Denominação de Origem Protegida (DOP). Produtores de especialidades como Roquefort, Rocamadour, Reblochon, Saint-Nectaire e Comté precisaram revisar temporariamente seus cadernos de especificações para se adaptar à escassez, ou mesmo à ausência, de pastagens locais.

Os dados oficiais confirmam a tendência de retração. A produção francesa de leite de vaca caiu cerca de 1% em junho de 2026, na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo o relatório de conjuntura do setor leiteiro bovino publicado em agosto pela FranceAgriMer, órgão público francês responsável pelo acompanhamento dos mercados agrícolas e de produtos do mar.

"A onda de calor que atingiu o país nesse período causou estresse térmico nos animais, provocando uma redução no rendimento leiteiro", explica o documento.

Publicidade

Sob temperaturas elevadas, as vacas precisam gastar mais energia para regular a temperatura corporal e aumentar a ingestão de água, em detrimento da energia disponível para a produção de leite. Um animal pode consumir até 150 litros de água por dia, dependendo das condições ambientais e de sua produção. O estresse térmico, portanto, compromete o desempenho do rebanho e pode agravar as perdas em um setor que já enfrenta dificuldades com a escassez de forragem.

RFI e AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações