Inspirada na estratégia digital do "Exército do Lula", criada por André Janones no Brasil, a esquerda francesa adotou táticas de mobilização via WhatsApp e Telegram em apoio ao partido A França Insubmissa. A prática, também replicada na Argentina, visa coordenar militantes e impulsionar conteúdos online. Apesar da adesão internacional, especialistas alertam que a eficácia da ferramenta depende de constante renovação e de sua devida adaptação às realidades políticas locais.
Luiza Ramos, da RFI em Paris
Após especulações de que o então primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez estaria interessado na estratégia brasileira, surgiu na França um agrupamento digital popular não oficial chamado Les Soldats Insoumis ("Soldados Insubmissos", em português), em referência ao partido de esquerda A França Insubmissa (LFI). O grupo se inspira explicitamente no "Exército do Lula", idealizado pelo deputado federal André Janones durante a campanha do segundo turno das eleições brasileiras.
Somente no WhatsApp, o grupo francês reunia mais de 15 mil membros nesta terça-feira (27). A iniciativa também está presente no Telegram e nas redes sociais. As mensagens seguem um modelo semelhante ao criado por Janones, com pedidos para impulsionar hashtags, compartilhar conteúdos e convidar novos participantes.
A repercussão da estratégia levou o LFI a criar um grupo oficial para a campanha do candidato à Presidência francesa Jean-Luc Mélenchon. No grupo, intitulado L'équipe de Mélenchon, o deputado Antoine Leaument convoca apoiadores do político em um vídeo no qual menciona a experiência brasileira. "Nós vimos bem o que aconteceu no Brasil e não se preocupem, vamos aplicar um método que funcione", afirma.
A prefeita-adjunta de Saint-Denis, Silvia Capanema, integrante do partido LFI e professora da Universidade Sorbonne Paris Nord, conversou com a RFI sobre o surgimento de grupos inspirados no "Exército do Lula".
"Tem algumas iniciativas circulando na França inspiradas diretamente pela experiência brasileira. Elas têm adeptos principalmente entre brasileiros que vivem aqui e começam a despertar interesse também em alguns meios locais. Mas ainda é muito cedo. Acho que o mundo inteiro está olhando para o que aconteceu no Brasil, para a experiência do 'Exército do Lula' e para a mobilização das ruas. Só que não dá para copiar esse modelo e aplicá-lo da mesma forma na França, porque as necessidades são diferentes", explica.
Segundo ela, os desafios políticos dos dois países não são os mesmos. "No Brasil, por exemplo, a esquerda tinha uma dificuldade muito grande nas redes sociais. Aqui não é o caso. As esquerdas têm muita presença nas redes sociais; é nos meios tradicionais que a questão é mais complicada", detalha.
Estratégias devem ser renovadas
A historiadora também avalia que as estratégias digitais precisam ser constantemente renovadas. "O próprio método do Janones foi muito útil e muito bom, mas temos que considerar que a rapidez do mundo digital é tão grande que, em pouco tempo, já vai estar defasado. Pois agora todo o mundo já tem essas armas", analisa.
Para Silvia Capanema, o caso brasileiro é uma fonte de inspiração, mas não pode ser reproduzido mecanicamente, sobretudo no contexto da campanha presidencial de 2027.
A metodologia de mobilização e influência digital desenvolvida pelo parlamentar mineiro parece ganhar adeptos também em países vizinhos. Na Argentina, por exemplo, uma conta no Instagram denominada "Exército do Peronismo", ligada a apoiadores do kirchnerismo, também surgiu fazendo referência à mobilização criada em torno de Lula. O canal de WhatsApp divulgado na página já conta com mais de 32 mil apoiadores nesta terça-feira.