Justiça da França mantém sob custódia policial suspeito de ataque racista que matou um homem

Kévin T., suspeito dos atentados racistas em Trappes e La Verrière, que mataram uma pessoa e feriram outras cinco, continuará sob custódia policial, apesar de seu quadro psiquiátrico, anunciou nesta segunda-feira (26) o procurador da Procuradoria Nacional Antiterrorista da França (Pnat), Olivier Christen.

26 out 2026 - 16h07
Resumo
A Justiça francesa retomou a custódia de Kévin T., de 39 anos, após avaliação psiquiátrica descartar internação compulsória. Ele é acusado de matar a tiros um homem negro e ferir outras cinco pessoas na região de Paris, mirando vítimas de origem africana e magrebina. Embora negue motivação racista, o suspeito, que trata esquizofrenia e usou drogas antes da ação, radicalizou-se na extrema-direita ao longo dos anos. O Parlamento francês realizará um minuto de silêncio em homenagem às vítimas.

A custódia policial do suposto autor dos atentados cometidos na sexta-feira (23) em Yvelines, na região parisiense, foi retomada na segunda-feira, "às 14h46", após ter sido interrompida no dia anterior devido ao seu quadro psiquiátrico, informou o procurador durante uma coletiva de imprensa.

Un attentat terroriste et raciste à eu lieu dans les Yvelines le vendredi 23 octobre 2026.
Un attentat terroriste et raciste à eu lieu dans les Yvelines le vendredi 23 octobre 2026.
Foto: AFP - DIMITAR DILKOFF / RFI

"Um psiquiatra (...) realizou (na segunda-feira) um novo exame do indivíduo", que "não apresentava sintomas de descompensação aguda, nem sinais diretos ou indiretos de atividade alucinatória ou delirante", nem "sinais clínicos de uma patologia mental grave e descompensada que justificasse uma internação compulsória", explicou o magistrado, acrescentando que a custódia policial poderá se estender até quinta-feira, "às 00h36".

Publicidade

Christen também afirmou que "nenhum panfleto de partido político foi encontrado" no veículo do suspeito, que "nega a natureza racista de seus crimes".

Na manhã de sexta-feira, Kévin T., de 39 anos, matou a tiros um homem negro de 26 anos, Pengo Bossio Wangi, e feriu outras cinco pessoas nas localidades de Trappes e La Verrière, cerca de 35 quilômetros a sudoeste de Paris, antes de ser preso em Coignières, a sete quilômetros do local dos ataques.

Os atentados ocorreram em um perímetro de cerca de vinte quilômetros nos subúrbios de Paris, região onde o suspeito passou praticamente toda a vida.

Segundo uma fonte policial, pelo menos quatro das pessoas atingidas têm nomes de sonoridade africana ou magrebina. Entre os feridos está uma criança de 12 anos que, segundo o secretário de Segurança Pública de La Verrière, Nicolas Dainville, "está fora de perigo".

Publicidade

Doença mental e perfil racista

Operário do setor automotivo e em tratamento para esquizofrenia, Kévin T. conviveu com pessoas ligadas à esquerda antes de se isolar socialmente e aderir a ideias de extrema direita.

Ele viveu em uma residência estudantil e conviveu com pessoas de inclinação à esquerda, incluindo militantes com quem cultivava uma horta, informou à AFP uma fonte próxima ao caso. Entre essas pessoas havia "indivíduos árabes e negros, o que não deixa de ser uma contradição e tanto", observa a fonte, já que ele é suspeito de ter visado exclusivamente pessoas negras ou de origem magrebina.

O pequeno círculo militante do qual fazia parte acabou por "envolvê-lo" em ações pró-Palestina.

A Associação França-Palestina Solidariedade (AFPS) confirmou a autenticidade de uma fotografia que circula desde o fim de semana, na qual um homem identificado como Kévin T. aparece posando ao lado de militantes da organização. O suspeito participou de um evento público em 2018, mas não era membro nem doador da associação.

Ativista associativo e figura política local ligada ao ambientalismo, Olivier Pareja lembra-se de tê-lo "encontrado algumas vezes", especialmente na associação Résistance à l'Agression Publicitaire (Resistência à Agressão Publicitária), mas acredita que ele participava, acima de tudo, "para conhecer pessoas". Isso, esclareceu à AFP, ocorreu antes de Kévin se tornar "alguém com quem não se pode conviver, por causa de suas ideias de extrema direita, racistas, etc.".

Publicidade

"Ele teria mudado de rumo há cerca de dez anos (...). No fim da década de 2010, começou a fazer declarações explícita e violentamente racistas, culpando árabes e negros por tudo", detalha a fonte próxima ao caso.

Segundo a mesma fonte, ele "foi se radicalizando aos poucos, tornando-se uma espécie de 'ovelha negra' do grupo por causa de suas posições racistas; além disso, afirmou claramente sua intenção de votar em Marine Le Pen em 2022". Apesar dos esforços, eles "nunca conseguiram convencê-lo a voltar atrás", acrescenta a fonte.

Ele era, "aparentemente, um grande consumidor de canais de notícias 24 horas e de teorias racistas clássicas", afirma outra fonte.

Um exemplar do livro de Adolf Hitler, Mein Kampf, foi encontrado em sua residência, assim como uma Bíblia e um Alcorão.

Fora do radar da polícia

Kévin T. era solteiro, vivia sozinho e era pouco conhecido pelos vizinhos. Sua ficha criminal registra quatro condenações anteriores, segundo o Pnat. Ele também era conhecido da polícia por uso de drogas. Exames de sangue revelaram a presença de maconha e cocaína no momento do ataque.

Publicidade

Por outro lado, ele não era conhecido pelos serviços de inteligência, ressaltou nesta segunda-feira o ministro do Interior, Laurent Nuñez. Ele mencionou o caso de perfis "isolados, alimentados por uma ideologia racista, que de repente passam à ação", situações que, segundo o ministro, são "mais difíceis de detectar".

Nuñez acrescentou que o perfil psiquiátrico do suspeito "não altera em nada" a motivação "racista" do ataque. Kévin T. "era movido pelo ódio, pelo racismo, e matou por causa disso", afirmou.

Homenagens às vítimas

A Assembleia Nacional e o Senado da França farão, nesta semana, um minuto de silêncio em homenagem às vítimas do ataque.

A presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, proporá na terça-feira um minuto de silêncio na abertura da sessão de perguntas ao governo, às 15h.

O presidente do Senado, Gérard Larcher, decidiu que uma "homenagem solene às vítimas do atentado" será realizada na quarta-feira. O anúncio foi feito pelo vice-presidente do Senado, Jean-Claude Tissot, que presidia a sessão plenária na segunda-feira.

Publicidade

A homenagem será "seguida por um minuto de silêncio", detalhou.

RFI e AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se