Líderes da esquerda francesa alertaram no jornal Le Monde sobre o risco de uma vitória de Flávio Bolsonaro contra Lula na eleição presidencial do Brasil. Segundo os signatários, um triunfo bolsonarista pode fortalecer a extrema direita global, normalizar discursos radicais e impulsionar a candidatura de Marine Le Pen na França em 2027. O grupo também manifesta preocupação com os impactos ambientais na Amazônia, o alinhamento com Donald Trump e a estabilidade das instituições democráticas brasileiras.
"Cada vitória da extrema direita no exterior torna mais aceitável essa possibilidade em nosso país", afirmam os signatários, entre eles Jean-Luc Mélenchon, fundador da França Insubmissa, Marine Tondelier, dirigente dos Ecologistas, e Fabien Roussel, do Partido Comunista Francês.
O alerta ocorre três dias antes do segundo turno brasileiro, marcado para domingo (25), entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para os dirigentes franceses, o resultado da eleição brasileira pode repercutir no debate político europeu e fortalecer movimentos que compartilham pautas nacionalistas, conservadoras e de confronto com instituições democráticas.
A preocupação tem endereço eleitoral definido. Em 2027, a França escolherá um novo presidente, em uma disputa na qual o Reunião Nacional, partido de extrema direita liderado por Marine Le Pen, pretende ampliar sua influência e conquistar o poder.
A tribuna apresenta a eleição brasileira como parte de uma disputa política internacional. A ideia central é que vitórias eleitorais da direita radical em diferentes países podem ajudar a tornar suas propostas mais aceitáveis em outras sociedades, reduzindo a percepção de que representam uma ruptura com os padrões democráticos.
A comparação, entretanto, expressa a avaliação política dos signatários e não um consenso da sociedade francesa. Os sistemas políticos e as trajetórias eleitorais dos dois países têm diferenças importantes.
O Brasil no centro da disputa
O peso brasileiro ajuda a explicar a atenção dedicada à eleição. Maior economia da América Latina, o país tem influência sobre as relações diplomáticas regionais, as negociações climáticas e o equilíbrio político do continente.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia alterar a orientação internacional de Brasília e aproximar o governo brasileiro dos Estados Unidos de Donald Trump. Essa perspectiva preocupa setores da esquerda europeia, que veem a cooperação internacional como parte da resistência ao avanço da direita radical.
A disputa também envolve o futuro das políticas ambientais brasileiras. A Amazônia ocupa posição central nas negociações climáticas, e mudanças na legislação ambiental, na demarcação de terras indígenas ou na exploração de recursos naturais teriam consequências que não se limitariam ao território brasileiro.
A preocupação se estende às instituições democráticas. Depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, o futuro do sistema de freios e contrapesos permanece no centro do debate político brasileiro.
Os temores expressos pelos dirigentes franceses são projeções sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro, e não medidas já adotadas. Sua concretização dependeria, entre outros fatores, da composição do Congresso e dos limites constitucionais.
O precedente brasileiro
A experiência do governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, tornou-se uma referência recorrente nos debates europeus sobre a extrema direita. A contestação das instituições, os conflitos com o Judiciário e os ataques ao sistema eleitoral brasileiro são acompanhados por partidos e analistas que procuram entender como movimentos radicais se comportam depois de chegar ao poder.
O caso brasileiro também é relevante porque mostra que a derrota de um líder não implica necessariamente o desaparecimento de seu movimento. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência com o apoio político do pai e de uma direita que continua influente no Congresso e na sociedade.
A eleição francesa de 2027 dá uma dimensão adicional à preocupação dos signatários. Para eles, uma vitória bolsonarista poderia ser apresentada pelos movimentos de direita radical europeus como prova de que projetos semelhantes continuam eleitoralmente viáveis.
Isso não significa que o resultado brasileiro determine o voto dos franceses. A relação apontada pelos dirigentes é política e simbólica: uma vitória internacional pode servir de referência, fortalecer alianças e ampliar o espaço de ideias que antes encontravam maior resistência.
O editorial assinado pelas lideranças francesas também tem um objetivo explícito de campanha. Ao defenderem Lula, seus autores não se limitam a analisar as possíveis consequências internacionais do pleito; procuram influenciar o debate sobre o futuro político brasileiro.
A questão que colocam interessa também à França: até que ponto as vitórias eleitorais da extrema direita em um país ajudam a abrir caminho para movimentos semelhantes em outros, mesmo a 10 mil quilômetros de distância?