Após intensa mobilização estudantil, o governo francês prometeu reformar a criticada plataforma de acesso ao ensino superior Parcoursup entre 2027 e 2028, além de anunciar um plano de € 5 bilhões para a renovação escolar, criação de 15 mil vagas e contratação de docentes. Apesar de considerarem as medidas um avanço, os estudantes afirmam que as concessões são insuficientes para suprir as carências financeiras e de transparência, mantendo o calendário de greves e manifestações pelo país.
Os estudantes consideraram os anúncios um primeiro avanço, mas avisaram que a mobilização continuará. "Podemos ver o copo meio cheio ou meio vazio. Nem tudo foi atendido e iremos até o fim", afirmou Louis Letoublon, vice-presidente da organização Les Lycéens (Os estudantes do ensino médio). Ele convocou os estudantes para as manifestações previstas para 31 de outubro e 5 de novembro.
A primeira data será marcada por uma nova mobilização dos chamados "coletes marelos". Para 5 de novembro, os sindicatos convocaram uma jornada nacional de greves e manifestações nos setores público e privado.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, admitiu que o dia 31 de outubro poderá ser marcado por uma forte mobilização. "Pode ser um dia complicado, de grande mobilização", afirmou à BFMTV. O presidente Emmanuel Macron classificou o próximo sábado como um "dia de risco".
O que é o Parcoursup
Criado em 2018, o Parcoursup é a plataforma nacional pela qual os estudantes franceses se candidatam a cursos de ensino superior. Em vez de fazer inscrições separadamente em cada instituição, o estudante reúne suas opções na plataforma, que encaminha as candidaturas às universidades, institutos e demais estabelecimentos.
As instituições analisam os pedidos segundo seus próprios critérios e fazem propostas de admissão aos candidatos.
É justamente essa etapa que está no centro das críticas. Os estudantes questionam a falta de transparência sobre os critérios utilizados pelas instituições e sobre os algoritmos que participam do processo de seleção. Para muitos, o Parcoursup se tornou o símbolo das dificuldades encontradas pelos jovens para conseguir uma vaga no ensino superior.
A plataforma também é acusada de contribuir para um processo considerado excessivamente seletivo e pouco transparente. As universidades, por outro lado, argumentam que o problema não está simplesmente no Parcoursup, mas na falta de vagas e de recursos em determinadas áreas.
Reforma em duas etapas
O governo não pretende simplesmente abolir o Parcoursup. A proposta anunciada prevê uma reforma em duas etapas, para as sessões de admissão de 2027 e 2028.
Para 2027, a intenção é tornar mais claros os mecanismos e algoritmos utilizados localmente pelas instituições. Depois, está prevista uma reforma mais profunda para 2028, que deverá exigir uma mudança na legislação.
"Sobre o Parcoursup, ficamos satisfeitos. É um primeiro avanço. "Agora, há necessidade de, mais adiante, reformar mais profundamente a plataforma depois da sessão de 2027 e da sessão de 2028", afirmou Nathanaël Combary, presidente do conselho de administração da organização Renouveau lycéen (Renovação do ensino médio).
O tema será levado à Assembleia Nacional na quarta-feira, às 17h. O governo solicitou um debate sem votação sobre o futuro do sistema de orientação e distribuição de vagas no ensino superior. A discussão será realizada com base no artigo 50-1 da Constituição francesa, que permite ao Executivo apresentar sua política ao Parlamento e ouvir as propostas dos diferentes grupos políticos, sem que o governo fique obrigado a seguir o resultado do debate.
O deputado Manuel Bompard, coordenador do partido de esquerda radical A França Insubmissa, defende que a discussão seja seguida de uma votação. Caso contrário, afirmou, ela corre o risco de ser apenas mais um exercício de "enfumage" — expressão francesa usada para descrever uma tentativa de criar a impressão de que algo está sendo feito sem produzir uma decisão concreta.
€ 5 bilhões para renovar escolas e universidades
Além da reforma do Parcoursup, os representantes dos estudantes afirmam ter obtido a promessa de um plano de € 5 bilhões para a renovação de escolas e universidades.
Do total, € 1 bilhão será destinado às universidades e € 4 bilhões aos colégios e liceus, por meio de empréstimos do Estado às regiões.
O governo também se comprometeu a cancelar cortes de postos de trabalho que estavam previstos e a criar 500 postos adicionais para o início do novo ano letivo.
Outra medida anunciada é limitar a 28 o número de alunos por turma do segundo ano do ensino médio até o início do ano letivo de 2028.
No ensino superior, o governo prometeu ainda 15 mil vagas adicionais: 10 mil em cursos de BTS, uma formação profissionalizante de nível superior; 4 mil em IUT, institutos universitários de tecnologia; e mil em cursos da área de saúde, segundo os sindicatos estudantis.
O ministro francês da Educação, Édouard Geffray, já havia anunciado a mobilização de 3 mil professores substitutos desde o início dos protestos.
Mobilização continua
As medidas, porém, não foram suficientes para encerrar os protestos.
A Union étudiante, a Fage, a Unef e a Union syndicale lycéenne reivindicam dez medidas principais, avaliadas em € 10 bilhões. Entre elas estão o fim da seleção nas universidades, a criação de 250 mil vagas no ensino superior e uma reforma das bolsas estudantis.
O governo enfrenta, ao mesmo tempo, uma margem de manobra financeira limitada. O projeto de orçamento para 2027 está sendo discutido em um contexto de forte restrição fiscal, com a dívida pública francesa equivalente a 119% do PIB. Algumas das medidas anunciadas poderão ser incorporadas ao projeto de orçamento por meio de emendas durante sua tramitação no Parlamento.
Universidades são contra o fim do Parcoursup
A ideia de simplesmente acabar com o Parcoursup também encontra resistência entre os dirigentes universitários.
A France Universités, que reúne 117 instituições e 70 presidentes de universidades, alertou na sexta-feira que a supressão da plataforma provocaria uma "catástrofe a curto prazo".
Para as universidades, o Parcoursup não é responsável pela falta de vagas em determinadas áreas, como os cursos de saúde. O problema, segundo elas, está principalmente na redução dos recursos destinados ao ensino superior, que aumentou a pressão sobre o sistema de admissão.
A entidade pede, portanto, que não se confunda a ferramenta com a política de redução de recursos que, segundo as universidades, criou fortes tensões para o ingresso no ensino superior.
O debate revela o impasse no centro da crise: os estudantes veem o Parcoursup como símbolo de um sistema de acesso considerado pouco transparente e seletivo. As universidades, por sua vez, afirmam que mudar ou eliminar a plataforma não resolverá a falta de vagas e de recursos.
com agências