Mobilização estudantil: governo francês promete reformar sistema de acesso ao ensino superior

Após mais de um mês de mobilização de estudantes, o governo francês anunciou nesta segunda-feira (26) uma série de medidas para tentar conter a crise que se espalhou por escolas de ensino médio e universidades. Em reunião em Matignon, sede do governo, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu recebeu representantes de organizações estudantis e prometeu, entre outras medidas, reformar o Parcoursup, o sistema de acesso à universidade, criar 15 mil vagas no ensino superior e investir € 5 bilhões na renovação de escolas e universidades.

26 out 2026 - 16h37
Resumo
Após intensa mobilização estudantil, o governo francês prometeu reformar a criticada plataforma de acesso ao ensino superior Parcoursup entre 2027 e 2028, além de anunciar um plano de € 5 bilhões para a renovação escolar, criação de 15 mil vagas e contratação de docentes. Apesar de considerarem as medidas um avanço, os estudantes afirmam que as concessões são insuficientes para suprir as carências financeiras e de transparência, mantendo o calendário de greves e manifestações pelo país.

Os estudantes consideraram os anúncios um primeiro avanço, mas avisaram que a mobilização continuará. "Podemos ver o copo meio cheio ou meio vazio. Nem tudo foi atendido e iremos até o fim", afirmou Louis Letoublon, vice-presidente da organização Les Lycéens (Os estudantes do ensino médio). Ele convocou os estudantes para as manifestações previstas para 31 de outubro e 5 de novembro.

Um manifestante segura uma bandeira francesa durante uma manifestação autorizada, organizada por sindicatos em Paris, como parte dos protestos nacionais convocados pelo movimento dos "coletes amarelos", com a participação de estudantes do ensino médio e universitários franceses, contra o custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis, na França, em 24 de outubro de 2026.
Um manifestante segura uma bandeira francesa durante uma manifestação autorizada, organizada por sindicatos em Paris, como parte dos protestos nacionais convocados pelo movimento dos "coletes amarelos", com a participação de estudantes do ensino médio e universitários franceses, contra o custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis, na França, em 24 de outubro de 2026.
Foto: © Abdul Saboor / Reuters / RFI

A primeira data será marcada por uma nova mobilização dos chamados "coletes marelos". Para 5 de novembro, os sindicatos convocaram uma jornada nacional de greves e manifestações nos setores público e privado.

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O ministro do Interior, Laurent Nuñez, admitiu que o dia 31 de outubro poderá ser marcado por uma forte mobilização. "Pode ser um dia complicado, de grande mobilização", afirmou à BFMTV. O presidente Emmanuel Macron classificou o próximo sábado como um "dia de risco".

O que é o Parcoursup

Criado em 2018, o Parcoursup é a plataforma nacional pela qual os estudantes franceses se candidatam a cursos de ensino superior. Em vez de fazer inscrições separadamente em cada instituição, o estudante reúne suas opções na plataforma, que encaminha as candidaturas às universidades, institutos e demais estabelecimentos.

As instituições analisam os pedidos segundo seus próprios critérios e fazem propostas de admissão aos candidatos.

É justamente essa etapa que está no centro das críticas. Os estudantes questionam a falta de transparência sobre os critérios utilizados pelas instituições e sobre os algoritmos que participam do processo de seleção. Para muitos, o Parcoursup se tornou o símbolo das dificuldades encontradas pelos jovens para conseguir uma vaga no ensino superior.

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A plataforma também é acusada de contribuir para um processo considerado excessivamente seletivo e pouco transparente. As universidades, por outro lado, argumentam que o problema não está simplesmente no Parcoursup, mas na falta de vagas e de recursos em determinadas áreas.

Reforma em duas etapas

O governo não pretende simplesmente abolir o Parcoursup. A proposta anunciada prevê uma reforma em duas etapas, para as sessões de admissão de 2027 e 2028.

Para 2027, a intenção é tornar mais claros os mecanismos e algoritmos utilizados localmente pelas instituições. Depois, está prevista uma reforma mais profunda para 2028, que deverá exigir uma mudança na legislação.

"Sobre o Parcoursup, ficamos satisfeitos. É um primeiro avanço. "Agora, há necessidade de, mais adiante, reformar mais profundamente a plataforma depois da sessão de 2027 e da sessão de 2028", afirmou Nathanaël Combary, presidente do conselho de administração da organização Renouveau lycéen (Renovação do ensino médio).

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O tema será levado à Assembleia Nacional na quarta-feira, às 17h. O governo solicitou um debate sem votação sobre o futuro do sistema de orientação e distribuição de vagas no ensino superior. A discussão será realizada com base no artigo 50-1 da Constituição francesa, que permite ao Executivo apresentar sua política ao Parlamento e ouvir as propostas dos diferentes grupos políticos, sem que o governo fique obrigado a seguir o resultado do debate.

O deputado Manuel Bompard, coordenador do partido de esquerda radical A França Insubmissa, defende que a discussão seja seguida de uma votação. Caso contrário, afirmou, ela corre o risco de ser apenas mais um exercício de "enfumage" — expressão francesa usada para descrever uma tentativa de criar a impressão de que algo está sendo feito sem produzir uma decisão concreta.

€ 5 bilhões para renovar escolas e universidades

Além da reforma do Parcoursup, os representantes dos estudantes afirmam ter obtido a promessa de um plano de € 5 bilhões para a renovação de escolas e universidades.

Do total, € 1 bilhão será destinado às universidades e € 4 bilhões aos colégios e liceus, por meio de empréstimos do Estado às regiões.

O governo também se comprometeu a cancelar cortes de postos de trabalho que estavam previstos e a criar 500 postos adicionais para o início do novo ano letivo.

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Outra medida anunciada é limitar a 28 o número de alunos por turma do segundo ano do ensino médio até o início do ano letivo de 2028.

No ensino superior, o governo prometeu ainda 15 mil vagas adicionais: 10 mil em cursos de BTS, uma formação profissionalizante de nível superior; 4 mil em IUT, institutos universitários de tecnologia; e mil em cursos da área de saúde, segundo os sindicatos estudantis.

O ministro francês da Educação, Édouard Geffray, já havia anunciado a mobilização de 3 mil professores substitutos desde o início dos protestos.

Mobilização continua

As medidas, porém, não foram suficientes para encerrar os protestos.

A Union étudiante, a Fage, a Unef e a Union syndicale lycéenne reivindicam dez medidas principais, avaliadas em € 10 bilhões. Entre elas estão o fim da seleção nas universidades, a criação de 250 mil vagas no ensino superior e uma reforma das bolsas estudantis.

O governo enfrenta, ao mesmo tempo, uma margem de manobra financeira limitada. O projeto de orçamento para 2027 está sendo discutido em um contexto de forte restrição fiscal, com a dívida pública francesa equivalente a 119% do PIB. Algumas das medidas anunciadas poderão ser incorporadas ao projeto de orçamento por meio de emendas durante sua tramitação no Parlamento.

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Universidades são contra o fim do Parcoursup

A ideia de simplesmente acabar com o Parcoursup também encontra resistência entre os dirigentes universitários.

A France Universités, que reúne 117 instituições e 70 presidentes de universidades, alertou na sexta-feira que a supressão da plataforma provocaria uma "catástrofe a curto prazo".

Para as universidades, o Parcoursup não é responsável pela falta de vagas em determinadas áreas, como os cursos de saúde. O problema, segundo elas, está principalmente na redução dos recursos destinados ao ensino superior, que aumentou a pressão sobre o sistema de admissão.

A entidade pede, portanto, que não se confunda a ferramenta com a política de redução de recursos que, segundo as universidades, criou fortes tensões para o ingresso no ensino superior.

O debate revela o impasse no centro da crise: os estudantes veem o Parcoursup como símbolo de um sistema de acesso considerado pouco transparente e seletivo. As universidades, por sua vez, afirmam que mudar ou eliminar a plataforma não resolverá a falta de vagas e de recursos.

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com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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