Uma petição no Parlamento francês superou 500 mil assinaturas pedindo a cassação da concessão do canal de notícias CNews, controlado pelo bilionário Vincent Bolloré. Acusada pela esquerda de propagar racismo e pautas de extrema direita, a emissora nega as queixas, vistas como políticas. O caso será analisado por uma comissão e pode ir a plenário, acirrando o debate sobre os limites da liberdade de imprensa e o combate ao discurso de ódio na França.
O abaixo-assinado, publicado em junho no portal oficial do Parlamento francês, solicita a retirada da licença de transmissão da CNews na TV aberta francesa e sua exclusão do audiovisual francês.
Pelas regras da Assembleia Nacional, petições que ultrapassam 500 mil assinaturas podem ser examinadas pelos deputados e, eventualmente, discutidas em plenário. Antes disso, porém, o texto precisa passar pela análise de uma comissão parlamentar, que decidirá se arquiva ou não a iniciativa.
O presidente da Comissão de Assuntos Culturais e Educação da Assembleia, Alexandre Portier, convocou para esta terça-feira (3) uma reunião para discutir os próximos passos do processo. A realização de um debate parlamentar, entretanto, está longe de ser automática. Em ocasiões anteriores, petições que ultrapassaram o mesmo limite acabaram sendo arquivadas pelos deputados.
Canal no centro da polarização francesa
A petição define a CNews como uma "máquina de propaganda" e acusa a emissora de contribuir para a disseminação de discursos de extrema direita. Os autores do texto citam sanções aplicadas pela autoridade reguladora francesa e diversas polêmicas envolvendo comentaristas do canal, que pertence ao grupo controlado pelo bilionário Vincent Bolloré.
A mobilização ganhou força após o atentado racista cometido em 23 de outubro nas cidades de Trappes, nos arredores de Paris.
Lideranças da esquerda francesa, entre elas o prefeito de Trappes, Ali Rabeh, acusaram determinados veículos de comunicação, especialmente o CNews, de alimentar um clima de hostilidade contra imigrantes e franceses de origem estrangeira.
A emissora reagiu e afirmou à AFP que não comentaria "essa petição política".
O papel de Vincent Bolloré
O debate em torno da emissora está diretamente ligado à figura de Vincent Bolloré, um dos empresários mais influentes da mídia francesa. Ao longo das últimas duas décadas, o bilionário construiu um império que inclui canais de televisão, emissoras de rádio, jornais, editoras e grupos de entretenimento.
A CNews, controlada pelo grupo Vivendi, é frequentemente comparada à Fox News dos Estados Unidos por seu espaço dedicado a comentaristas de direita e extrema direita e pelo forte tom opinativo de parte de sua programação.
Críticos acusam os veículos ligados a Bolloré de concentrar a cobertura em temas como imigração, insegurança e identidade nacional, contribuindo para ampliar a visibilidade de pautas tradicionalmente associadas à extrema direita francesa. O empresário rejeita essas críticas e afirma que seus veículos apenas abordam assuntos ignorados por outros meios de comunicação e respondem à demanda do público.
Nos últimos anos, a influência crescente de Bolloré tornou-se tema recorrente do debate político francês. Parlamentares de esquerda, sindicatos de jornalistas e associações de defesa da liberdade de imprensa manifestam preocupação com a concentração da propriedade dos meios de comunicação e com uma possível orientação ideológica comum nos veículos sob seu controle.
Entre os episódios frequentemente citados pelos críticos da emissora está a contratação, em 2024, da jornalista russa Xenia Fedorova, ex-presidente da extinta RT France, braço francês da televisão estatal russa proibido de transmitir na União Europeia após a invasão da Ucrânia. A chegada de Fedorova à CNews alimentou acusações de complacência do canal com narrativas próximas ao Kremlin, críticas rejeitadas pela emissora.
Acusações de instrumentalização política
A polêmica em torno da CNews ocorre em meio a um debate mais amplo sobre o papel da mídia na França e sobre a influência da extrema direita nos meios de comunicação.
Reportagens dos jornais franceses Le Monde e Libération destacaram recentemente um clima de forte polarização durante os trabalhos de uma comissão parlamentar dedicada ao futuro do audiovisual público francês. Segundo os veículos, a disputa extrapolou a discussão sobre financiamento e gestão das emissoras públicas e passou a simbolizar uma verdadeira "batalha cultural" entre esquerda, direita e extrema direita.
O presidente da comissão, Jérémie Patrier-Leitus, chegou a acusar o deputado relator Charles Alloncle de agir como um "cavalo de Troia" do partido Reunião Nacional (RN), de extrema direita, para promover o enfraquecimento ou a privatização do setor audiovisual público. O parlamentar afirmou que as propostas defendidas pelo relator se aproximavam das posições já defendidas por Marine Le Pen e Jordan Bardella.
Caso de racismo impulsiona críticas
Os organizadores da petição citam ainda o caso envolvendo o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, eleito neste ano pela esquerda. Bagayoko, filho de imigrantes malianos e figura emergente da política francesa, anunciou que apresentaria uma queixa judicial após declarações feitas por comentaristas da CNews.
Em programas do canal, analistas compararam seu comportamento a dinâmicas de "tribos" e de "macho dominante", além de utilizarem referências a grandes macacos para comentar sua ascensão política.
As declarações provocaram forte reação de líderes da esquerda, que denunciaram um conteúdo racista. O prefeito anunciou uma mobilização "contra o racismo e o fascismo", enquanto a emissora classificou a controvérsia como uma "polêmica infundada".
O episódio ganhou grande repercussão nacional e levou a Justiça francesa a abrir uma investigação, tornando-se um dos símbolos mais recentes das acusações de discriminação dirigidas ao canal.
Debate sobre liberdade de expressão
O avanço da petição coloca os deputados diante de uma questão sensível: até onde uma democracia pode ir para regular um veículo acusado de promover conteúdos discriminatórios sem ferir os princípios da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão.
Para os defensores da iniciativa, a questão não se limita à linha editorial da CNews, mas envolve a responsabilidade dos meios de comunicação no combate ao racismo e à desinformação. Já críticos da proposta consideram que o fechamento de uma emissora de televisão representaria um precedente perigoso para a liberdade de imprensa na França.
A decisão sobre o futuro da petição caberá agora à comissão parlamentar responsável por analisá-la. Se os deputados optarem por prosseguir com o processo, o tema poderá chegar ao plenário da Assembleia Nacional e transformar-se em um dos debates políticos mais explosivos da reta final antes da campanha presidencial francesa.
RFI com agências