UE alerta para tentativa de afetar abastecimento após ataques cibernéticos a supermercados em 7 países

A União Europeia alertou nesta segunda-feira (2) para o aumento de ataques cibernéticos contra supermercados do continente, após uma nova onda de invasões elevar a temperatura de sistemas de refrigeração em estabelecimentos de pelo menos sete países europeus. O episódio ocorre apenas três semanas depois de um ataque semelhante atingir grandes redes de varejo na França e reforça preocupações sobre a segurança de equipamentos industriais conectados à internet.

2 nov 2026 - 14h27
Resumo
Ciberataques atingiram sistemas de refrigeração de supermercados em sete países europeus, forçando o descarte de alimentos após invasores elevarem temperaturas para até 50°C. A União Europeia alertou para a tentativa de desestabilizar a cadeia de abastecimento, embora descarte risco imediato à segurança alimentar. Especialistas apontam que a ação explorou falhas básicas de segurança e senhas fracas em equipamentos conectados à internet. A autoria das invasões ainda é desconhecida.

"A repetição desses ciberataques é extremamente preocupante. Trata-se de uma tentativa deliberada de perturbar nossa cadeia de abastecimento alimentar e minar a confiança dos consumidores, um alerta que devemos levar a sério", reagiu o comissário europeu para Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen.

Os freezers de um supermercado ficaram vazios devido a um ataque cibernético que afetou a temperatura de refrigeração, em 2 de novembro de 2026, em Estocolmo, na Suécia.
Os freezers de um supermercado ficaram vazios devido a um ataque cibernético que afetou a temperatura de refrigeração, em 2 de novembro de 2026, em Estocolmo, na Suécia.
Foto: © Marie Mannes / REUTERS / RFI

"Nossa segurança alimentar não está ameaçada neste momento, mas o desperdício de alimentos e seus impactos sobre as empresas são bem reais", acrescentou.

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Supermercados na Bélgica, Estônia, Finlândia, Irlanda, Luxemburgo, Holanda e Suécia registraram falhas em seus sistemas de refrigeração na manhã desta segunda-feira. Em diversos casos, o aumento da temperatura em refrigeradores e freezers obrigou os varejistas a descartar alimentos.

Em 12 de outubro, centenas de sistemas de refrigeração de lojas francesas também foram atingidos por um ciberataque, provocando perdas de mercadorias e levantando questionamentos sobre a proteção de infraestruturas consideradas essenciais.

Ninguém assumiu a autoria dos ataques.

Lojas relatam refrigeradores a 50°C

"É um ciberataque, não há outra explicação", afirmou o porta-voz do Carrefour da Bélgica, Mich Vergauwen, ao relatar problemas em cerca de 15 das 700 lojas da rede no país.

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A Ikea Bélgica informou que sua loja de Mons, no sudoeste do país, também foi afetada. Redes como Delhaize, Colruyt e Intermarché registraram problemas semelhantes, enquanto quatro lojas da Delhaize no Luxemburgo também foram atingidas.

O grupo belga de refrigeração industrial Sabcobel informou que começou a reforçar a segurança de suas instalações após o ataque ocorrido na França, mas cerca de 10% dos sistemas ainda não haviam sido revisados.

Na Irlanda, o grupo Musgrave informou que 13 lojas da rede Supervalu foram afetadas, além de algumas unidades na Holanda.

Na Suécia, a rede Coop confirmou que seis de suas cerca de 800 lojas sofreram um ataque cibernético durante a madrugada de segunda-feira.

"Podemos confirmar que se trata de um incidente cibernético. O problema já foi resolvido e os refrigeradores e freezers estão funcionando normalmente", declarou o porta-voz Carlos Cancino à AFP.

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Segundo ele, a empresa ainda não sabe quem está por trás da ação, mas os seis estabelecimentos afetados utilizavam conexão móvel 4G, e não o sistema 5G mais recente, o que os tornava "mais expostos" aos invasores.

Uma loja da rede sueca Ica, localizada em Sjöbo, no sul, informou nas redes sociais que seus sistemas de refrigeração "foram hackeados e a temperatura foi ajustada para 50°C". Na Estônia, pelo menos um supermercado teve seus equipamentos também elevados para 50°C por hackers, informou a emissora pública ERR.

Equipamentos antigos e vulnerabilidades conhecidas

As investigações apontam para uma possível ligação entre os ataques recentes e sistemas de controle de refrigeração fornecidos pela empresa dinamarquesa Danfoss.

Na Finlândia, algumas pequenas lojas do grupo Kesko também registraram temperaturas anormais nos equipamentos. "Estamos investigando a causa neste momento e uma interferência pela rede ainda não foi descartada", declarou à AFP Petri Käyhkö, responsável pela segurança do grupo.

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Roni Kokkola, especialista do Centro Nacional de Cibersegurança da agência finlandesa Traficom, afirmou que a expansão dos ataques para outros países não chega a ser uma surpresa.

"Observamos esse fenômeno na Europa nos últimos meses, portanto o fato de ele se espalhar da França para outros países era esperado. Hoje é comum ver todo tipo de vulnerabilidade sendo explorada de maneira cada vez mais rápida e intensa", avaliou.

Quando o mundo físico vira alvo de hackers

Para especialistas em cibersegurança, os incidentes revelam um problema mais amplo: a crescente exposição de equipamentos industriais conectados à internet. Durante décadas, sistemas de refrigeração industrial operavam isolados. Hoje, muitos estão conectados para permitir monitoramento e controle remoto. O objetivo dos hackers é justamente usar sistemas informáticos para interferir em equipamentos físicos.

"São equipamentos que permitem regular a temperatura de vários refrigeradores. Na maioria das vezes, é uma interface web. Você se conecta com uma senha e tem a possibilidade de escolher a temperatura que será aplicada ao refrigerador", explica Kévin Tellier, engenheiro de cibersegurança da Synacktiv.

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Essas interfaces "normalmente ficam em uma rede fechada" e "não deveriam ser acessíveis pela internet". No entanto, algumas delas estavam expostas "a qualquer pessoa com algum conhecimento".

Sem medidas adequadas de proteção, "qualquer fábrica, qualquer equipamento" conectado, seja nos setores automotivo, de energia ou de transportes, pode ser afetado por ataques semelhantes, alerta Olivier Daloy, especialista da empresa Zscaler.

Segundo um especialista ouvido pela AFP sob condição de anonimato, as infraestruturas industriais são especialmente vulneráveis porque combinam sistemas de tecnologia da informação (TI) com equipamentos operacionais físicos, alguns deles antigos.

Ao invadir uma rede, os hackers podem alcançar sistemas que controlam diretamente máquinas e equipamentos, provocando consequências concretas no mundo real.

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Segundo Daloy, os ataques costumam seguir dois caminhos principais, o da exploração de falhas de segurança ou o do uso de credenciais comprometidas para acessar os sistemas.

Na França, o ataque de outubro foi possível devido a "falhas elementares de segurança", afirmou Vincent Strubel, diretor da agência francesa de segurança cibernética (Anssi).

Entre elas estavam "a exposição direta na internet de equipamentos de refrigeração, sua administração sem proteção específica e o uso de senhas fracas".

Para Kévin Tellier, a operação não apresenta um nível elevado de sofisticação. "Pode ser qualquer pessoa. Como não é um ataque extremamente sofisticado, não é possível determinar se o autor dispõe de recursos importantes ou não", observou.

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Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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