Estudantes franceses ampliaram bloqueios em dezenas de escolas e universidades, desafiando o governo após considerarem insuficientes as concessões educacionais anunciadas. Os manifestantes exigem 10 bilhões de euros em investimentos e o fim da plataforma de seleção universitária. O movimento amplia a crise social na França, que também enfrenta forte pressão sindical por reajustes no salário mínimo em meio a debates orçamentários e à proximidade do fim do mandato de Emmanuel Macron.
Segundo o Ministério da Educação, 41 instituições de ensino foram bloqueadas, pouco mais de 1% das cerca de 3.700 escolas da França. "Aparentemente, trata-se de um movimento bastante residual", afirmou o ministro da Educação, Édouard Geffray, à rádio France Inter.
O balanço é fortemente contestado pela União Sindical dos Estudantes do Ensino Médio, que afirma ter contabilizado 150 estabelecimentos mobilizados nesta segunda-feira.
A previsão é que o movimento ganhe força ao longo da semana, após uma convocação para que mais universidades e escolas de ensino médio sejam bloqueadas nesta terça-feira (3).
"A mobilização continua. Não sentimos nenhum sinal de enfraquecimento", declarou Coppélia Moreau, da Interfac Île-de-France, coletivo que se apresenta como a assembleia geral dos estudantes das universidades da região parisiense.
O grupo pretendia realizar uma manifestação nesta terça-feira entre o Panteão e a sede do Medef, principal organização patronal da França. No entanto, a prefeitura vetou o trajeto e propôs um percurso alternativo, na periferia da capital, entre as portas de Charenton e de Montreuil, no leste de Paris.
Em resposta, o coletivo rejeitou o itinerário sugerido e anunciou que recorrerá ao Tribunal Administrativo para contestar a decisão.
Medidas anunciadas são consideradas "insuficientes"
Na semana passada, o governo anunciou algumas medidas para tentar pôr fim à contestação estudantil, que começou em meados de setembro. Os ministros da Educação e do Ensino Superior prometeram, entre outras ações, a substituição gradual da plataforma para a seleção às universidades até 2028, o cancelamento dos cortes de vagas previstos na Educação Nacional, a criação de 500 novos postos de trabalho, a limitação das turmas do segundo ano do ensino médio a 28 alunos e a abertura de 15 mil vagas adicionais no ensino superior.
As organizações sindicais estudantis classificaram o pacote como um "primeiro passo", mas consideraram as medidas insuficientes e mantiveram o chamado à continuidade da mobilização. Elas reivindicam um investimento de € 10 bilhões (quase R$ 61 bilhões) para escolas e universidades, além da revogação da plataforma de seleção às universidades francesas.
"Talvez tenha havido medidas; algumas podem ser aceitáveis, outras são ridículas", avaliou Pia, de 17 anos, aluna do último ano do ensino médio em Paris, durante o bloqueio de sua escola.
A margem de manobra do governo é estreita e o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, está ciente da complexidade da situação. Por isso, voltou a afirmar que está disposto a receber representantes dos estudantes do ensino médio "na próxima semana".
Já o ministro da Educação, Édouard Geffray, alerta para o risco do movimento ao ano letivo. "A prioridade absoluta é que os jovens possam frequentar as aulas. Temos alunos que farão o exame final ao término do ano — centenas de milhares deles — que não têm aulas há 4 ou 5 semanas", ressaltou.
Revalorização dos salários
Diante da crescente insatisfação social, que vem levando centenas de milhares de pessoas a protestos, o governo também terá de responder às reivindicações relacionadas ao poder de compra e aos salários. Sob pressão dos sindicatos, o Executivo estuda antecipar para dezembro uma revalorização do salário mínimo, inicialmente prevista para janeiro.
Na última sexta-feira (30), o ministro do Trabalho, Jean-Pierre Farandou, afirmou estar aberto a um aumento adicional de 0,5% a 0,6%, o que representaria cerca de € 20 (quase R$ 122) a mais por mês para os trabalhadores que recebem o piso salarial.
O valor, porém, é considerado insuficiente pelas centrais sindicais. Algumas delas defendem a elevação do salário mínimo para € 2 mil mensais (cerca de R$ 12 mil), contra os atuais € 1.867 (cerca de R$ 11.370).
Os sindicatos pressionam o governo para que avance em concessões e assuma compromissos concretos. O objetivo é manter a pressão sobre o Executivo em um momento em que os debates sobre o orçamento de 2027 seguem em curso na Assembleia Nacional.
O contexto político também aumenta a tensão. A seis meses da eleição presidencial, o presidente francês, Emmanuel Macron, tenta evitar que o fim de seu segundo mandato seja marcado por uma sucessão de movimentos sociais. Mas nada indica, por enquanto, que a mobilização, já disseminada em diversas partes do país, vá perder força nas próximas semanas.
RFI com AFP