Vitória Barreto, da RFI em Paris
O Appartement Brésil propõe um retrato do país que vai além dos clichês tropicais. Idealizador do projeto, Lucio Fonseca buscou inspiração no modernismo brasileiro para construir um diálogo entre Brasil e França, reunindo moda, design, arte e perfumaria em um mesmo espaço.
A proposta combina marcas já conhecidas do público internacional, como Farm e Água de Coco, com criadores independentes, artistas contemporâneos e casas tradicionais. "Eu quis fazer um diálogo de 360 graus entre Brasil e França", resume Fonseca.
Entre os participantes está a Phebo, marca centenária cuja história faz parte da memória afetiva de gerações de brasileiros. Para Sissi Freeman, diretora de marketing comercial da empresa, apresentar a marca ao público francês significa traduzir uma relação que, no Brasil, dispensa explicações.
"A Phebo é uma marca com a qual o brasileiro nasceu tomando banho, com tanta memória afetiva, o sabonete que o avô usava, que o pai usava, é tão presente na rotina e na cultura brasileira", afirma. "Quando contamos essa história para quem nunca ouviu falar da marca, não tem como não se apaixonar", completa Sissi.
A arte também ocupa um lugar central na programação. A curadoria de Pat Monteiro Le Clerc reúne nomes capazes de estabelecer pontes entre referências brasileiras e o olhar internacional. Entre eles está Maritza Caneca, artista que explora o universo das piscinas em fotografias e vídeos e que criou, para a exposição, uma releitura da piscina da Casa das Canoas, projetada por Oscar Niemeyer. Outro destaque é Jay Boggo, criador que transita entre moda e design e apresenta peças que refletem essa trajetória híbrida.
Novos olhares
Na fronteira entre arte, artesanato e design está a ceramista Lilian Malta. Especialista em bone china, técnica rara no Brasil, ela desenvolve peças delicadas inspiradas em ritmos e padrões encontrados na natureza. Em vez de reproduzir formas reconhecíveis, a artista prefere investigar esses elementos de maneira abstrata, explorando as possibilidades de um material conhecido pela brancura e pela leveza.
O projeto também abre espaço para marcas de menor porte já consolidadas no mercado brasileiro. É o caso da Missinclof, das designers Silvia Freitas e Tathiana Ventre. Desde a chegada a Paris, as criações da marca têm despertado a curiosidade de passantes, atraídos principalmente pelas texturas e pelos tecidos. Segundo as estilistas, o interesse não se limita à comunidade brasileira: as primeiras vendas foram realizadas para clientes europeus, um indicativo da receptividade do público local.
À frente da organização do evento, a agência franco-brasileira Onélia assina a curadoria ao lado de Lucio Fonseca. A seleção privilegiou marcas autorais, produções artesanais e nomes que representam diferentes facetas da criação contemporânea brasileira.
"Nossa intenção é mostrar que somos mais do que a imagem do Brasil tropical", afirma Dayana de Moraes Bandini, fundadora da agência. "Temos um design de muita qualidade e uma mao de obra impecável."
Até 26 de agosto, a Samaritaine recebe esse recorte da produção brasileira contemporânea em um ambiente que combina referências modernistas, moda, arte e design. Uma exposição temporária que convida o visitante a descobrir um Brasil menos previsível e mais diverso, em um dos marcos arquitetônicos de Paris.